Nenhum negro a menos: movimento negro protesta nas ruas de Aracaju

marcha

No Brasil, é bastante notável os resquícios do preconceito e das práticas dos descendentes dos senhores de engenho

*por Geilson Gomes

Já fazia um bom tempo que o movimento negro de Sergipe não mostrava sua força e luta nas ruas da cidade de Aracaju. Exceto nos 20 de novembro, dia consciência negra, quando vemos alguns eventos e passeatas que, muita das vezes, valorizam a beleza, as ações afirmativas e o papel do negro na sociedade. Na última sexta-feira, dia 22 de agosto de 2013, a população aracajuana viu um grito de liberdade sendo ecoado por muitos jovens negros e periféricos na primeira edição da Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro.

Nos últimos dias, estamos acompanhando nos noticiários as manifestações da população negra que vêm ocorrendo nos Estados Unidos. O estopim dos protestos foi a morte de um jovem negro por um policial branco, no dia 8 de agosto. Tal episódio ocasionou sucessivos atos em defesa da vida dos pretos naquele país.

No Brasil, é bastante notável os resquícios do preconceito e das práticas dos descendentes dos senhores de engenho. Os policiais que mataram Amarildo no Rio de Janeiro ainda não foram julgados definitivamente. Em Salvador, um jovem de 22 anos desapareceu no dia 2 de agosto e foi visto pela última vez após em uma abordagem de policiais da Ronderp / BTS, quando foi agredido e colocado dentro de uma viatura. O rapaz foi encontrado morto dias depois sem a cabeça e as mãos em uma região do Parque São Bartolomeu. E a mulher, Claudia Silva, que foi arrastada por um carro da polícia no Rio de Janeiro? Alguém ouviu falar em condenação dos criminosos?

Sergipe também não fica para trás quando o assunto é extermínio do povo negro pelo estado racista. No dia 12 de março, o adolescente David Philipe, de 17 anos, foi morto por policiais da Rádio Patrulha com um tiro na cabeça, no Conjunto Parque dos Faróis. Em 2012, o jovem Jonatha Carvalho, de 16 anos, foi assassinado por policiais do Comando de Operações Especiais da PM (COE) em uma operação. O inquérito deste último caso foi encerrado sem encontrar um culpado por mais esta morte. De acordo com o militante do movimento negro, Pedro Alexandre, o cenário atual é de aumento de mortes da juventude negra. “Segundo o Mapa da Violência de 2014, o índice que aponta a mortalidade da juventude negra ultrapassa a casa de 70%. A cada ano que passa a violência vem crescendo e essa violência é realizada especificamente pelo aparelho de repressão do estado: a polícia”.

Segundo ele, o motivo de tamanha brutalidade estatal é devido a herança racista brasileira. “O racismo no Brasil é histórico e é institucional. É caracterizado no Brasil que todo o pobre é criminoso. A partir do momento que o sujeito é preto e pobre o ataque a ele é mais aguçado. Por isso que é mais que necessário que o movimento negro se junte, volte para as ruas e dê um basta ao extermínio da população negra. Porque senão daqui a uns anos não teremos mais negros ocupando as ruas para fazer as denúncias”, retrata.

Pedro ainda conta que a cada morte de um negro, mata-se também a cultura e as tradições de seu povo. “A morte do negro contribui e muito para a derrota da manutenção da cultura negra, que é basicamente oral. Os negros são exterminados há mais de 300 anos no Brasil. A gente ainda sofre a perseguição cultural. E hoje percebemos isso nas invasões dos terreiros de candomblé pela polícia, fechando casas e furando tambores, impendido que essa população possa exercer seu direito de cultura”, acrescenta.

Os dados do Mapa da Violência de 2013 apontam que a barbárie consolidada através do extermínio enfrentado pelo afro-sergipano é três vezes maior que a violência sofrida pelos brancos. Segundo a pesquisa, entre as mortes provocadas por armas de fogo, a população branca exibe o índice de 7,7% contra 33,3% aos negros. Para a militante do UNEGRO, Tatiane Menezes, a mulher negra sofre uma opressão social bem maior que os homens. “A opressão contra a mulher pobre e negra é tripla. A mulher negra já está há muito tempo trabalhando. Ela sofre preconceito por estar na rua trabalhando e no trabalho. Essa guerra contra a população negra está acontecendo e o estado vem banalizando essa triste realidade”, diz.

Hip Hop salva!

A Marcha em Aracaju contou com a participação de jovens da periferia e de grupos culturais. De acordo com o músico da banda Kilôdoinhame, Thiago Sansão, é importante que o movimento da cultura esteja reunido na luta contra o genocídio do povo negro. “É importante para música e para história do negro”, frisa. Ele também analisa os diferentes baculejos realizados pela polícia. “O baculejo na galera da periferia é uma rotina. O tratamento todo mundo sabe que é diferente, principalmente, quando a abordagem acontece na periferia. No bairro que moro a polícia chega quebrando todo mundo, acusando que todos ali são bandidos”, destaca o músico.

Quem também se fez presente foi a juventude do bairro Coqueiral. O músico de cultura de rua, Anderson Luiz, integrante do grupo Aliados pelo Verso (ALPV), afirma que a polícia mata os pretos favelados e não dá em nada. “Na Zona Sul é segurança, na Zona Norte é repressão”, fala o jovem.

“O Hip Hop é importante na luta do povo negro porque ele joga a ideia na mente mesmo, reivindicando o direito de nosso povo. Transformamos pessoas com o Hip Hop”, coloca Anderson. Além disso, ele relembra o caso que envolveu o sobrinho do secretário da segurança pública de Sergipe, João Eloy. “Como foi ele que foi pego roubando, alegam logo que é doença, mas se for um negro favelado vão dizer que ele já tem vício de roubar. Ninguém rouba porque gosta. As pessoas roubam por necessidade e porque o governo não favorece nós”.Por fim, Anderson fez questão de afirmar uma frase: “O Hip Hop salva!”.

A cultura, assim como outras formas de manifestação de um povo, pode sim salvar vidas e ser uma arma contra este sistema opressor, que é baseado na morte física, social, simbólica, psicológica, cultural, espiritual e que tem nos assolado em diáspora negra. Reconhecemos, portanto, a nossa responsabilidade com a continuidade da luta.

“Negro sempre é vilão, até meu bem provar que não, que não. É racismo negão” (Ilê Ayiê)

*Geilson Gomes é editor da Rever

Um comentário sobre “Nenhum negro a menos: movimento negro protesta nas ruas de Aracaju

  1. Costumo dizer que a espinha do ser humano é a discriminação. Somos ‘todos’ até o primeiro engasgo. Uma ferida histórica que a cada ‘novo tempo’ fica mais aberta e exposta. Não sou radical, não acho que devemos gritar e protestar, mas sou a favor que cada um faça uma visitinha em um cemitério mais próximo da sua casa. Seja com flores ou em gavetas expostas, ‘todos’ temos um fim muito parecido. Então, podemos nos questionar sobre como olhamos para o outro. Parabéns Geilson!

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