Universidade, Neoliberalismo, Eleições: um depoimento

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Digo sem medo de errar: com Marina Silva ou Aécio Neves, a Universidade pública estará correndo perigo de voltar a uma época de triste memória

* por Romero Venâncio

    Dedico a Regina Célia, Alder Julio, Jonas Duarte, Welington Pereira,Sandra Luna e Ana Ângela e Solange Norjosa, educadores/as.

Parto de uma realidade: minhas palavras chegam tarde. Não se trata de lamento ou de agouro. Apenas uma simples constatação diante de fatos a olhos vistos. Durante meus vinte poucos de universidade (trabalho e militância estudantil), a pior coisa que vi e vivi foi o governo FHC. Quase destrói a Universidade pública. Achatou salários, atrofiou a expansão necessária, deu rédeas soltas as universidades privadas (cada vez mais privadas!!!), perseguiu o movimento docente e criou uma casta de burocratas idiotas e carreiristas a mandar e desmandar nas políticas acadêmicas e tudo isto azeitado (e muito bem azeitado) por uma política econômica de desmantelamento do serviço público e atendimento das metas do FMI, rigorosamente.

O presidente, que um dia foi professor, quase destruiu o patrimônio público que é (com todos os seus defeitos e elitismos) a universidade pública brasileira. A coisa era tão grave que o desânimo, a descrença e a desorientação era a tônica de professores, estudantes e técnicos administrativos. Greves e mais greves, passeatas, viagens a Brasília e toda sorte de resistência. Muitos abandonaram o barco, uns ficaram ressentidos e outros poucos se mantiveram na coerência do ensino, pesquisa e da luta cotidiana ou institucional por uma universidade pública como projeto estratégico de nação. Era triste ver aquilo tudo acontecendo e da forma como estava acontecendo.

Falava-se o tempo inteiro e como um mantra em Estado mínimo (sempre contra a sua dimensão pública) e em gastos em demasia que deveriam ser cortados (palavra-chave na década de 90: corte), cortava-se de tudo e vendia-se a toque de caixa o patrimônio público para a iniciativa privada. Ironia da história: o que não dava certo com o Estado, daria com as privatizações. Um monte de gente caiu neste “conto de vigário” e passou a repetir gente como Mirian Leitão, Arnaldo Jabor, Olavo de Carvalho e toda uma corja de neoliberais idiotas e que idiotizavam uma legião via meios de comunicação (os de sempre: da casa grande!!!). Tristes trópicos. As reforma eram todas contra-reformas: previdência, tributária, fiscal, urbana… e universitária. O povo acuado e dependendo unicamente de projetos como “comunidade solidária” (mais puro fisiologismo e assistencialismo).

É verdade que resistia no campo o MST (e bravamente, diga-se de passagem). Na cidade, a luta era cada vez mais abafada (existia pouca resistência urbana naquela década). Quando explodiu a crise de 1998, a ficha caiu (quase tarde!). FHC havia conduzido o país a sua mais tenebrosa crise e a mais revoltante falta de perspectiva. Todos os números do governo do PSDB no que diz respeito as universidade é desfavorável a comunidade acadêmica. Ampliação de vagas, contratação de docentes, bolsas de pesquisa (foram congeladas por quase uma década nos seus valores) e aumento assustador de um produtivismo sem rumo e incentivado pelo MEC e CNPq de FHC.

Os governos que se seguiram (Lula e Dilma) mudaram este cenário (não sem contradições aberrantes). Expandiu-se as universidades públicas de forma nunca visto antes (não sem contradições tristes e criando problemas vividos até hoje),implantou-se as cotas iniciada e não implementada por FHC (dando mais possibilidades aos mais pobres e negros entrarem nas universidades) e tivemos uma grande leva de contratações de professores e técnicos administrativos inimagináveis no governo do PSDB (ainda merecendo bem mais contratações por conta política agressiva e contraditória do REUNI). Sem falar no “bolsa-família” (outra história para um melhor esclarecimentos por quem estuda políticas sociais). É fato: as coisas não estão mais como na época de FHC, Paulo Renato ou Pedro Malan. O PT gostou do poder governamental, fez farra de cargos e alianças as mais absurdas possíveis e dividiu completamente o que restava da esquerda brasileira, triste legado reconhecido até por quem é do PT, como Olívio Dutra.

Olhando os dias atuais e lembrando alguns momentos passados, me vem um gosto de revanche que em nada nos leva adiante. Marina Silva e Aécio Neves estão se revelando claramente e sem pudor algum, neoliberais. No que diz respeito as universidade é mais do que foi feito e testado nos anos 90: corte e mais cortes, atrofiar qualquer perspectiva de expansão e a triste ideia de cobrar mensalidades… Tudo isto envolvido num discurso pseudo-moderno e de fala mansa… Como bem definiu o político profissional Ciro Gomes: Marina Silva é um oco. Diz bobagens e mais bobagens. Parece uma caricatura de auto-ajuda. Mas não é tola. Sabe o que faz e diz neste momento da política brasileira. Diante do ódio ao PT, aproveita-se com um discurso religioso hipócrita, nega seu passado (já oportunista desde o inicio) e apoiada pelo grande agronegócio e por intelectuais e artistas que, supostamente, não sabem onde estão pisando ou acham que estão praticando o “novo na política” (velha tecla de Collor de Melo em 1989!).

