Os novos rumos da FLICA – Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarzinho

Intervenção de jovens cotistas na mesa de Demétrio Magnoli, na FLICA 2013.
Intervenção de jovens cotistas na mesa de Demétrio Magnoli, na FLICA 2013.

Organizadores da FLICA apontam para mudança de estratégia em forma e conteúdo. Choques anti-racistas da edição anterior teriam motivado postura.

*por Diogo de Oliveira e Irlan Simões

Já consolidada como evento cultural de grande porte, a Festa Literária Internacional de Cachoeira, partirá para a sua terceira edição com algumas alterações já visíveis. O evento acontece em Cachoeira, uma das cidades mais relevantes do místico Recôncavo Baiano. Com o crescimento da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), muitos eventos passam a ganhar notoriedade na região, que atrai estudantes e professores de todo o país, mas também muitos visitantes curiosos.

A UFRB, tal qual todo o Recôncavo Baiano, se destaca pela grande quantidade negros dentre os seus membros comunitários. Talvez um dos principais redutos da cultura afro-brasileira, a cidade de Cachoeira hospeda o Centro de Artes, Humanidades e Letras, e foi uma das pioneiras na aplicação da Lei de Cotas no Ensino Superior. Essa característica é ressaltada com frequência pelo corpo docente e diretivo da instituição, que também se destaca por ter planos de assistência e permanência de estudantes eficientes e bem elaborados, se comparados com outras universidades federais brasileiras.

Esses fatores fazem da FLICA muito mais que um mero evento literário. A Festa, que entrou na programação cultural de Cachoeira em 2012, tem se tornado um espaço de grande embate político, seja no tema das artes, seja no tema da educação pública. Seus produtores, participantes e patrocinadores dão diversas pistas de quem pretende pisar no chão resistente de Cachoeira.

Contra as cotas, só racistas

Em 2013, na segunda edição da FLICA, uma manifestação anti-racista contra a presença do sociólogo Demétrio Magnoli, fechou as portas do Convento do Conjunto do Carmo, local onde ocorria o evento literário. A manifestação foi narrada no portal Geledés, pela professora adjunta da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Ângela Figueiredo, com as palavras de ordem dos manifestantes “Demétrio racista, aqui só tem cotista!”.

Essas palavras deram o tom da manifestação de estudantes e membros da comunidade de Cachoeira contra a presença do sociólogo paulista. Demétrio Magnoli, que também era colunista de O Globo e do Estadão, era convidado da Feira Literária Internacional de Cachoeira – FLICA para falar na mesa “Donos da terra? Os neoíndios, velhos bons selvagens”, no dia 26 de outubro.

O jornalista, Silvo Benevides, do blog Salvador na Sola do Pé, descreveu como se deu o embate teórico, do dia 20 de outubro de 2013, protagonizado por Magnoli, a pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Hilda Baqueiro e o professor/apresentador Jorge Portugal, teve a guinada com a manifestação no Conjunto do Carmo.

“Para o sociólogo da Universidade de São Paulo, existem quatro grandes narrativas sobre os índios brasileiros, construídas ao longo da história nacional. A primeira foi criada pelos missionários jesuítas, que desejavam “salvar” almas. A segunda, criada pelo movimento romântico brasileiro no período imperial, retratava um índio que não existia nem nunca existiu. A terceira, a do Marechal Rondon e dos irmãos Villas-Bôas, visava integrar o índio à sociedade brasileira. Por fim, a narrativa dos neoíndios, forjada, segundo ele, por ONG’s vinculadas a organizações internacionais. De acordo com o Demétrio Magnoli, esta última narrativa foi responsável por banir das escolas brasileiras de maneira irresponsável a narrativa de integração do índio à sociedade nacional proposta pelo Marechal Rondon e pelos irmãos Villas-Bôas, e com isso, criou-se no Brasil, segundo ele, uma nação racialista, dividida em raças, e não uma sociedade integrada, uniforme, verdadeiramente democrática”, destacou.

