Silvio Campos (Karne Krua) : Parte 1 – “Sentimos tudo na carne”

silvio

O Coletivo A Mosca conversou com Sílvio Campos, integrante da Karne Krua – uma das bandas mais importantes da cena rock-underground-independente de Sergipe

* por A MOSCA

Parte II: “Cara, nossa banda não é hit de rádio”

“Vamos fazer uma banda pra fazer história”. Quase trinta anos depois, a frase dita por Sílvio Campos no nascedouro da Karne Krua soa profética. No entanto, Sílvio “Suburbano”, como era conhecido na época, e seus amigos já faziam história quando decidiram romper com os padrões morais e montar uma banda de punk/hardcore em Aracaju nos anos 80. Seria difícil imaginar que a banda duraria tanto tempo e que ele se tornasse umas das figuras mais importantes da cena rock-underground-independente de Sergipe. Sílvio formou outras bandas, criou uma loja, produziu fanzines e influenciou uma pá de gente que segue o Do it yourself. Nessa entrevista, o grande rocker sergipano fala um pouco mais sobre seus 30 anos de música e os 50 de vida.

A Mosca: O Coletivo A Mosca usualmente inicia uma entrevista por onde tudo começou. Onde você nasceu e como foi sua infância?

Sílvio Campos: Eu nasci em 1964, em Aquidabã, Sergipe. Mais precisamente em 1971 eu vim para Aracaju, mas não perdi os laços com minha cidade de origem, porque vez ou outra eu voltava lá.  De uns tempos pra cá é que fiquei longe, mas no último carnaval fiz uma viagem que foi importante para a mente e para o corpo. Me fez lembrar vários momentos da infância e de muitas coisas da época que ficaram guardadas. Voltar, me trouxe muitas lembranças que carregarei para o resto da vida, como a influência musical ou coisas que tiveram a ver com minha formação, já mais tarde morando na capital, já com 17, 18 anos, um certo perfil do que eu queria fazer. Foi justamente essa infância em Aquidabã que me fez fazer o que eu faço hoje.

AM: Então foi lá que você deu seus primeiros passos na música?

SC: Exatamente. Eu digo sempre que criança tem algo de captar e guardar para sempre aquilo que ela absorve nos seus primeiros anos e levar isso para o resto da vida. Por isso muitas vezes os grandes traumas vêm da infância. Então foi lá que eu tive meus primeiros contatos com cinema e a música. Eu ouvia músicas que até hoje escuto no serviço de som da cidade, elas fizeram parte da minha vida. Não que eu tenha que fazer aquilo que eu ouvia. Mas eles foram fundamentais para o que me tornei hoje, na escolha do que fazer. Músicas da Jovem Guarda e outras bandas brasileiras, tipo: Os Incríveis e Pholhas. Cinema era o western italiano com músicas de Enni Moricone, uma música que eu escuto até hoje. Nos bailes da cidade eu via as bandas tocando rock, mas eu sinceramente não sabia o que era aquilo, sabia que me chamava atenção. Sentia que tinha a ver comigo. Mais tarde eu fui entender que aquilo era a música que no futuro eu estaria buscando, o rock n roll.

AM: Mas na sua família tinha alguém ligado à música?

SC: Sim. Tive irmãos que tocaram em bandas de baile. Meu irmão mais velho, meu irmão-pai que mostrou, já em 71, depois que voltou do Rio de Janeiro, que já tinha tocado em bandas por lá, e trouxe vários discos, entre eles um do Santana. Eu tinha sete anos de idade e já consumia Carlos Santana. Foi um portal para ir em busca de outras coisas. Meu pai também tocou em banda marcial em Aquidabã. Na minha casa a música sempre esteve presente. E por influência dos meus irmãos, fui ter essa ideia de curtir e gostei, mais tarde fui buscar a música. Meus irmãos também tiveram um grupo de samba, eu por muito tempo cantei músicas de Moreira da Silva, Dicró, esse sambas mais antigos, partido-alto. Era um grupo de irmãos e alguns amigos, tocando um samba que hoje você não ouve mais nas rádios.

AM: E a mudança para Aracaju, foi você ou foram seus pais que resolveram mudar de cidade?

SC: Foram meus pais que resolveram mudar. Nossa família era bem pobre. Eles chegaram a morar em Aracaju antes de eu nascer, e depois voltaram para Aquidabã. Entre mais ou menos 58 a 60, eles moravam naquela avenida que reformaram, sempre esqueço o nome, que desemboca ali no Siqueira Campos, perto da linha do Trem….

