ESPECIAL 4 ° SERCINE – A ESTREITEZA DE IDEIAS NOS FILMES

ILHA

Devo admitir, portanto, que os curtas selecionados não têm produzido em mim qualquer efeito que não seja o de preguiça

*por Robson Viana

O segundo dia de competição contou com uma plateia extremamente reduzida, se consideramos o primeiro dia, que nem foi tão cheio assim… Onde estavam os estudantes de audiovisual da UFS? Fazem falta neste evento que é um importante canal de escoamento para seus próprios trabalhos, inclusive. Mas não somente a ausência deles se fez notar. Há um público amplo que o Sercine precisa cativar nas próximas edições. O festival não pode continuar sendo um evento de panelinha, uma confraria. Deve ter ressonância cultural, social, política.  Como resolver isso? Há muito para se discutir. Os problemas envolvem desde uma seleção atrativa de filmes e horários “democráticos” (insisto que a última sessão termina tarde para quem não tem veículo próprio e mora em bairros periféricos, logo, sujeitos a situações de risco e redução dos transportes públicos depois de certo horário), até, como já insinuei, a provocação aos “audiovisueiros” (termo em voga no curso de Comunicação) e a divulgação mais ampla, e (aqui a fica coisa delicada, e o pseudocrítico que vos escreve se prepara para defender-se das pedradas) a reavaliação do modelo atual baseado na resistência. Reclamar de quem não comparece não adianta nada. O vitimismo engessa.

Passada a introdução repleta de pentelhice e achismo, volto para o que realmente interessa. Antes, permitam-me admitir que nunca pretendi ser crítico profissional. Tampouco alimento em mim qualquer desejo de forjar uma persona acadêmica que arrota teoria. Sou um diletante, aquilo que em tempos românticos fazia sentido chamar de “cinéfilo”, mas que hoje soa um tanto quanto fora de tempo e pedante. Amo filmes. Odeio filmes. Tenho preguiça com filmes. Sinto-os. Independente de terem sido feitos por um cineasta renomado ou alguém ainda sem experiência (aliás, uma das coisas que me tocou recentemente, chama-se UM LUGAR EM QUE UM HOMEM MORA (2003) – recomendo uma olhada, está disponível no Youtube, e é de um diretor sem currículo vasto, mas de extrema consciência das possibilidades do discurso cinematográfico, apesar dos parcos recursos a que teve acesso). Obviamente, minha percepção e modo de sentir são filtradas pelas minhas experiências de vida, gosto e conhecimento sobre História e Teoria do Cinema. Neste sentido, mesmo não sendo um crítico, exerço um olhar crítico sobre os filmes. É aqui, e unicamente aqui, que reside minha fajuta “licença” para escrever sobre eles.

Devo admitir, portanto, que os curtas selecionados não têm produzido em mim qualquer efeito que não seja o de preguiça. Há muita estreiteza de ideias neles. Sei, sei: são filmes de estreantes. (“Não seja irascível, Robson!”, fala minha consciência, e eu, pra variar, dou pouca atenção aos avisos dela – por isso a bichinha encontra-se carregada…). Contudo, acredito e defendo que imaturidade não necessariamente está relacionada com ingenuidade e desleixo. Assim, por que a narração monocórdica e as imagens pleonásticas de CONFLITOS E ABISMOS: A EXPRESSÃO DA CONDIÇÃO HUMANA (2014), de Everlane Moraes, documentário no qual um pintor explica sua arte?  No site do Sercine, lemos a seguinte sinopse: “o filme realiza um profundo estudo iconográfico, iconológico e fenomenológico da obra de um artista sergipano, resgatando todo o material da sua trajetória artística, analisando a estética de seu trabalho e enfatizando a sua concepção sobre o universo artístico”. Não é enfadonho sobrepor fala e desenhos, aquela explicando estes, numa combinação didática, sonolenta? Um artista é a pessoa menos autorizada a falar sobre sua criação. Ele apenas cria. Ponto. A nós todos cabe fruí-la e (res) significá-la. Apenas as imagens já não seriam a própria ênfase da visão de seu criador? O MISTÉRIO DE PICASSO (1955), de Henri-Georges Clouzot nos ensina algo sobre isto: sem recorrer à auto-explicação verborrágica, iluminou a obra do espanhol. O que Picasso faz no filme? Nada além de pintar, deixar-se observar em atividade. O resultado é impactante, um verdadeiro tesouro do cinema e da humanidade. Confiram.

Outro documentário problemático: ABRAÇO DE MARÉ (2013), de Victor Ciriaco, não apresentou concatenação alguma entre os depoimentos dos entrevistados, uma família ribeirinha, e as imagens de um preto e branco do qual me escapou qualquer pertinência estética. Restou como curiosidade antropológica. MEU CORPO, MINHAS REGRAS (2013), de Matheus Farias, registrou com proselitismo a Marcha das Vadias que coloriu e encheu de protesto as ruas do Recife em 2013. Necessário e bem intencionado, em termos de linguagem cinematográfica teve pouco a mostrar e, em muitos planos, talvez por causa da situação de improviso das filmagens, mostrou errado.

Sem improviso e com rigor: é o que se pode dizer sobre as ficções ILHA (2014), de Ismail Moura, e ACALANTO (2013), de Arturo Saboia. O filme de Moura, relato trágico que flerta com o absurdo, conta a história de um pai e seu filho portador de sofrimentos mentais; o de Saboia, crônica da saudade, encena a cumplicidade entre uma senhora analfabeta e um amigo que lê para ela as cartas que seu filho, quando vivo, enviava para a mãe. Ambos, fotografados com empenho, sofrem de academicismo. ILHA se vale de estereótipos imagéticos do Nordeste, ACALANTO, ainda que retirado de texto original de Mia Couto, reprisa narrativa semelhante a tantas já filmadas.

Hoje, quarta-feira, 23, a programação continua. Torço para que os ares da novidade e da provocação soprem no Teatro Atheneu. E para que o público apareça!

*Robson Viana é estudante de audiovisual, cinéfilo e inconsequente torcedor da incipiente produção audiovisual de Sergipe

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