Digo sem medo de errar: com Marina Silva ou Aécio Neves, a Universidade pública estará correndo perigo de voltar a uma época de triste memória. Nada que estes dois candidatos falam (quando falam) da Universidade pública é beneficio para as mesmas. Não, falam de cortes, pagamentos, cobranças produtivistas e arrocho salarial (como bem afirmou Armínio Fraga á revista Veja). Se alguém acredita que a política fisiológica do PT mudará com essa dupla (Marina ou Aécio), está redondamente enganado. Tudo o que de pior do PT será mantido e sem os seus pequenos méritos em termos de política educacional. Marina guiada por Eduardo Gianetti economista neoliberal e de auto-ajuda) e Aécio (guiado por Armínio Fraga, velho conhecido do Banco Central de FHC) não poderá trazer nada de novo para as universidades. Nada mesmo. Representam um retrocesso ímpar nas poucas conquistas destes últimos anos. Sinto no ar um grande engodo embalado com as ideias de mudança (que não viram pelo realmente apresentam Marina-Aécio).

Não sou ingênuo quanto ao que é praticado em política efetiva neste Brasil atual. Sei do quanto a política virou negócio e do quanto o PT e seus aliados foram protagonistas nessa caminhada e ainda sei que eleição alguma muda substancialmente vida do povo ou a situação das Universidades… Mas sei que se não melhora, pode estragar o que já foi feito e conquistado muito… E muito. A visão de Marina Silva e Aécio Neves de universidade é privatista, elitista e meritocrática no pior sentido do termo. Diante disto, não me calo e como dizia Zola: “Eu acuso”.

*Romero Venâncio é professor de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

4 comentários sobre “Universidade, Neoliberalismo, Eleições: um depoimento

  1. Como sempre os indivíduos, não importa o nível de escolaridade, em matéria de política se baseia no orincípio: meu interesse pessoal é a medida de todas as coisas. Assim, passam a tentar convencer os outros de que o que é bom para si é bom para todos. Depois travestem o velho egoismo de alguma ideologia para ter respaldo! Precisamos de ensino fundamental e não só de universidade!

  2. Olá meus caros, apesar de achar que o texto do Prof. Romero faz parte da opinião de um grupo que no desespero, e um pouco tarde, tentam nos convencer sem mencionar muitas outras conquistas nos campos econômico, dos direitos civis, incluindo especialmente mulheres e crianças, e das relações internacionais que o PT muito sabiamente conduziu, concordo plenamente que é preciso impedir a todo custo que o PSDB se aproxime de seja lá que for que se relacione com educação brasileira. O PSDB sempre representou o que há de pior neste quesito. E me causou muito estranhamento que muitos professores tenham flertado com Marina; o mais óbvio oco. Queria dizer também que escolas estaduais ou municipais não são problema da federação, a menos que quiséssemos um governo intervencionista ou de excessiva autoridade e, por experiência própria, não é verdade que a universidade é um mundo a parte, muita coisa tem sido feita; por exemplo, o fato de a universidade ter sido ampliada levou, finalmente, praticamente todos os professores da rede pública a terem curso universitário, inclusive muitos professores já possuem alguma especialização e mestrado, uma mudança qualitativa que podemos quantificar. De qualquer modo, sempre nos esquecemos de mencionar que uma cultura de ignorância e analfabetismo, mesmo o funcional que atinge as universidades, em grande medida associada à cultura escravocrata que persegue mesmo nossa história recente não pode ser mudada da noite para o dia, e essa realidade de base tem que ser enfrentada seja lá qual for o partido que vencer as eleições e deve ser devidamente compreendida por nós aqui na universidade, para que não voltemos a flertar com ocos ou, por ignorância de nossa história, acreditar que um PSDB pode representar seja qual for a mudança para melhor. Boa dia a todos.

  3. Muito bom o artigo de Romero. Preciso ao apontar os limites da condução do PT na educação superior. E mais ainda ao trazer de volta como era muito pior com a orientação do PSDB. Não vejo opção a não ser derrotar o PSDB nas urnas. O PT a gente peita depois que Dilma se reeleger.

  4. E agora, doutor? Ao menos na rede estadual o quadro é o de falta de investimentos e profissionais e, no melhor dos casos, contar com trabalho voluntário de ex alunos para manter as escolas funcionando. Mas as universidades compõem outro mundo, talvez num Brasil distante, senão geograficamente ao menos em suas metas e preocupações.

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