ESPECIAL 4º SERCINE – MOSTRAS COMPETITIVAS UNIVERSITÁRIA E NORDESTE

 

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Estudante de audiovisual, Robson Viana, analisa os documentários e curtas das Mostras Competitivas Universitária e Nordeste exibidos na noite da última segunda-feira, 22, na 4º edição do SERCINE

*por Robson Viana

A noite começou com música. Felizmente não se tratou de um daqueles shows que em outros festivais sergipanos retiraram a atenção do que, afinal, deveria ter sido o mais importante nos eventos, isto é, os filmes. Para dar início à Mostra Competitiva Universitária, o Sercine apresentou ao público EÔ XANGÔ (2012), videoclipe de Poliana Costa. Em quatro minutos e quarenta e dois segundos, através da edição ágil que convém ao gênero, Poliana condensou imagens que fazem referência à religiosidade afro-brasileira, à MPB, ao Mangue Beat, à televisão e sua programação descartável. Um prólogo aceitável dentro da política de apresentação de diferentes produtos audiovisuais, mas uma opção estranha (equívoco?) num ninho que, à exceção deste, comporta apenas curtas e longas.

A MOÇA QUE EXISTE EM MEUS SONHOS (2012), de Luhan Dias, simpática animação que veio a seguir, mostrou como Tião, empregado de uma loja de instrumentos musicais e músico em crise emocional e criativa, passa por uma transformação após sonhar com a tal moça. Canção de Sidney Magal, diálogos “espertos” e happy end inverossímil, como se permitem certos desenhos animados, completam o pacote. Fez bonito.

À ESPERA (2012), de Felipe Aufiero Fonseca, parecia querer enveredar pelo caminho da sugestão, mas encontrou apenas o da confusão. Qual a relação daquele homem e daquela mulher que vemos? São marido e esposa? Irmãos? O que ela espera, inconsolável, à beira do caminho de terra? Por que ele se angustia com a situação? Como entender o final abrupto dessa crônica de uma saudade? De qualquer forma, tem sua beleza. Em alguns momentos, lembra o trabalho do turco Nuri Bilge Ceylan (exagero deste que escreve? referência, de fato, para o diretor?). Os planos gerais e as panorâmicas do campo bucólico, os quadros atravessados por longas estradas cobertas por um céu imenso, os interiores parcamente iluminados por velas bruxuleantes e a atuação da dupla de atores remetem ao ERA UMA VEZ NA ANATÓLIA (2011). Nada que o sustente, entretanto.

Último título do dia na Mostra Universitária, NOITE NA TAVERNA (2014), de Yghor Boy, uma livre adaptação da obra póstuma de Álvares de Azevedo, não se apropriou devidamente do tom trágico e macabro do romance. Parcamente iluminado (a intenção era disfarçar as limitações da direção de arte?), ele se perde em maneirismos modernosos que pouco contribuem para contar a história (difícil conciliar a estética MTV com o poeta romântico), e ainda incomoda com suas falas excessivamente declamadas.

A Mostra Competitiva Nordeste estreou com o pernambucano PORCOS RAIVOSOS (2012). Nele, Isabel Penoni e Leonardo Sette pretendiam contar a história de um grupo de índias que se prepara para fugir da aldeia onde moram, pois seus maridos se transformaram em porcos raivosos. Pode-se dizer que há aqui um argumento que lembra o universo folclórico de certos trabalhos de Apichatpong Weerasethakul, tailandês habituado a macacos-fantasmas, aparições de espíritos, bagres falantes e princesas encantadas. Não se trata, contudo, como é o caso até do Apichatpong primevo, de burlar as regras do cinema que obedece à “monocultura” de uma lógica narrativa que impede minorias de expressarem seus modos de estar no mundo. O que poderia ser um reforço do entendimento e defesa das diferenças culturais, perde-se em performances exóticas e encenações de rituais bizarros de um roteiro que não resolve o drama que propõe.

Eduardo Menezes e Manoel Neto foram os responsáveis por UM CAIPIRA URBANO (2012), um exercício de desperdício de um personagem rico de memórias. Gérson, o “Tupã da Viola”, resistente da cultura caipira que ganha a vida como serralheiro em Aracaju, é apresentado irresponsavelmente (ridiculamente entregue ao riso da plateia, diga-se) como um sujeito xucro e nostálgico. Um retrato deprimente que perde de vista a importância dos hábitos anacrônicos de “Tupã” e é pouco claro quanto ao espaço que ele e sua voz ocupam na cidade.

Focando igualmente numa figura musical, PATATIVA “XIRI MEU” (2014), de Tairo Lisboa, atinge o que o documentário sergipano ignorou: o respeito pelo retratado. Mesmo incorrendo em alguns problemas de montagem (declarações que pouco acrescentam e um mal jeitoso plano sequência inicial que poderia ser abreviado sem prejuízo), resiste graças à simpatia da protagonista, célebre figura dos bares e ruas maranhenses, e sua música.

Cereja no topo bolo da presunção da segunda Mostra Nordeste, CARNE (2013), de Carlos Nigro, é bem dirigido e interpretado. “É um filme pernambucano, ora!”, disseram alguns mais entusiasmados. Sim, pernambucano, e repleto de “pernambuquices”, “imagens de crueldade”, reiteração de intentos artísticos radicais que já se tornaram clichês: sexo, assassinato, abate de animais, carne crua, sangue, carcaças, feridas, tentativa de conjugar sordidez com poesia, conduta humana resvalando na selvageria. A referência parece ser Claudio Assis (ainda que neste o naturalismo impere e no curta em questão o registro seja o do realismo que flerta com o surrealismo). Mas isto fica expresso apenas no estilo: a fotografia em tons amarelados e vermelhos e a câmera que esquadrinha a solidão do garoto, filho de um açougueiro, que presencia a ocorrência de fatos extremamente violentos, parecem clonar procedimentos de AMARELO MANGA (2002) e BAIXIO DAS BESTAS (2006). CARNE não avança sobre a história que narra com desenvoltura, não promove a denúncia das mazelas sociais que são a tônica dos curtas e longas de Assis. É ingênuo na escatologia que representa.

Enfim, o Sercine tem quatro dias pela frente. Esperemos que os próximos filmes não afoguem na própria pretensão, que haja uma plateia maior (um problema que a curadoria deve enfrentar é como atrair o público, como não ficar o evento restrito ao exíguo grupo de sempre: uns poucos gatos pingados interessados em cinema e alunos menos apáticos dos cursos de Comunicação e Arte) e que ocorram conversas e trocas de impressões entre uma exibição e outra (não é isso que, também, torna viva a experiência do cinema?).

*Robson Viana é estudante de audiovisual, cinéfilo e inconsequente torcedor da incipiente produção audiovisual de Sergipe

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