Sofia F. Ricardo: “Fui mobilizada por um ocorrido para erradicar a transfobia”

"Sofia Faveiro Ricardo", como no Registro Geral. Reconhecimento oficial do nome social é uma das pautas do movimento
“Sofia Faveiro Ricardo”, como no Registro Geral. Reconhecimento oficial do nome social é uma das pautas do movimento

Estudante de psicologia, administradora de página no facebook, dona de um site de conteúdo, filha amada… existem muitas formas de identificar alguém para além do seu gênero.

  *por Irlan Simões

Ela esteve dentre os principais assuntos dos últimos meses, quando foi vítima de um caso surpreendente de opressão. Numa das rotineiras viagens de ônibus para a faculdade, foi abusada sexualmente por ser “confundida” como uma mulher cissexual, e posteriormente agredida verbal e fisicamente ao ser identificada como uma mulher travesti.

Por muito pouco a vítima não se torna mais um número em uma estatística chocante da realidade brasileira: apenas em 2013, foram registrados 312 mortes de LGBTs, dentre assassinatos e suicídios. Segundo os dados do Grupo Gay da Bahia, desses,  108 casos foram de trans, a maioria dessas assassinadas em locais públicos.

Esse fato você provavelmente já conhece, mas fomos atrás da vítima para conhecer um pouco mais sua história para além da agressão. Sofia Favero Ricardo, a personagem do caso lamentável que foi narrado com resumo, é estudante de Psicologia, e vive na cidade de Aracaju, Sergipe; uma das capitais da região Nordeste, aquela que concentra, segundo o mesmo estudo, 43% dos casos de violência homofóbica e transfóbica.

Perguntei se a opção pela área acadêmica teria alguma relação com o crescimento dos estudos sobre identidade de gênero e sexo, ela revela que se enganou na escolha: “Escolhi essa área por achar, equivocadamente, que ela era segura e livre de preconceitos”, explica Sofia. “Mas descobri com o passar do curso e com o convívio com professores machistas, homofóbicos, misóginos e transfóbicos que não era da forma que eu pensava que seria”, lamenta.

Antes do caso da agressão sofrida em maio de 2014, Sofia já administrava uma página do facebook, a Travesti Reflexiva, que atualmente conta com mais de 70 mil curtidas. Sofia nos explicou que a página foi criada para servir de ferramenta de conscientização para o senso comum. O público que a acompanha ultrapassa os limites daquele taxado como “público gay”, também atraindo a atenção de defensores das causas do movimento LGBT’s.

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Militantes do coletivo Desmontadxs na Marcha das Vadias 2014.

“As causas”, na forma plural, aqui precisam ser destacadas. Sofia nos alerta do seu entendimento: “É importante que exista um feminismo interseccional e que o transfeminismo avance”. Os termos parecem complexos, mas estão no centro do debate atual. “A liberdade de todas as mulheres, já que não existe apenas uma forma de ser mulher, é necessária para combater o machismo”, espalha Sofia.

É importante compreender esse aspecto, inclusive, para fazer uma leitura mais ampla do que simbolizam as grandes manifestações feministas como a Marcha das Vadias. Em Aracaju, com a colaboração de Sofia Ricardo (que inclusive fez parte de uma das peças de divulgação), o coletivo Desmontadxs se somou à Marcha, ampliando as pautas e bandeiras levantadas. O Desmontadxs se define como um “coletivo queer que luta por todxs aquelxs que têm os seus corpos constantemente negados pela ordem social normativa”, reunindo dessa forma travestis, transexuais, lésbicas, bissexuais e as mais diversas formas de identidade de gênero e sexo.

A proposta da entrevista era evitar tocar no tema, já batido e rebatido, da agressão sofrida, mas foi inevitável perguntar o quanto o fato teria contribuído para a tomada da postura de militante por Sofia Ricardo. “Acho que, assim como muitas pessoas, fui mobilizada por um ocorrido para entrar na militância. Penso que sofrer uma agressão seja uma razão marcante para querer mudar uma realidade, e nesse caso, erradicar a transfobia”, nos conta Sofia.

Outra iniciativa de Sofia Ricardo para colaborar com a pauta da “visibilidade trans” é a sua página IdentidadedeGenero.com.br, a qual, segundo a própria, é destinada a “servir de dicionário e consulta para quem estiver perdido sobre transgeneridade”.

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Imagem de capa da página ‘Travesti Reflexiva’, no facebook. Arte de Maira Coelho Trindade.

Tomei a liberdade de pergunta-la sobre questões mais pessoais, como a relação com a família. Sofia é um caso raro (como ela mesma afirma) de travestis ou transexuais que conseguem ter apoio da família nesse processo de reconhecimento público de sua identidade de gênero. “Eu penso que a minha mãe, assim como muitas mulheres, foram moldadas para serem maternais e acolhedoras, se não fosse por ela, eu realmente teria seguido um destino escuro e incerto”, destaca Sofia.

Mais do que tratar do seu caso específico, para Sofia esse é um dos principais problemas enfrentados pelos e pelas trans, e aí quando passa a falar como uma estudiosa do tema: “A família é a primeira instituição que o indivíduo está inserido, se ela falha, propositalmente ou não, é encarregada ao estado a tarefa de cuidar da criança ou do adolescente. O que acontece é que a própria sociedade estimula que a família abandone a criança que se comportar dessa maneira, se ainda hoje vemos uma grande quantidade de gays sendo expulsos de casa, imagine quando se for falar de travesti? Até a palavra assusta”, opina.

Dentre avanços muito interessantes, como o apoio conquistado em manifestações presenciais e virtuais, Sofia F. Ricardo segue colaborando de formas diretas e indiretas na superação da transfobia. Sua página hoje também funciona como um espaço de troca de experiências pessoais e familiares de trans, convergindo um público que tem na luta contra a opressão mais do que uma urgência.

 Como muitos comentam na página, aqui reafirmamos: Vai ter reação do Oprimido, SIM!

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