AM: Avenida São Paulo.

SC: Isso. Então depois que vim morar em Aracaju, foi que percebi que era ali que minha mãe morava. Era um local muito pobre, nessa época quando ela morou era muito desprivilegiado de recursos básicos. Era na beira da linha do trem, muito tosco o lugar. Em 1974, 75 que eu conheci aquela região e fiquei pensando “pô meus pais moravam aqui”. Era um lugar muito difícil. Aí eles foram para Aquidabã, meu pai era marceneiro, depois voltou para Aracaju para trabalhar de novo como marceneiro. Em 71 foi quando viemos pra cá. Eu lembro que ainda tentei assisti a Copa de 70 lá em Aquidabã, só existiam duas televisões, se eu não me engano, não enxergava absolutamente nada. Mas lembro de toda a comemoração da galera na rua por conta da conquista da Copa. E daí em 71 viemos para cá. No final dos anos 70 é que tive um contato maior com a música. Aquela música que eu procurava né, o rock’ n’roll, de forma bem generalista.

AM: E como foi isso?

SC: Meus irmãos de novo. Eles trabalhavam em loja de discos e as primeiras que eu conheci, eram eles que trabalhavam e eram responsáveis pelos pedidos. Foi natural eles conhecerem bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, coisas daquela época, Bob Dylan. E eles levavam muitas coisas para casa, amostras grátis, e isso foi acumulando.  Passei a consumir muito classic rock. Mas foi fundamental também para conhecer mais da música brasileira, tipo: Secos e Molhados. Quando digo música brasileira, é tudo. Para mim os Pholhas é música brasileira.  Eu considero música uma arte universal e não delimito por causa de língua. Os Incríveis, Ney Matogrosso. Eu lembro do primeiro álbum do Ney Matogrosso (Água do Céu-Pássaro) depois dele ter saído do Secos e Molhados em 74, porque a gente ouvia muito em família. E outros artistas brasileiros que cantavam em inglês também. Zé Ramalho e Alceu Valença eram muito presentes na minha casa. É tanto que um irmão meu fazia imitações de Alceu Valença. Absorvi muito isso. Eu sinto essa minha influência quando canto hardcore, vamos dizer assim, mais cantarolado. Muitas pessoas notam a influência da música regional, mas sem oportunismo. É natural de mim, até porque sou nordestino e venho do interior. Há realmente um sotaque parecido com o de Zé Ramalho e Alceu Valença, porque eu gosto e foi uma música que eu consumi bastante. Até toquei e gravei com a Karne Krua algumas coisas deles. Então a música brasileira sempre foi muito presente, Ednardo, Belchior, tenho muita identificação com os artistas nordestinos, principalmente essa veia paraibana, cearense.

AM: Nesse momento em que você entrava em contato com o rock e a música brasileira, que tipo de leitura que você consumia?

SC: Minha leitura era exatamente os discos. Eu não tinha o hábito de ler livros. Meus livros eram os discos. Até das bandas estrangeiras. Eu nunca me interessei só pela música, achava tudo maravilhoso, as letras, as capas. Achava que tinha uma linguagem por trás daquelas capas. As bandas que eu curtia, buscava entender o que aquelas letras diziam. Minha maior fonte de informação eram os discos. Mais tarde, já adulto, é que fui buscar os livros. Minha leitura e minha cultura foram formadas pela música. Seja na contestação, de mais tarde ter formado uma banda de fundamento anárquico, com letras de protesto ou até mesmo uma banda de blues, também entendo que o blues tem esse fundamento. Então, todos esses leques de coisas que curtia, encontrava tantas informações que acabaram se tornando livros. Meu conhecimento sobre fatos mundiais nunca foi na escola, sempre foi nos discos.

AM: E quando você veio para Aracaju já, foi para morar no Bugio?

SC: Não, morei um tempo no bairro Cirurgia. Também fez parte da minha infância. Rua de Riachão, Fernão de Souza, Gararu. Morei em vários locais ali, em uma época muito difícil pra gente, porque cinco anos depois meu pai veio a falecer. E eu tinha apenas 13 anos. Mesmo com toda a relação com música dentro de casa, eu tinha uma relação distante com meu pai. Por isso que eu digo que esse meu irmão é um irmão-pai, porque foi ele que me mostrou essa vibe de música e de arte. Meu pai ficou lá atrás na infância, na coisa do bang-bang italiano, dos discos de Moreira da Silva e Nelson Gonçalves. Não tenho como esquecer isso. Em 76, quando ele veio a falecer, meu irmão tomou o papel de pai em casa e minha vida tomou outro rumo.

