Transeunte: a continuidade do cinema independente brasileiro

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Cineasta Daniel Lolo revela a preparação do curta-metragem ‘Transeunte’, filme que retrata a realidade de um morador de rua

por Geilson Gomes

Sabe como é se sentir um homem frágil dentro de uma metrópole? Pois bem, esta é a proposta que o curta-metragem ‘Transeunte’ quer transmitir. O filme, roteirizado pelo cineasta paulista-aracajuano, Daniel Lolo, retrata a vida de um morador de rua que perambula nas avenidas de uma grande cidade que é São Paulo. Produzido de forma independente, o curta vem explorar a atmosfera de pessoas que vivem à margem da sociedade contemporânea, repleta de valores que não são acessíveis a quem mora debaixo de sacadas e dormem em papelões.

De acordo com Lolo, a ideia do curta surgiu a partir de encontros com moradores de rua de São Paulo e de Aracaju. “Para mim, absorver destes homens uma carga que está além até do nosso próprio entendimento fez com que eu me interessasse cada vez mais por essa questão humana que se desvirtua do sentido de valor que damos ao material, aos padrões, as regras e ao próprio sentido de estar inserido em algo que, de certa forma, não funciona tão bem, que é a estrutura social que encaramos dia a dia”, diz.

Ele também conta que o filme aborda alguns dilemas sociais, como os padrões sociais que são impostos às pessoas. “O Transeunte, de certo modo, forma-se como uma antítese entre a cidade e o ser humano em seu estado mais natural, uma representação da rua, do espaço e do humano, despido de padrões sociais ao qual estamos impostos. Onde este, numa dualidade quase que barroca, se encontra dividido entre a busca por uma afirmação de sua humanidade, representada nos valores sociais que lhe são negados e na fé – que é o que lhe sobra – através de uma crença num ser divino”.

“E é por aí, que a discussão e a narrativa desenvolvem-se. Muito através de questões existenciais do personagem tendo o embate com os valores dessa sociedade – como, por exemplo, na fé e na esperança da salvação do espírito, e o próprio valor de afirmação atribuído ao material e, por isso, o uso do bilhete como analogia– que não comporta (ou cabe) no corpo e na mente de um homem desumanizado”, acrescenta Lolo.

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O curta está sendo realizado pela produtora Filmes do Beco, que é composta por quatro amigos: Lolo, Hugo, Igor e André. Todos eles se encontraram em São Paulo e se juntaram para fazer o que mais amam na vida: cinema. “Realizamos alguns curtas-metragens juntos nos últimos anos, e há alguns meses atrás decidimos nos juntar e nos dedicar integralmente à produção audiovisual. E aí nasceu a ideia de formar esse coletivo, a produtora Filmes do Beco, com o objetivo de produzir mais curtas de ficção e documentário, e também, de produzir conteúdo audiovisual para outros meios e plataformas, como web, mobile e VOD. Ainda estamos bem no início de todo esse processo, por isso temos investido bastante na viabilização de nossos projetos, como o curta Transeunte”

Ademais, Daniel revela que estar em São Paulo contribuiu muito para que a ideia do curta ‘Transeunte’ fosse desenvolvida. “O intuito de estar em São Paulo foi de me especializar e tentar evoluir na área do cinema, interagindo e fortalecendo relações com pessoas que tem o mesmo interesse. Aracaju poderia me proporcionar isso e ainda proporciona, mas de uma maneira mais observadora, mais distante. Talvez se estivesse aí, iria pegar o bonde andando, como ele está, e espero que continue firme e forte. Já com relação ao Transeunte, acredito que esta ideia só poderia se consumar em São Paulo. Um personagem como este funciona muito melhor numa cidade caótica e gigante como São Paulo. A agonia é muito maior, a visceralidade desses caras aqui é enorme. Porque a cidade engole, ela cansa, de certo modo”, aborda.

Indagado sobre a realidade do cinema independente brasileiro, o roteirista responde que os produtores vêm se esbarrando na problemática distribuição dos filmes não-comerciais. “Acredito que o cinema brasileiro independente tem crescido de forma incrível nos últimos anos. Os meios e os aparatos utilizados facilitaram as produções e a dinâmica dos processos, então a quantidade de produção aumenta e, por isso, tem muita coisa boa surgindo por aí, principalmente em lugares como Pernambuco e Minas Gerais, que são estados que compreendem cada vez mais a demanda criativa desse setor. Mas, existe o problema de distribuição e de veiculação dessas produções que é sempre um grande entrave para o cinema brasileiro independente”.

Lolo recorre a duas experiências para exemplificar a realidade árdua do cinema independente brasileiro. “No início do ano tive a oportunidade de ir ao Festival de Cinema de Tiradentes e na Mostra Tiradentes em São Paulo. Dois filmes que de lá foram aclamados pela crítica – Branco Sai. Preto Fica e a Vizinhança do Tigre –, pouco tiveram oportunidade de sair das telas de festivais e mostras. Nós ficamos quase que restritos a Hollywood e a Globo Filmes. Por mais que agora sinalize-se algumas soluções como a lei da TV Paga, vejo isso ainda muito para um público restrito, que é o mesmo público que já acompanha e gosta de cinema e arte em geral”.

“Acredito que algo deve ser feito de maneira mais feroz, algo que modifique de fato o funcionamento da distribuição nos cinemas, onde ao invés de trailer americano ou algo do tipo, que passe um curta brasileiro. Parece uma ideia utópica e idiota, talvez seja, mas acho que precisamos pensar em soluções para que o pequeno produtor tenha seu espaço e que mude, nem que seja um pouco, o pensamento de quem vai ao cinema”, reflete.

O curta ‘Transeunte’ ainda está em fase de preparação. Agora, a produtora Filmes do Beco está captando a grana necessária à produção da película. Para isso, os meninos recorreram ao site de captação financeira colaborativa: http://www.benfeitoria.com, que é um empreendimento online que fomenta projetos culturais.

Por se tratar de um projeto experimental mais complexo, o Transeunte exigirá um trabalho de produção elaborado, e consequentemente, mais recursos para sua realização. O curta está orçado em R$ 10.000,00. Conforme a produtora, o recurso arrecadado será utilizado para remunerar o elenco, pagar os gastos com transporte e alimentação, locar equipamentos, confeccionar objetos da cena e figurino.

Ideias de filmes que fogem da lógica comercial e hollywoodiana devem ser sempre motivadas e impulsionadas. Sendo assim, é importante reforçar todo apoio a essa nova empreitada da equipe do Filmes do Beco. Quem quiser contribuir para que esse projeto siga em frente deverá se apressar porque restam 38 dias para terminar o prazo de contribuição financeira no site. O interessante é ver que mais de 50% já foi levantado e que provavelmente mais um filme independente e questionador poderá ser lançado nesta sociedade que, infelizmente, dá pouco valor  ao cinema de arte. Boa sorte e vida longa a Filmes do Beco!

Para conhecer o projeto do curta acesse: http://benfeitoria.com/transeunte

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