Igreja Universal, Governo e a Política Real – De um Padroado às Avessas

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Houve um tempo em que o Estado agradava a Igreja para garantir a manutenção do poder pelos caminhos indiretos. Hoje é a Igreja que agrada os governos, crescendo na carona do vale-tudo eleitoral

*por Romero Venâncio

Durante o período imperial, em todas as suas fases, as relações entre Igreja (aqui, a Igreja Católica Romana) e Estado se deram na base do chamado “padroado”. O governo imperial mantinha a Igreja Católica em todas as suas “necessidades” econômicas. Construía Igrejas, pagava aos padres e bispos e auxiliava na manutenção mais cotidiana em termos de ajuda financeira. O patrimônio era da Igreja, mas sua manutenção econômica era por conta do Estado. Isto não se dava sem retorno, obviamente.

Na política não existe fundo perdido ou “caixinha das almas” (salvo para alguns delirantes ou bajuladores de plantão, é mais uma vez óbvio!). O estado monárquico brasileiro quase nomeava os bispos e manipulava o local onde o padre deveria atuar. A Igreja Católica e seu “trabalho pastoral” era extremamente útil à lógica do governo monárquico em tudo. A cínica ideia era: os pastores cuidam das almas e o governo cuida das coisas terrestres: dominar, pilhar, escravizar e discursar a torto e a direita, etc. Foi cômoda e necessária a uma lógica de dominação a forma como aconteceu o padroado na política brasileira.

Merece destaque uma coisa: não sem reação. A política brasileira, de Zumbi dos palmares a Antônio Conselheiro, não foi um mar de rosas na dominação. Tivemos lutas dos de baixo e nossa memória não pode ser como a da maioria dos petistas atuais: uma espécie de “zero à esquerda”. Não deve, inclusive ser isto. Com a constituição republicana de 1891, o padroado foi extinto formalmente -apesar das relações e benefícios Igreja-Estado ter continuado por outras vias até bem pouco tempo atrás – e seguiu-se um processo de separação do “poder temporal” em relação ao “poder espiritual”. Houve momentos em que a Igreja Católica fez críticas às práticas do Estado nas suas clássicas forma de violentar direitos e cidadãos. Outra história e águas passadas com sua particular importância. O tempo parecia ser outro.

  Estamos numa época em que a capacidade de surpreender, para o pior, em política parece algo sem rumo ou fim. Ou seria o “novo tempo do mundo” às avessas na lógica do filósofo Paulo Arantes? Estamos descobrindo e vendo com os olhos que temos. A da vez: a Igreja Universal do Reino de Deus e a inauguração do suntuoso e faraônico “Templo de Salomão”. O nome remete ao do rei bíblico de falsa fama de sabedoria e de sábia forma de dominação cruel e implacável com seus súditos. Recomendo a leitura do profeta Samuel e suas observações sobre o destino da monarquia entre o povo de Israel. Tal inauguração se deu na mais rigorosa pompa e de propaganda acachapante por parte da TV Record (propriedade da mesma Igreja Universal). A segunda da vez: a presença do prefeito e do governador de São Paulo. E mais: da presidenta e candidata Dilma.

  Qual razão de tamanha celebridade na inauguração de mais um “templo” da Igreja Universal no Brasil? Campanha (já que a presidenta é candidata!)? amor a fé religiosa do povo pobre brasileiro (pouco provável tamanho zelo religioso na mandatária de plantão)? Amizade com os pastores e bispos da Universal (estamos esquentando!)? mas a resposta mais próxima da verdade viria um pouco depois e pelos jornais da casa grande brasileira e pela oficialidade da própria Igreja Universal: o bispo Edir Macêdo estaria doando a bagatela de 10 milhões de reais à campanha da presidenta em campanha. Para torrar em publicidade, na melhor das hipóteses. Para os bajuladores de plantão, os intelectuais governistas e os petistas delirantes e dependentes de cargos, mais um alívio para a “dura” campanha contra o PSDB e seu candidato de direita e do atraso. A presidenta Dilma com Sarney, Collor, Jader Barbalho e tantos outros velhos e novos oligarcas tem agora mais um peso pesado na luta: Edir Macêdo e a Universal. Não acredito que o delírio chegue a tanto de achar que esses 10 milhões ficaram de graça para a Universal. Deverá ter volta das maneiras mais insondáveis possíveis, mas terá volta… Esperemos, em nome de Jesus!