AM: E como aconteceu seu contato com o Punk?

SC: Posso dizer que conheci o Punk em 79, escutando Jonny Winter, Led Zepplin, mas não tinha ideia de como aquilo ia funcionar comigo. Aí fui pesquisar o que era música punk, e percebi que tinha relação com minha situação social, minha capacidade financeira, de não ter instrumento e não saber tocar. Foi a luva que vestiu a minha mão. E dos outros colegas também. Éramos todos rockers. A gente não estava mais a fim de ouvir as histórias de David Bowie, The Stoggese Jonny Rotten. Nós queríamos sentir isso mais próximo. E o que seria isso de sentir mais próximo? Pegar os instrumentos, montar uma banda, fazer ensaios e tocar. Isso foi a coisa mais louca que nós fizemos na época, porque naquele momento não éramos uma banda de caras que sabiam tocar e queriam montar uma banda de baile. Nós não sabíamos tocar e queríamos tocar uma música nunca vista na região. Eu entendo que era uma vanguarda naquele momento o que a gente estava fazendo. Pelo visual vestíamos, éramos tachados de um monte de coisa, de vagabundos, drogados, e “viados”. Foi um passo muito forte que nós demos naquele momento, de fazer música sem saber tocar, sem estrutura, sem conhecer os instrumentos. E como roqueiros, começamos a ver as primeiras movimentações de São Paulo, estávamos conhecendo o clássico punk, Sex Pistol, The Clash, o que chamamos de pré-punk Ramones, The Stogges. E de 79 para 80 começamos a receber informações do que estava rolando em São Paulo. Via carta, catálogos de loja, alguns fragmentos de banda, Ratos de Porão, Cólera. Achávamos fenomenal. A agressividade dos nomes dos integrantes. Usávamos muito apelidos para acrescentar um nome. Na época adotei o Silvio Suburbano porque era da periferia. Todos adotaram um nome, alguns mais “podrões”.

AM: Coincide com o The Merdas?

SC: The Merdas foi o início do rock aqui em Aracaju, era uma banda de punk rock n roll.  Primeiro punk porque a gente não sabia tocar, ia pro caminho do punk e as letras eram de fundamento de protesto. Depois veio a Sem Freio na Língua, que gerou tempos depois a Karne Krua em 85. A Karne já nasce com uma postura ideológica, com fundamento no anarquismo, coisas ácratas, que falam do mundo, da questão nuclear, da exploração do homem pelo homem, do proletariado, dos problemas sociais da cidade. Nós temos uma letra que fala de uma lixeira que existia no Bairro Soledade e cantamos muito esta letra e mais tarde a lixeira acabou. Comentamos que se toda música em que colássemos um problema, e o problema acabasse faríamos um campo de guerra pra sempre cantar e acabar com problemas. Como a questão do lixo se tornou um problema mundial, regravamos esta música (Lixeiras da Cidade) no nosso último disco Inanição (2012).

AM: E como era ser punk na Aracaju dos 80? Uma cidade conservadora…

SC: Era como eu falei antes, era maconheiro, era “viado” e louco. Até em estúdios que eu tentei gravar alguma coisa quando perguntavam: “o que vocês querem gravar?” e eu dizia: “tocamos punk rock”, os caras faziam: “punk rock? o que é isso?” Aí não suportava isso, e na época éramos radicais, era a veia do punk mesmo e com certeza não iriamos explicar o que era punk rock. Fomos sobrevivendo de fitas demo gravadas nos ensaios, mandamos para o país todo. Mais tarde nos anos 90 nós gravaríamos demos em Recife, até porque lá já tinha uma coisa mais adiantada no aspecto de estúdio, eles entendiam o que era uma banda punk.  Hoje dá para fazer uma demo bacana, com capa legal pela tecnologia que tem hoje. Dá para fazer um cdzinho bacana em casa hoje. Na nossa época não. Fazíamos os cassetes e esses cassetes eram distribuídos nacionalmente. Mandava umas trinta capinhas para um cara no Pará e ele me enviava trinta capinhas da banda dele, reproduzia aqui, e mandava para o interior. Existia um câmbio espetacular.