O texto segue, com os eventos que que sucederam: “Diante de tais impropérios, Maria Hilda Baqueiro deu uma verdadeira lição sobre história indígena no Brasil, deixando bem claro e explícito para os presentes o total desconhecimento do sociólogo uspiano sobre o tema do debate e o quão suas palavras e idéias estavam imbuídas de um senso comum bem rasteiro e de juízos de valor de uma camada social brasileira que não deseja, de modo algum, abrir mão dos seus privilégios de classe. Quando o Demétrio Magnoli pediu a palavra para contestar a Maria Hilda Baqueiro, uma voz gritou em alto e bom som: RACISTA! Era o início do protesto. Um grupo de jovens estudantes abriu uma faixa na qual se podia ler “Contra as cotas, só racista” e, assim, conseguiram impedir a reprodução de um discurso racista tão fartamente reproduzido pelos grandes veículos de comunicação, por meio de intelectuais como o Demétrio Magnoli, assumidamente contrário às políticas de ações afirmativas, das quais as políticas de cotas fazem parte”, descreveu o jornalista.

O protesto se estendeu até a manhã sábado seguinte, quando aconteceria uma mesa com o filósofo Luiz Felipe Pondé, que também é colunista do jornal Folha de S. Paulo.  A sua mesa também seria cancelada diante dos protestos dos estudantes, que também questionaram o convite de Pondé por sua postura anti-cotas.

O curador do evento, o historiador Aurélio Schommer, classificou a atitude dos estudantes como fruto de “uma ideologia totalitária”. Também apontou os autores do ato como “pessoas de uma religião totalitária”, provavelmente se referindo à posição política dos estudantes. Demétrio Magnoli e Luiz Felipe Pondé, para além das suas posturas contrárias à política de cotas, se notabilizam pelo posicionamento conservador em seus textos e declarações públicas.

Os caminhos da FLICA

A primeira apresentação da Festa Internacional Literária na Cidade Heróica, em 2012, expôs o vínculo orgânico da Festa com Rede Bahia de Televisão. Embora os convidados e as temáticas abordassem os mais diversos caminhos literários, a mediação de 90% das mesas de debates do evento se deu por funcionários do conglomerado de comunicação, nas presenças de Jorge Portugal e Jackson Costa.

A principal produtora da FLICA, é a iContente, que se auto-define como “uma empresa da Rede Bahia, atua no segmento de entretenimento, oferecendo ao mercado nacional e internacional alternativas de comunicação e marketing através da criação e comercialização de projetos musicais, culturais, educacionais, empresariais, esportivos e corporativos” e traz no currículo, o Festival de Verão de Salvador, o Festival de Inverno, que acontece em Vitória da Conquista e organiza o Réveillon de Salvador.

Em 2013, logo após o ato, um dos principais curadores da FLICA, e diretor da PutzGrillo, também produtora da FLICA, Emmanuel Mirdad, ressaltou em seu blog, “Esta nota [..] trata-se de uma opinião minha enquanto profissional responsável pela curadoria da programação literária (ao lado de Aurélio Schommer) e pela coordenação geral (ao lado de Marcus Ferreira e dos diretores da Icontent/Rede Bahia), além de interlocutor da organização com os manifestantes que impediram a realização da mesa “Donos da Terra? – Os Neoíndios, Velhos Bons Selvagens” no último sábado pela manhã e exigiram o cancelamento posterior da mesa “As Imposições do Amor ao Indivíduo” que seria realizada à noite, e em síntese, ele expõe sua opinião acerca da manifestação “Este ato dos 30 foi um imenso desperdício”.

À superfície está uma pretensa mudança de conteúdo e forma. Emmanuel Mirdad, apresentou a edição deste ano – com o atual presidente da Rede Bahia, Antonio Carlos Magalhães Jr – que a homenageada é a escritora, enfermeira e Yalorixá, Mãe Stella de Oxossi. O G1, empresa que compõe o grupo da produtora da Festa Literária, publicou matéria, em 29/07, afirmando ser a primeira vez que a Festa homenageia alguém.

Além dessa estratégia, o visual de divulgação online do portal também mudou. A FLICA agora apresenta uma imagem de corpos pretos em samba, não mais a coloração da ponte D. Pedro II, que liga as cidades de Cachoeira e São Félix. A programação oficial ainda não foi lançada, mas devemos ver novamente Jorge Portugal e  Jackson Costa nas mediações de mesa.

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