ESPECIAL 4º SERCINE: Entre sonhos e frustrações – Amor, Plástico e Barulho

amorplastico

Cinéfilo Rafa Aragão fez uma análise do curta sergipano ‘O Muro é o Meio’ e do longa ‘Amor, Plástico e Barulho’, apresentados na segunda noite do 4º SERCINE

*por Rafa Aragão

A segunda noite do 4ºSercine trouxe dois bons filmes em sua sessão de “Longas e Lançamentos”. O primeiro a ser exibido foi o curta sergipano “O Muro é o meio”, do jovem realizador Eudaldo Júnior. O filme constrói um paralelo entre as intervenções artísticas e políticas nos muros da Universidade Federal de Sergipe e suas recentes mobilizações estudantis. O curta apresenta poucas falhas técnicas e de maneira simples e direta nos introduz ao ambiente estudantil e ao conflito com a gestão da UFS que não consegue ver nas intervenções dos estudantes uma forma de expressão artística. Talvez uma fala do Reitor ou de alguém da gestão UFS para dar a sua versão pudesse enriquecer mais o debate.  No mais, o filme nos mostra a necessidade de mais obras que abordem os conflitos vivenciados pela juventude dentro e fora dos muros da UFS. Estratégias de ação e intervenção como o Graffiti, as rodas de rima, o próprio movimento estudantil em suas múltiplas facetas ainda  são pouco retratadas.

O segundo e muito aguardado filme foi o pernambucano “Amor, Plástico e Barulho”, primeiro longa-metragem de Renata Pinheiro. O filme é uma fábula urbana que aborda  a busca pelo sucesso da jovem dançarina Shelly (Nash Laila) e da tentativa de retomada da veterana cantora Jaqueline (Maeve Jinkings). Ambas atuam na mesma banda de música brega – usando aqui o termo brega como substantivo em referência ao estilo musical. O filme mergulha de cabeça nesse ambiente musical. A base da história passa por essa dualidade entre as personagens, novo e o velho, sucesso e fracasso, intriga e amizade, o romantismo e a sensualidade.Enquanto Shelly acredita ter encontrado o amor, Jaqueline tem medo da solidão, de ser “descartada.As duas alimentam sonhos e frustrações.É como se fosse um encontro entre o passado e futuro, em que as duas se vissem e se espelhassem.

Em alguns momentos, o filme lembra muito outro recente longa pernambucano, “Tatuagem”, de Hilton Lacerda. Não só pela trilha sonora assinada por DJ Dolores em ambos os filmes, ou por tratarem de grupos artísticos que usam e abusam da sensualidade. A atuação de Maeve Jinkings com sua personagem Jaqueline em alguns momentos lembra a de Irandhir Santos e seu Clécio. Tanto Maeve como Irandhir conseguem tirar muito mais de seus personagens e por vezes destoam dos demais. Um dos momentos mais genais foi a forma como cantou a já icônica “Chupa que é de Uva”, conseguindo dar dramaticidade inimaginável à música. É um momento em que o público ri, mas ao mesmo tempo se compadece da dor sentida por Jaqueline e ao fim ficamos sem ação. Isso não quer dizer que atuação de Nash Laila é ruim. Mesmo sem a mesma carga de Jaqueline, Shelly também brilha quando sonha com o sucesso, quando responde cantando a uma pergunta ou quando seduz o Allan (Samuel Viera) como uma “Marilyn do brega.

Outro ponto alto do filme são as imagens que mostram a construção de um shopping próximo à periferia recifense. Uma sutil crítica à especulação imobiliária e busca pelo consumo desenfreado.Voltado aqui à ideia de conflito, agora expondo as contradições entre a falta de estrutura urbana e o desenvolvimento econômico materializado pelo shopping. Isso é feito através de imagens de qualidade inferior, como se fossem retiradas da internet. Há quem critique esse tipo de experimentação, mas no meu ver foi um dos grandes acertos do filme, fazendo uma quebra com o colorido que  ele  apresenta.  Na cena em que a personagem Shelly está prestes a se apresentar na TV, essa colagem de imagens ganha um ar psicodélico.

Por fim, o filme perde por não ter um roteiro forte, a trama parece se diluir um pouco em parte do filme. Se as imagens das boates brega enfeitiçam por sua sensualidade e música grudenta, a trama nem sempre consegue prender o público com a mesma força. No entanto, é um filme que merece muito ser visto, por conseguir entrar no ambiente brega como se fosse uma música do gênero, traz o amor, o sucesso, o fracasso, a sensualidade de forma bastante verdadeira.

* Rafa Aragão é estudante de Ciências Sociais (UFS) e Jornalismo (UNIT), compõe o coletivo A Mosca

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