AM: Chegou a mandar para outros países?

SC: Mandei até para as Filipinas. Mandei para o Japão e Itália. Chegou uma hora que eu não tinha como dar conta disso. Primeiro porque não tinha grana. Os correios sempre foi uma parada cara. E eu tinha tantas cartas, tanto material para enviar que eu não tinha dinheiro suficiente para bancar isso. Então comecei a revender demos, trocar, fazer a coisa girar. Aí veio a ideia de loja. A primeira loja que eu montei, na verdade, foram para manter os meus gastos. Se alguma coisa vendia, era revertido em envios de pacotes para outros estados. Nessa história, recebia muita coisa bacana e eu colocava na loja. A minha primeira loja foi no bairro Cirurgia que era uma coisa radical, só vendia metal e punk. Era na rua Riachão, na garagem de uma tia minha. Todo mundo achava que eu era louco “como você coloca uma loja num lugar escondido”, mas tinha muito de ideologia ali.

AM: Rock de garagem, loja de garagem…

SC: Exato. Tinha visto em revistas e fanzines da Inglaterra, de São Paulo, lojas especializadas em rock progressivo, metal, outras mais em rock em geral. Aí pensava: “tem que ter um negócio desse aqui em Aracaju“. As lojas que meus irmãos trabalhavam eram lojas comuns, tinham prateleiras de rock, mas tinham também Trio Parada Dura, Genival Lacerda, um monte de coisas diferentes. Não eram lojas específicas. Só a partir da Distúrbios Sonoros e Lokaos, que se foi ter lojas especificas em rock. A minha (Lokaos) só vendia metal e punk e a Distúrbio era mais abrangente, vendia rock alternativo, Voluntários da Pátria, Ira! No começo, os primeiros compactos do Capital Inicial. Mais tarde fui abrindo para outras coisas, porque a loja foi dando retorno, mas no sentido de manter viva. Na época vendia LP e demo, os fanzines e camisas em formato de silk-screen, que comprava de uma galera de Salvador, camisas de bandas punk, argumentos de protesto, teve uma série que era com fotos do Sebastião Salgado, essas venderam bastante, camisas de voto nulo, contra o racismo. Coisas focadas no movimento punk, no metal inicial no Brasil e coisas que vinham de fora.

AM: Voltando um pouco, queria que você explicasse como chegou na Karne Krua.

SC: As primeiras movimentações a nível local dos rockers, eventos na casa de um, na casa de outro para se encontrar, fazíamos festas. E aí nasceu a necessidade de montar bandas. Nasceram a Perigo de Vida, Crover Horror Show, Fome Africana, Sem Freio na Lingua, The Merdas, Alice, Guilhotina, que foi precursora na questão de metal. Em 83 e 84 começa a rolar uma cena de shows de rock na Barão de Maruim, no trecho onde hoje se localiza a Caixa Econômica, com a rua de  Santa Luzia, era chamado de “Baixo Barão”, onde havia vários bares, alguns até com dois ambientes. Tocávamos no corredor, na frente a galera ouvia MPB e no fundo rolava qualquer coisa. Essas bandas faziam essa cena de tocar, festivais na Escola Técnica (atual IFS), no teatro Lourival Baptista. Em 85 a coisa já tá mais organizada, as bandas já tinham uma história, nego querendo lançar demo. Então sai de cena a Sem Freio na Lingua e monto a Karne Krua, que é como falei, com a coisa mais voltada para o punk, sem letras irreverentes como The Merdas, aquele punk n roll. A Karne Krua tinha uma postura politicamente correta, um tempero mais sério, falando de voto nulo e anarquismo, assumindo uma postura totalmente punk mesmo, visual e letras. Isso em 85, mas só nos apresentamos em 86 em um show na universidade (Universidade Federal de Sergipe).

AM: Fale um pouco sobre a escolha do nome Karne Krua e dos mitos que surgiram em torno dele.