  Aqui entra uma posição bem mais pessoal: aquilo que mais me chamou a atenção e me desconcertou um pouco foi a forma cínica e silenciosa com que se viu esta noticia estampada em jornais e televisões. Mais um jogo de campanha? Por certo. Mas não só isto. Vejo algo mais grave neste “padroado às avessas”: agora é uma Igreja que oferta dinheiro, e muito, ao governo. Estamos diante de um partido que veio das esquerdas e das lutas populares e que hoje recebe abertamente uma grande soma de dinheiro de uma Igreja chamada de “neo-pentecostal”. O que isto significa mesmo?

Primeiro, chamemos a atenção para a forma pedagógica com que esta Igreja arrecada seu dinheiro. Recomendo vermos as práticas da Igreja Universal na programação da TV Record entre meia noite e seis da manhã todo o santo dia. São mentiras, ilusões, agressões às religiões afro-brasileiras, falsas promessas de riqueza e verdadeiros “passe de mágica” na forma de enricar dando a Igreja. Tudo, mas tudo para tirar dinheiro de pobres, desavisados e gente a beira da desgraça econômica é feito na madrugadas e dias na Universal do Reino de Deus. A igreja virou o “pronto socorro dos desesperados e vitimas da máquina infernal do capitalismo”.

Segundo, é dessa forma (e de outras que ainda não sabemos) que esta Igreja conseguiu seu dinheiro e o exibe publicamente na televisão e assim sendo, este é o dinheiro que vai para a campanha da presidenta. Lógico. Fica claro ainda uma coisa: sempre que tivermos durante as campanhas algum material com o nome da Dilma, podemos ter ali algum dinheiro que teve esta origem econômico-religiosa, ou não? Fica mais ridículo ainda para uma esquerda que se diz “popular” (esquerda do tipo “lepo-lepo”) usar esse dinheiro via a campanha de Dilma e achar que tá marchando para algum “socialismo”, e por ai vai.

Triste, muito triste tudo isto. Mas bem real e vivo e para que fique na história esse momento de 2014: ano da graça do Senhor e dos 10 milhões de uma Igreja Neo-pentecostal para uma campanha política. A presidenta deu um grande exemplo: daqui para frente vale tudo para se eleger no pleito atual, não temos mais limites… Só que esse mesmo vale tudo não caberá a todos os candidatos e candidatas e ainda termos aqueles e aquelas que não se renderam a isto tudo. Aqui reside um pouco da nossa esperança!

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

3 comentários sobre “Igreja Universal, Governo e a Política Real – De um Padroado às Avessas

  1. Professor Romero entendo sua preocupação com a origem do dinheiro, mas lembro ao senhor que a revolução não foi feita (cabeças não rolaram) e as forças políticas continuam as mesmas do século passado. O PT tenta transformar um pouco a realidade, chegando e se mantendo no poder ( através dos mais variados conchavos políticos ), jogando as regras estabelecidas até então ( não tributação às Igrejas, direito constitucional ao livre culto, população brasileira sem formação política e pouco instruída, financiamento privado das campanhas, …). O sistema é esse, não foram feitas as reformas necessárias. Além do fato de a extrema esquerda não conseguir dialogar efetivamente com a classe trabalhado, não tendo sequer 10% das intenções de votos.

  2. O texto é bom e faz análises muito interessantes e pertinentes sobre a continuidade da relação entre igrejas e poder político-institucional. Porém, não sei se dá para acreditar na informação de um blog de um autor que se diz independente e do lado da “verdade objetiva” que das postagens da primeira página só publica críticas ao governo de coalizão do PT. Sobre a relação Dilma-Edir, vale lembrar que a única TV presente na posse da presidenta foi a Record, com diretores e o próprio Edir Macedo.

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