A Pelada: a comédia urbana que satiriza a monotonia

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Quantas vezes a gente ouviu aquele eloquente “Fi do cabrunco!” no cinema? Ou que tal personagem é de “Canhoba, ali pertinho de Propriá”?

por Adson Rocha

Finalmente assisti ao tão comentado A Pelada, comédia de costumes, inteiramente rodada aqui em Aracaju, coproduzida entre Brasil e Bélgica, que entra em cartaz amanhã nos cinemas. Foi uma sessão satisfatória, com muitas risadas, gratas surpresas e outras nem tanto.

A primeira delas é que A Pelada não é um filme para agradar turista com um desfile óbvio de cartões postais da cidade. Quem espera por isso, sairá desgostoso. Em vez disso, o diretor, sabiamente, escolhe recantos pouco conhecidos da cidade ou aqueles que ilustram as paisagens vistas da janela do carro ou do ônibus em nossos trajetos tão rotineiros. Isso deu um aspecto vívido não previsível à cidade. O quebra-mar da Coroa do Meio, os vendedores de cadeira da Avenida Mário Jorge, a Rua da Frente vista lá da Barra dos Coqueiros e a Rótula do Sinhazinha foram todas ótimas escolhas do diretor e que geram uma aproximação bacana com o espectador aracajuano.

Uma aproximação regional da qual, creio, ainda somos muito carentes e que só é sentida parcialmente em filmes de maior projeção graças ao sucesso do competente e prolífico cinema pernambucano, onde destaco os diretores Karim Aïnouz, Marcelo Gomes e Kleber Mendonça Filho. Por essa razão, ver uma produção feita em nossa terra, com nosso sotaque e nossas palavras ainda é uma experiência nova e interessante, às vezes até tosca.

Quantas vezes a gente ouviu aquele eloquente “Fi do cabrunco!” no cinema? Ou que tal personagem é de “Canhoba, ali pertinho de Propriá”? Em um mesmo filme visitei um quarto de motel fuleiro e uma suíte classuda do Francese Motel. Genial demais. É a mesma satisfação estranha que tive ao ver as cenas ambientadas no Asilo Rio Branco (no curta Para Leopoldina), ou me deparar com o Asas Morenas tocando em um brega qualquer no centro devasso da cidade (no curta Madona e a Cidade Paraíso). Parecem coisas banais, mas, para nós do lado de cá, domesticados com a cena audiovisual/cultural do eixo Rio-SP, só parecem.

Dito isso, A Pelada funciona bem como uma comédia urbana porque satiriza a monotonia (e até o sexismo) na vida sexual do brasileiro comum. É um tipo de humor que funciona porque coloca esses personagens em desafios e situações de constrangimento e frustração com as quais o espectador pode facilmente se identificar e rir a respeito. O resultado são alguns momentos memoráveis, como as cenas da saída do motel, da [tentativa] de ménage à trois ou das desventuras de um pênis de borracha que simplesmente não parava quieto.

Apesar de tudo isso, e da trilha sonora porreta, o filme oscila bastante. Seja por algumas escolhas equivocadas, seja pela desenvoltura irregular de alguns atores. Achei particularmente incômoda e desnecessária a cena em que uma das atrizes aparece com marcas no rosto após ter sido violentada pelo marido (e que este fato, na cena em questão, tenha provocado risadas da plateia). Entendi a proposta do diretor ali, mas a cena não funcionou como saída cômica e nem funcionaria se a intenção fosse denunciativa. A hiperssexualização da “mulata gostosa” é um recurso típico de comédias globais, que também poderia ter sido evitado, e que quase comprometeu a melhor cena do filme (não fosse ela tão boa). Sobre os atores, o tom muito desenxabido da protagonista, interpretada pela Kika Farias, destoa um pouco do papel que ela representa. Faltou um pouquinho só de malemolência, de malícia. Já Tuca Andrada e Karen Junqueira estão bem medianos, perdendo todo o “brilho global” para o carisma instantâneo dos atores Bruno Pêgo (protagonista) e Pisit Mota, ambos fenomenais, responsáveis pelos melhores momentos do filme.

No geral, sobrevivendo aos tropeços, A Pelada é uma ótima alternativa para quem quer fugir das comédias românticas enlatadas do Cinemark e deseja se deleitar um pouco com a personalidade urbana de Aracaju.

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