SC: Quando pensei no nome Karne Krua, pensei nas pessoas, no ser humano, e em tudo que ele pode sofrer dentro de um sistema. O racismo, a violência policial, o nuclear. Exemplificando de forma bem simples, pegando aquela ideia de “sentimos tudo na carne”. Na verdade, para não parecer autoritário, o cara que traz o nome e tal, eu pensei no nome Karne Krua e arrumei mais uns 40 e misturei. Só pra ver o que os outros integrantes escolheriam. Então eliminamos 15. Eliminando, eliminando e Karne Krua sempre ali. E como queria que fosse esse nome mesmo, quando chegou nuns dez nomes, aí pensei numa forma de não perder o nome. Falei:“velho, se vocês prestarem atenção, esse nome Karne Krua vem desde a primeira seleção”. Fiquei “botando pilha”, já tinha estilizado botando com dois “cás”. E não tinha dito o conceito ao batera que montou a banda comigo, o Almada, aí quando eu falei o que era Karne Krua, foi imediato e eliminamos os outros nomes. E rolou aquela espécie de batismo. Eu gosto disso. Se alguém me chamar para montar uma banda, que me chame, mas tem que botar o nome primeiro. Senão fica um corpo sem alma. Falei:“velho, vamos fazer uma banda pra fazer história”, isso nunca vou esquecer, na porta da minha casa. “Vamos fazer uma banda pra fazer história e não ficar tocando em garagem a vida toda”, porque tinha bandas que nasceram e nunca saíram da garagem, era mesmo aquele desejo dos rockers. “O cara montou uma banda, pow massa. Qual o nome? É tal, massa. Tô procurando um tecladista”, e nunca achava um tecladista. Era tudo muito difícil, mas aquilo era para alimentar. Tinha um colega, Edvan, nós fizemos varias rockadas na casa dele, a gente chamava de rockadas as festas. E ele faleceu, ele sempre teve o desejo de montar uma banda de progressivo e nunca saiu. Eu lembro que eu tinha um fanzine que saiu a banda dele, Ferro e Cromo.

AM: Era o Buracaju o fanzine?

SC: Não, era outro que veio antes do Buracaju, o Aracarock, era uma mão (um punho cerrado) que mais tarde eu usaria para ilustrar uma arte da Karne Krua, uma mão com arame farpado. “Vamos mostrar nossa força” só com bandas de Aracaju, totalmente desconhecidas de qualquer lugar que você fosse, desconhecidas até aqui mesmo. Mas aquele desejo do vulcão guardado querendo explodir. E aí fiz esse fanzine, todo feito à mão, e todas as bandas tinham sua logomarca e onde fazia as resenhas das bandas. “A Ferro e Cromo de rock progressivo, influenciada por Pink Floyd e tal”, mas essa banda nunca apareceu. Muitas bandas só ficaram na memória das pessoas, porque nunca saíram da garagem, nunca lançaram uma demo-tape.

AM: Mas e o mito do nome? Que vocês jogavam carnes…

SC: Teve várias situações estranhas. A primeira apresentação da banda foi na UFS (Universidade Federal de Sergipe), onde fomos tocar porque uma chapa ganhou lá, e a gente sempre tocava em eventos do PT (Partido dos Trabalhadores), mas nunca respeitávamos a postura da chapa ou dos partidos, íamos com nossa postura e eles chegavam e diziam: “rapaz não precisava falar assim”, mas respondíamos: “falamos assim mesmo”. E teve algumas situações de shows do PT, que eles usavam músicas da Xuxa e tal, e quando cantávamos: “Sarney filha da puta, queremos a cabeça do Sarney” eles pediam pra gente diminuir. E nessa primeira apresentação, ficamos com a fama de quebrar a aparelhagem. Mas, na verdade, o microfone às vezes caía, a parte de cima, mas não com a intenção de quebrar. É que todos na época estavam acostumados com voz e violão, gente cantando Geraldo Azevedo. Ninguém tinha visto uma apresentação daquela. E lembro que trabalhava na parte de medicina e passei a semana inteira ouvindo o pessoal falando “rapaz que loucura foi aquela? o que você fez ali?” E ao descer do palco eu passei pela minha esposa, escutava os caras dizendo: “rapaz, como uma mulher casa com um cara desses? Deve levar uma surra todo dia”. Outra situação também foi num show, na Praça Tobias Barreto, onde foram perguntar à minha esposa se eu não tinha AIDS porque eu tinha tatuagem e se eu não batia nela em casa. Gente conhecida nossa! Outra vez um jornal local insistiu que o nome Karne Krua era porque jogávamos carne na plateia toda vez que íamos tocar. Isso era impossível. Primeiro porque carne nunca foi tão barato assim e nunca foi a postura da banda. Recentemente teve um fato muito engraçado, uma grande emissora de TV daqui de Aracaju contactou a banda para fazer um trabalho, e notei que eles queriam fazer o que outras emissoras menores fazem, trabalhos com bandas locais, para além do que eles fazem com bandas como: Aviões do Forró, Chiclete com Banana. Ligaram-me e eles já cometeram uma gafe já de início: “é verdade que vocês estão completando 16 anos?” Eu falei: “Porra, você quer me entrevistar e diz que ‘parece’ que a banda tem 16 anos, a banda tá beirando os trinta anos!”. Aí falei com o guitarrista da banda, o Alexandre Gandhi, que é o ‘Seu Lunga’ da Karne Krua, e antes de falar isso, ele já disse que a banda não precisava dessa mídia e quando falei que o cara falou que a banda “parece ter 16 anos”, ele “estoporou” de vez. Não demos essa entrevista, até porque tínhamos  que nos adaptar demais ao jeito deles e  tinha decidido nunca iriamos dar entrevista para esse tipo de mídia.

