Sobre uma autobiografia de Ingmar Bergman

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“As opções por temas existências o levariam a praticar uma cinematografia original e de caráter especulativa como poucas no cinema mundial”

 *por Romero Venâncio

  Acabo de ler este livro fora do comum (e não estou brincando ou ironizando… alguns amigos acham os filmes de Bergman tediosos!). Trata-se de “Lanterna Mágica”, editado pela Cosacnaify em 2013.

Como toda autobiografia, deverá ter sua cota de invenções ou delírios, estamos bem perto daquela vida mais intima de quem a escreve e com esta não é diferente. Bergman nos fala de parte de sua infância, suas doenças, sua quase morte, o afeto reprimido pela mãe, a violência cotidiana do pai contra os filhos, as “brincadeiras” com o suicídio, os casamentos e as frustrações amorosas, as leituras (como chegou a Strindbeg e ao seu “Sonho”), os primeiros passos no teatro e o encontro definitivo com o cinema (a lanterna mágica). Não tem uma ordem rigorosa como num diário. Tem algumas datas e vários saltos cronológicos.

O que mais nos impactou não foram os detalhes da vida de Bergman, mas aquelas narrativas em que sua vida parecia nos fazer entender alguns de seus filmes. Percebemos aqueles acontecimentos que em muito influenciaram sua arte (acredito que seja assim com todo grande artista: sua arte é marcadamente autobiográfica). Como diz Wood Allen no prefácio: “Era evidente que estava diante de um mestre com um estilo pessoal inspirado; um artista com preocupações e intelecto profundos, cujos filmes se revelariam equiparáveis à maior literatura europeia”. As palavras do cineasta Norte-americano tem sentido e não são elogios genéricos ou falsos. A obra de Bergman está à altura dos grandes romances do Século XX. As opções por temas existências o levariam a praticar uma cinematografia original e de caráter especulativa como poucas no cinema mundial.

 Focarei em um tema recorrente na obra do cineasta sueco: a existência ou não de Deus e as suas consequências existenciais para todo e qualquer ser humano. O próprio Bergman deixa entrever sua posição sobre o tema na autobiografia em questão: “Você nasceu sem intenção, vive sem um sentido… Quando morrer, vai apagar”. Nesta frase bem pessoal e aparentemente simples, temos uma das razões centrais da maioria de seus filmes (tanto os dramáticos como os cômicos).

A busca desesperada por um sentido que assegure a vida alguma tranquilidade e seja algum refresco às duras penas do cotidiano, passou a ser um mote recorrente nas obras de Bergman e o eu lhe faz mais “autoral” na linguagem cinematográfica. Os personagens de Bergman vivem esta inquietação metafísica de se questionar na sua existência o drama da existência ou não de Deus; se a via tem algum sentido ou é fruto do acaso. As próprias situações criadas no enredo levam a estas questões. Numa tradição que vinha de Carl Dreyer, Bergman amplia e atualiza a problemática das dúvidas sobre Deus quase que no mesmo momento em que o Existencialismo sartreano colocava de maneira universal tal situação em chave filosófica.

Porém, o cinema de Bergman não parou nas reflexões “ateológicas” sobre Deus, mas viveu algumas mudanças temáticas importantes, mesmo mantendo a linha do “drama existencial”. A sua obsessão foi se deslocando do silêncio de Deus para as dolorosas relações entre almas angustiadas que tentam entender seus sentimentos. Aqui, Bergman foi prolífico até o fim da vida. Em minha opinião foi o cinema de Bergman que melhor captou o clima deixado pela “revolução freudiana” do Século XX e nos traduziu em imagens e situações. Explico-me: Há um momento no Século pós-freudiano em que a zona de conflito estético transferiu-se para o interior das personagens e os filmes se viram diante de um problema: a psique não é visível. Se as batalhas mais interessantes se travam no coração e na mente humanas, o que fazer?

A literatura e o teatro encontraram seu caminho, juntamente com a pintura. Bergman,  no seu cinema foi quem melhor desenvolveu um estilo para lidar com o “interior humano”, onde tornou-se um dos melhores no gênero a explorar plenamente o “campo de batalha da alma”. Ele criou sonhos e fantasias, e os misturou à realidade de forma tão habilidosa que aos poucos um sentido interior humano emergiu. Por exemplo, ele usou imensos silêncios com tremenda eficácia.

É raro um domínio técnico e de narrativa existencial no cinema como o de Bergman. Ao rejeitar a exigência de ação convencional, padrão no cinema, ele permitiu que se travassem, dentro de personagens, guerras tão agudamente visuais quanto movimento de exércitos. Como entender essa forma de filmar e estas opções pelos dramas da alma humana em Bergman? É onde entra a “autobiografia” e sua importância.

 O livro trata de maneira mais destacada a infância de Bergman. Foi uma atitude deliberada do cineasta: privilegiar sua infância. Tem muita coisa sobre seus filmes e sua vida adulta, mas é a infância que se torna eixo central da autobiografia. Um prato cheio para os psicanalistas (nunca saiu no Brasil algum ensaio psicanalítico sobre estas memórias de Bergman até o presente momento). Fala da relação dura com o pai, dos problemas com os irmãos, a da sua paixão ainda bem jovem pelo teatro, do encontro com a “lanterna mágica”, das várias doenças que quase o matam e de como é difícil ser criança.

 Ao fim das memórias de Bergman, fica uma ligeira impressão: de um ser humano altamente emocional, sem grande facilidade de se adaptar à vida neste mundo frio e cruel, mas que soube “sublimar” tudo nas artes dramáticas (teatro e cinema). Duas pequenas notas finais: o prefácio de Woody Allen é maravilhoso (humor e ironia peculiar!) e certeiro na forma simples como leu e como entendeu estas memórias do seu ídolo e a tradução de Marion Xavier direto do sueco (coisa rara no Brasil).

 A obra:

BERGMAN, Ingmar. Lanterna mágica. Autobiografia de Ingmar Bergman (trad. Marion Xavier). São Paulo: Cosacnaify, 2013.

*Romero Venâncio é Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

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