A Estrutura Repressora brasileira que vem de Israel

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Matéria evidencia que os manifestantes e a população pobre brasileira estão sendo reprimidos por armas e técnicas importadas de Israel

*por Geilson Gomes

O aumento da repressão à população pobre e o crescente investimento no aparato de criminalização dos movimentos sociais, por parte do estado brasileiro, são os únicos legados que os grandes eventos vêm deixando no país. Estes elementos sempre fizeram parte da realidade da luta de classe trabalhadora brasileira, mas, por sediar a Jornada Mundial da Juventude, em 2013, a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas em 2016, os governos estão investindo pesado em tecnologia e métodos de repressão no Exército e, principalmente, na Polícia Militar (PM). O uso de carros blindados, drones, caças, sensores e aparelhos de espionagem são as novas armas usadas para a manutenção desta guerra que mata e encarcera negros, trabalhadores e manifestantes.

Grande parte deste aparato é importado do país que foi criado a partir de uma tragédia sangrenta: Israel. De acordo com o militante do Movimento Palestina Para Todos (Mopat), Henrique Sanchez, a indústria bélica israelense vem, nos últimos anos, lucrando muito com o comércio de armas e tecnologias no Brasil. “Desde 2008 é realizada anualmente no Rio de Janeiro a Latin America Aero & Defence (LAAD) Security – Feira Internacional de Segurança Pública e Corporativa. As edições anuais da LAAD Security representaram grandes oportunidades de negócio para a indústria militar israelense com a exposição de produtos e serviços por diversas empresas israelenses”. Ele coloca que tal relação não ocorre somente no setor privado. “Foi firmado, em novembro de 2010, um acordo sigiloso de cooperação entre o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e o Ministério de Defesa de Israel cujos termos, segundo matéria da BBC Brasil, envolvem “detalhes sobre credenciamento de pessoas, organizações e empresas para tratar de assuntos sigilosos, e sobre trânsito bilateral de documentos secretos”. (http://goo.gl/CZDzkW – Veja a matéria da BBC Brasil)

Sanchez afirma que a realização da Copa do Mundo intensificou o processo de importação de aparelhos de repressão. “A realização da Copa do Mundo desempenhou um papel fundamental no estreitamento dessas relações. A Elbit (empresa bélica israelense) fechou em 2010 um acordo com a Força Aérea Brasileira (FAB) para o fornecimento de drones (ou VANTs, veículos aéreos não-tripulados) do modelo Hermes 450 que depois se estenderia para a aquisição do modelo Hermes 900. A Polícia Federal (PF) também optaria por VANTs israelenses ao adquirir 2 drones Heron fabricados pela Israeli Aerospace Industries (IAI)”. Para ele, o acordo serviu para equipar a área de Inteligência da PM e Exército. “A finalidade deste acordo era ter um mecanismo de vigilância nos megaeventos capaz de fornecer dados suficientes para os serviços de inteligência. Foram usados de forma experimental na Copa das Confederações e posteriormente estiveram no centro da política de segurança do Mundial”.

“A política de segurança da Copa conduziu outras iniciativas de estreitamento das relações militares entre Brasil e Israel. Em janeiro de 2010 o governo israelense organizou um seminário sobre segurança pública restrito a autoridades de 8 estados brasileiros escolhidos para sediar jogos da Copa (http://goo.gl/7oTY7p). O seminário discutiu experiências e propostas de Israel relativas à segurança em megaeventos, ações contra o terrorismo e apresentou o conceito de “cidade segura” com base na vigilância israelense de todas as ligações telefônicas e conexões web em Gaza”, completa Sanchez.

A criminalização do Estado burguês

O historiador e integrante do Movimento Não Pago, Cleidson Carlos, conta que a criminalização dos movimentos é fruto da intensificação das lutas. “As manifestações que aconteceram no ano passado questionaram o atual modelo de democracia brasileira. A criminalização aos movimentos sociais tem sua raiz na relação do estado com os interesses da burguesia – que se constitui enquanto uma minoria na sociedade, mas por sua vez detém os meios de produção. Quando os movimentos lutam por direitos, e esses direitos questionam esses interesses, o estado cria mecanismos para eliminar os movimentos”.

O militante ainda relata que manifestantes foram várias vezes repreendidos pela PM e pela Guarda Municipal de Aracaju. “Sofremos com a truculência da polícia quando nos manifestamos no dia 7 de setembro de 2013. Um militante do movimento foi preso por fazer agitação e propaganda na cidade em uma atividade chamada “Outubro Negro”. Dezenas de guardas armados vieram nos reprimir quando liberamos as catracas nos terminais da cidade. No último ato contra a copa, a PM caiu pra cima com toda a truculência. Recentemente descobrimos que militantes do Não Pago foram processados por “crimes cibernéticos”. Alguns celulares também foram grampeados”, elenca Cleidson.

Ele, que estuda a lei da anistia e o processo de transição da ditadura para a democracia representativa, faz um paralelo da criminalização sofrida pelos movimentos no período ditatorial e na atualidade. “É importante compreender, por fim, que o atual modelo de democracia foi forjado de um pacto entre democratas liberais e ditadores no sentido de garantir um Estado de Direito que apagasse da memória os crimes cometidos pela ditadura. Dessa forma, este mesmo Estado consolidava suas estruturas, defendendo os interesses da burguesia e da propriedade privada. Em detrimento disso, criaram-se mecanismos de repressão que mantém em voga a violação dos Direitos Humanos para com as comunidades pobres e os movimentos sociais”, diz.

Ademais, Cleidson esclarece que a ditadura ainda permanece em nossas estruturas jurídicas, nas práticas policiais e até na violência cotidiana. “Foi a  burguesia que dirigiu o processo de transição, sendo as forças armadas o principal cão de guarda de seus interesses. Se você observar a constituição de 88 – o símbolo da “democracia brasileira” – são constatadas várias dessas permanências. Você tem o controle parcial do exército sobre as polícias, alegando que o governo necessita de toda sua força para controlar contestadores da ordem social. Você tem a presença do Serviço nacional de informação que em 1999 foi substituída pela ABIN, que é um órgão de investigação do estado com o intuito de manter seus interesses. E isso recai ainda hoje, muito fortemente sobre os movimentos sociais”, reflete.

“Diante das massivas manifestações que ocorreram em junho de 2013 o Estado tem buscado a qualquer custo deslegitimar as táticas mais incisivas de intervenção de quem luta por direitos, denominando-os de vândalos e criando medidas que inibem as manifestações populares, criminalizando os movimentos sociais na medida em que abre precedentes para enquadrá-los enquanto terroristas. Por mais que não tenhamos a institucionalização da repressão como nos anos de ditadura, o estado de emergência econômico permanece latente, principalmente em momentos de crises financeiras, onde os riscos dos negócios recaem sobre a parcela vulnerável da população”, conclui.

* Geilson Gomes é editor da Rever

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