AM: Pegando esse gancho, como era a relação com a imprensa quando vocês começaram?

SC: Nós éramos vistos e comentados pelos partidos na época independentes como o PT, músicos locais e alguns jornais independentes. Um jornal que apoiou muita gente foi o Folha da Praia. Tínhamos páginas no Folha da Praia, matérias grandes sobre a banda. E fora de Aracaju, jornais independentes de Santa Catarina, São Paulo. Isso agregava uma história à banda, havia um respeito. Agora a grande mídia em Aracaju, os globais, esses nunca olharam pra gente. Naquela época a emissora Aperipê fez um material com a gente, umas 15 faixas, a intenção deles era fazer um programa com artistas locais e esse material eu não sei por onde anda. Seria um documento histórico fenomenal. Fiquei sabendo que muitas coisas já se perderam por lá, já pedi para vasculhar, mas nunca acharam. Era um documento com a primeira formação da banda, com o Vicente Coda na guitarra, o Marcelo Gaspar no baixo, eu e o Almada na bateria. E esse material se perdeu. Mais recentemente a gente fez um ao vivo no Programa de Rock. Eu cheguei a dizer que isso foi o tempo dando retorno ao que se perdeu. Esse convite foi feito pelo Adelvan (Barbosa) e foi maravilhoso. Tá guardado e a gente espera lançar em breve.

AM: Como foi sua descoberta com os fanzines?

SC: Os fanzines vieram do lance das revistas de rock que a gente compartilhava. E todas as novidades eram compartilhadas nas rockadas. E veio a necessidade de falar de bandas e de discos que a gente gostava ou não gostava. Começamos a criar a nossa mídia, enviar e receber de todo o país e até de fora. Já existia uma mobilização parecida com o que existe hoje nas redes sociais.  Nos anos 90, tivemos uma coletânea em São Paulo chamada Ódio Mortal e que tinha uma banda com uma música, chamada “Imigrante”, que era altamente fascista, a letra dizia assim: “você que vem para São Paulo, tomar o lugar de um paulista, maldito imigrante, volte para suas terras”. Houve uma mobilização tão grande aqui em Aracaju com relação a isso, fizemos centenas de fanzines, panfletos e informativos e espalhamos pelo Brasil que era nossa mídia. Isso deflagrou uma enorme campanha contra os caras que a banda sumiu, o zine sumiu. Foi abafada por conta dessa campanha. Então a maior propaganda da banda e a maior mídia nossa eram os fanzines. A Karne Krua sempre valorizou muito essa questão dos fanzines. Chegava a ter dias que eu respondia dez entrevistas, muitas vezes as perguntas se repetiam, era normal, já que ninguém era editor de jornal, ou tinha formação em jornalismo. Então era comum as perguntas se repetirem. “Qual a formação da banda”, “Quando começou”, “Que tipo de som vocês fazem”, “Quais as suas influências” isso nunca cansei de responder, e respondi muito. Respondi até recentemente para um site.

fanzine karne krua

AM: Esse ano faz 20 anos do primeiro disco da Karne Krua, como foi o processo para fazer esse disco?

