Glauber Rocha, nosso mestre e nosso vulcão – 33 anos de sua partida

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“Com ele cinema passa a integrar a cultura política brasileira como forma de entender o próprio Brasil. O cinema vira uma espécie de “interprete do Brasil” na linha de Caio Pardo Jr. ou Gylberto Freire”

*por Romero Venâncio

Num 22 de agosto de 1981 morria Glauber Rocha. De longe, o cineasta mais importante na história de todo cinema brasileiro e uma referência no cinema mundial (ainda hoje!). Imaginemos ou pesquisemos o cinema brasileiro antes do Cinema Novo e teremos a real dimensão do papel de Glauber Rocha na história do nosso cinema. Obviamente, o cinema novo não se resume apenas a Glauber Rocha e tem outros nomes e filmes de grande relevância. Mas sem Glauber Rocha, o cinema novo ficaria devendo sempre alguma coisa e não teria o impacto eu produziu na forma e no conteúdo cinematográfica brasileiro.

  Glauber trouxe uma inovação para o cinema num momento de mudanças significativas na historia do Brasil ali pelos anos 50 e se consolidou nos anos 60 e 70 do século passado. O Brasil parecia querer acertar o passo com a “modernidade” e havia uma literatura que explorava as mazelas e resistências de uma Brasil desconhecido, mas vivo. Um Brasil que teimava em existir mesmo contra a vontade das classes dominantes que mandavam e desmandavam em tudo.

 Semelhante a uma literatura que buscava no “País profundo’ sua inspiração e conteúdo estético, o cinema novo foi a procura “dos de baixo” em sertões, favelas e periferias esquecidas pela politica oficial ou pelo cinemão que procurava imitar o que se produzia nos Estados Unidos. Glauber Rocha e seu Cinema Novo rompe radicalmente na forma e no conteúdo deste cinema limpinho, medíocre e conservador no seu conteúdo e na sua forma. Como diz Ismail Xavier: “esta postura judicativa encaminha um programa para o cinema brasileiro absolutamente novo diante de tudo tínhamos em termos de cinema…

  Em termos de “forma cinematográfica”, Glauber foi um revolucionário singular. A linguagem utilizada por ele quebra no meio a forma melodramática, tola e massificante de um tipo de cinema que vinha sendo feito no Brasil. Ele opta propositalmente pelo estilo “alegórico” e afunda-se cada vez mais nos mitos e na história do Brasil e arranca dai o conteúdo e a forma de seu cinema. Glauber Rocha é o cinema moderno brasileiro com todas as consequências que pode ter esta afirmação. Lembrá-lo é lembrar a condição do cinema novo e de seu papel político na história recente do Brasil.

Muitos acham seus filmes difíceis. Em parte, é verdade. Só em parte. Por estarmos acostumados a um modelo dramatúrgico de cinema numa forma apenas narrativa e simples, se perdem na complexidade e nas quebras de imagens que os filmes de Glauber provocam… Cinema não apenas para contar história linear, é mais que isto. É poesia, experimentação, conflito e digressão imagética, também.

  Por fim, duas observações gerais sobre a postura de Glauber Rocha. A primeira, esta na figura polêmica e explosiva. Sempre verborrágico e polêmico, Glauber confundia e agitava qualquer cenário morno da política onde estivesse (e nisto, faz imensa falta no Brasil atual). Glauber foi um dos maiores agitadores culturais que o Brasil já teve. Virou um “paradigma de agitação político-cultural” na nossa história.

Segundo, Glauber foi um exímio escritor. Romance, artigos de jornal e ensaios fazem parte da sua trajetória. Basta ver o monumental “Revisão crítica do cinema brasileiro” (editora Cosacnaify). O Cinema Novo tinha sua pena não apenas cinema ou diversão, mas projeto de Nação. O cinema passa a integrar a cultura política brasileira como forma de entender o próprio Brasil. O cinema vira uma espécie de “interprete do Brasil” na linha de Caio Pardo Jr. ou Gylberto Freire. Para Glauber, o cinema parte de um Brasil e inventa um Brasil. Há nele uma utopia latina que radicaliza a história dos povos a partir das suas lutas e resistências. Num momento tão ruim da política brasileira onde vale tudo em termos de alianças e se perde a “grande política”, os grandes projetos que apaixonam uma geração, Glauber Rocha passa a ser necessário como imperativo de entende a vida do Brasil para além da pequena política e de seu políticos medíocres e carreiristas.

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

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