O fim da Política e a Tarefa do Negócio (da política) – Das eleições.

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“Aqui a coisa é bruta e pragmática: se prepara e se ganha eleição no jogo do negócio da política e não no do idealismo da política”

*por Romero Venâncio

 

  Noticias de uma guerra particular: no filme-documental do cineasta sergipano Fabio Rogério, intitulado: “A eleição é uma festa” tem um personagem (literalmente) real da política local chamado Robin (alusão ao herói coadjuvante do outro, Batman), candidato a vereador em pleito passado e que virou figura folclórica na eleição.

 O que mais me chamou a atenção no documentário foi o momento da frustração do candidato Robin: ele inicia o filme fazendo planos e arriscando um número relativamente alto de votos. Ficou muito abaixo do esperado e quase vai às lágrimas no fim da história. Perfeita imagem para uma situação que o aparente ingênuo candidato não percebeu ou se fez de desentendido: qualquer eleição no Brasil nas últimas décadas só se ganha com muito dinheiro e a lógica de um “esquema forte de campanha” como garantia de retorno.

 Desde o período da “redemocratização”  vindo com o “fim” da ditadura, que a política oficial vai virando em cascata um jogo bruto de economia política. Fazendo-me entender mais um pouco: são raros, muito raros e cada vez mais raros, os candidatos que não investem pesado financeiramente no jogo político, geralmente, recebendo somas vultuosas de empresários ou de outros políticos já estabelecidos economicamente na oficialidade.

 Tão raro, que até a chamada “esquerda radical” está aderindo ao jogo: precisa a cada eleição fazer seu “caixa” e investir na projeção de suas candidaturas às custas de esquemas em menor proporção como já fazem petistas e aliados. O PT, dentro das esquerdas, começou o jogo, cresceu nele e se tornou o partido a mais receber dinheiro comprovado do agronegócio e do grande empresariado brasileiro (além de ajudar a eleger e enricar alguns poucos do partido). Fez e está fazendo escola junto à geração mais nova de políticos – que já nascem velhos na fisiologia, no discurso idiota e no paternalismo deslavado enquanto prática corriqueira. A “esquerda radical” tá começando nesse jogo perigoso. Deve saber ela que não se confronta ou derruba burguesia usando seus meios e formas. Assim o fazendo, vira sócia pela porta dos fundos da distinta classe dominante. Esperemos!

 Alguns ingênuos, pseudo-ingênuos, Cristãos bem intencionados ou fabricadores de discurso popular-democrático ainda nos pregam na cara que política é debate, conscientização, luta por bem comum ou qualquer “palavriado tomista” (referência ao São Tomas de Aquino e sua ideia de bem comum medieval, literalmente) requentado nos dias atuais como novidade vetusta. Como participam do pleito como coadjuvantes de seus candidatos ou grupos, apelam para um discurso que não se sustenta, pelo menos, desde um jovem rapaz chamado Maquiavel.

 Bonito esse discurso e até coerente nas nuvens, mas por aqui a coisa é bruta e pragmática: se prepara e se ganha eleição no jogo do negócio da política e não no do idealismo da política. As primeiras pesquisas eleitorais – fraudadas ou não, aqui pouco importa – já nos informam qual será o destino da novidade sem novidade. Alguns poucos e raros se elegeram no convencimento ou na luta honesta de um tipo de democracia e a esmagadora maioria e em todos os pleitos, de deputado a presidência da república, o método implementado a olhos vistos é o do grande esquema: empresas publicitárias, compra de voto pelos mais variados meios, alianças amplas com setores do dinheiro, dissimulação como regra discursiva e as mais belas promessas irrealizáveis.

 E o povo? Laconicamente e em chave popular: já era… Fica para as próximas. No negócio da política, o povo pobre é “sócio”, absolutamente minoritário. Igualzinho ao Robin sergipano citado no inicio: serve como brincadeira, como carregador de bandeira, gritador em comícios ou ser humilhado em sinais de trânsito ou pontos de aglomeração ficando ao relento dias inteiros em nome do candidato que leva a vida boa e luxuosa à custa dos mesmos pobres que lhe serve de esteio. Triste situação vista no seu cotidiano mais cru e cruel. O que é ensinado nas universidades em termos de “ciência política” e reproduzido pelas “Cassandras” (metáfora mítica dos analistas políticos televisivos ou radiofônicos) de plantão é apenas bobagens ou lorotas revestidas de citação intelectual, mas que em nada fede ou cheira em termos do grosso da política praticada descaradamente. O negócio da politica atual no Brasil é este e não ver quem não quer ver. Paciência.

 Política oficial no Brasil contemporâneo virou coisa de rico ou de herdeiros de plantão. Morre o pai e o filho já tá se lançando no espólio de um triste legado como se fosse algo para o bem da humanidade. Cada vez mais e numa velocidade atordoante, a política nas eleições passa a ser um jogo pragmático, mercenário e tolo e não eleva em nada qualquer perspectiva de conscientização geral. O guia eleitoral obrigatório pode até trazer voto aos que já vão tê-los pelos meios mais comuns e conhecidos de manipulação e acrescenta pouco aos que ingenuamente acreditam num processo “democrático” e transparente. Aliás, transparência é coisa proibida em política num país como o Brasil. Tudo é obscuro e dissimulado.

 Por fim, não se trata de pessimismo – palavra mais ao gosto de metafísicos como Schopenhauer ou Cioran, filósofos que fazem o tipo do termo citado. Não, não se trata disto. Se trata de realismo diante dos fatos vistos a olho nu e gritante nas ruas. Os residentes nas capitais não fazem a mínima ideia da tragédia que é eleição nos rincões deste Brasil a fora. Nos “interiores” a coisa fica muito pior do que já é e a condição dos pobres nestas cidades é a de uma “escravidão imaginária” em termos de dependência no antigo ou novo oligarca da vez. E aqui se mostra em cara limpa como o PT cresceu e cresce, nessa lógica perversa contra os pobres lhe dando bolsas e lhes tirando a consciência e liberdade.

 Para mim, a maior derrota das causas populares no Brasil profundo está no triunfo da lógica do senhor tão bem descrita e ficcionalizada por Machado de Assis, nosso maior mestre em nos fazer ver as formas subjetivas e objetivas de dominação de classe ou de um país que em sua politica oficial de eleições continua como “cronicamente inviável’ na sua lógica do “quanto vale ou é por quilo”.

  Nessa pisada e praticando tais coisas, qualquer um ou uma que jure ser “trotskista”, virará “Lulista” em breve e quando menos se espera… A questão não é o discurso radical sobre a coisa, mas o submeter-se a lógica da coisa (mesmo com seu discurso radical ou coisa que o valha, pouco importa!). Fim com má consciência: “Tudo isso acontecendo, e eu aqui na praça dando milho aos pombos”.

 *Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

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