SC: Na verdade esse disco vem de uma história bem interessante. Essa formação não mais existia e aí voltamos a tocar pela segunda vez. Nessa segunda vez é que vem a questão do LP. E acontece ainda o problema que eu comentei antes: “como gravar esse disco em Aracaju?” Não existiam tantos estúdios como hoje. E novamente somos hostilizados: “que estilo vocês fazem?” e “Vão gravar pista por pista?” Não entendíamos nada de estúdio. Na verdade a gente pensava que era cada um tocar seu instrumento e pronto. E não é nada disso, existe toda uma técnica que a gente não conhecia. Eu fui num estúdio aqui e falei: “nós somos a Karne Krua”,o cara até parecia que conhecia a banda, tinha dito que já tinha ouvido falar. Ai ele perguntou: “o que é que vocês tocam?”  Eu respondi: “punk rock”. Foi quando ele falou: “esse negocio de funk rock num já passou não?” Perdi o interesse de dar continuidade ali, porque se o cara nem sabia o que era, como seria essa gravação? Voltei e falei com os caras da bandas e disse:” o cara falou que não sabe porque a gente toca esse negócio de funk rock”. Eles perguntaram se eu não expliquei, eu ia explicar o quê? Foi quando a gente fez um contato com uma banda amiga da gente de Recife, a Câmbio Negro HC. O batera e o vocalista na época fizeram uma coisa bem bacana. Nos levaram pra casa deles, passamos uma semana lá, eu estava doente, o batera ajudou demais as gravações.  Foi muito difícil. O disco pra mim não representa muito o que era a banda naquele momento. Ele não mostra como era realmente a banda naquele momento. A questão da voz, como eu disse que estava doente. Mas tem seu valor e foi muito importante para a banda, que aliás não tinha dinheiro. Na verdade, foi a mulher do baixista que saiu do emprego e acreditou:“vamo fazer, vamo fazer”, e emprestou o dinheiro à banda, para ir pagando com a vendas dos discos. Coitada, deve ter recebido o dinheiro todo em pedacinho. Mas ela fez por prazer também, ela gostava. Eu considero o disco como um marco. Não que ninguém não tivesse lançado disco em Sergipe. Clemilda já tinha feito vários. Mas do nosso meio foi a primeira banda a lançar. E é um disco bem falado pelo Brasil. E mais do que isso, é disco que só existe em vinil. Tem uma versão em CD pirata que nós mesmos fizemos, mas nada oficial. Então ele tem um valor muito grande por conta disso.

AM: Mas naquela época já existia o formato em CD…

SC: Sim, na fábrica fomos perguntados se não queríamos fazer uma parte em CD. Me lembro como hoje que eu comentei com o baixista da banda: “esse negócio de cd player ninguém tem”.  Era algo muito moderno, tinha gente que nem sabia o que era. Me lembro que na minha loja, se tivesse, era dez peças, apenas. O CD mais caro era 18 reais e a galera reclamava. Hoje tá tudo é mais caro, o LP que era dez hoje é cinquenta, o CD que era dezoito agora é trinta e cinco. Ficou supervalorizado e a indústria fonográfica deu um tiro no pé com essa história. E tivemos um momento que o disco ficou parado realmente, porque o vinil virou lixo. Eu cheguei a ver na rua caixas de LPs jogados. Nunca me desliguei do vinil, na loja nunca deixei de vender e sempre tive vinil em casa. Estou vendendo trinta LPs para cada dois ou três CDs,em 2014.

AM: Qual foi a fase mais difícil da banda?

SC: Recordo de duas fases, uma com o baixista que tocava com a gente, o Marlio, uma fase que saíram o Marcelo e o Almada. E cara, nunca pensei em desistir. Ficavam dois, mas era correndo para arrumar outras peças. E outra fase foi a do Inanição, foi um momento muito difícil. A banda estava intensamente nos palcos, e ao mesmo tempo uma coisa interna como se fosse um vulcão querendo explodir, coisas pra fazer, gravadora que deu toco na gente, a banda briga no palco, parecia cobra se mordendo. Nesse momento também saíram muitos caras bons da banda, Thiago Babalu foi embora, o Jamisson Santana foi embora e, nesse meio tempo, entraram outros caras bons e também saíram. E ficamos só eu e o Alexandre Gandhi, que assumiu um papel fundamental na banda, praticamente como se fosse um outro Sílvio, entende? É um cara que veio de outra geração, mas que bota muita fé na banda. E era um fã, o primeiro fanzine dele era sobre a Karne Krua. Falei pra ele que ele era o maior “paga pau da Karne Krua” (risos). E aí ele assume um papel muito forte na banda hoje. Hoje passo pra ele algumas questões pra resolver, ele tem uma palavra mais dura. Eu às vezes aceito tocar em qualquer lugar, aceito fazer qualquer coisa e ele tem uma postura de preservar a banda. Nesse momento do Inanição, a gente ficou sem grana, somente eu e ele. E ele assumiu um papel mais importante que eu. Porque ele começou a mixar o disco e a gravar a guitarra e o baixo. Eu, Sílvio, não faria isso, porque não teria condições de fazer e ele faz. Foi um momento difícil, mais a coisa camaleônica da Karne Krua começou a funcionar. Não só o integrante Sílvio, ou integrante Alexandre, a Karne Krua. Eu acho que existe uma energia, eu acredito nisso. Me esquivo às vezes, “cara não é só Silvio não,  Karne Krua  é Karne Krua”. Eu sou Silvio e a Karne Krua está ali do meu lado. Então Alexandre foi fundamental nesse momento, ele foi outro Silvio, se juntou à Karne Krua e a gente colocou a coisa pra funcionar e foi difícil. E agora a gente entra em outra fase, lançamos outros materiais, com outro baterista, o Adriano, lançamos um EP muito representativo pra gente e o disco novo que tá pra sair, que é o “Bem Vindo ao Fim do Mundo”. Já estamos em outro esquema, tipo renascendo. A energia de hoje é como se a banda tivesse nascendo hoje, é uma efervescência da poxa.

 * Coletivo A MOSCA – O Jornal que pintou para lhe abusar

10 comentários sobre “Silvio Campos (Karne Krua) : Parte 1 – “Sentimos tudo na carne”

  1. Pessoal,

    Muito boa materia! O Silvio sempre guerreiro. citou o Guilhotina, muita recordação! Sou da primeira formação. O Marcelo Trex. rsrsr. onde esta todo esse pessoal?

  2. um da pouco da historia desse incone rock sergipano e pq nao do underground brasileiro, sou fa da karne krua desde 1992 e ate vejo a perserverança desse homem que sempre acreditou no rock em sergipe.

  3. Que legal! O Silvio é a “Enciclopéda do Rock” em Sergipe. Conheço esse cara há mais de 20 anos e sou fã. Costumo dizer que ele é o “Lemmy” sergipano, o cara mais rock ‘n roll que conheço, pois vive há três décadas mantendo-se fiel a seus princípios.

  4. Muito bom o depoimento, o registro de uma história bonita, coesa, verdadeira, que inspira gerações dentro do rock sergipano, e vai continuar influenciando muita gente!

  5. Excelente entrevista, eu fui vizinho do Silvio na década de 90 época em que ele morou ali na Av. Nova Saneamento, eu ainda era muito novo não entendia bem o que aquele coroa cabeludo fazia sempre com um violão nas mãos e vestindo roupas com mensagens anarquistas. Anos depois fui entender a importância da música que ele produzia e tive a oportunidade de dividir palco com esse cara no antigo Cultart na av. Ivo do Prado, onde tocamos uma de suas canções intituladas de “Manchas de Sangue”, foi uma experiência muito foda! Até hoje guardo essa .mp3 do show ao vivo da “Tchandala” que foi histórico pra mim (eu, aquele guri que ainda jogava video game e o coroa anarquista que eu via passar com violão) rsrs =)

  6. Caramba! De longe a melhor entrevista que já vi com Silvio! Tem muita informação aí, da infancia, que eu nem sabia – e olha que já ouvi muita história da infancia dele, de bobeira conversando lá na loja. PARABÉNS !!!

  7. Sensacional! Rever a história do Karne Krua que testemunhei o nascimento, embora nunca tivesse sido um autêntico roqueiro, pois apenas aprecio moderadamente o rock, mais precisamente o pop rock. Meu ouvido musical é mais MPB. A minha relação com o Karne Krua se deu mais pela amizade, pela vizinhança no Bugio. Aliás, esse vínculo, principalmente com Sívio e Tonho (nada de Almada, para a gente no bairro era apenas Tonho), se estreitou mais pela nossa participação nas peladas de futebol, no asfalto e nos campinhos de várzea, além do Racing, time criado pelos manos de Sílvio – Urano, Wilson, Beto e Wellington “Moita” (o maior intérprete das canções de Alceu Valença que conheço). Da música do Karne Krua mesmo, alguns shows esporádicos, nos tempos estudantis da UFS, incluindo o primeiro, e os ensaios na casa de Tonho “Almada”, e no CSU. De tudo, um pouco de sentimentalismo também, me orgulhava dizer aos amigos que a banda era formada por colegas do bairro. Valeu, Rever, pela oportunidade de revisitar uma parte da minha adolescência também.

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