Pietà feita de excreções do desejo

latuffhomo

Quanto tempo duramos e perduramos em afirmações e refutações de narrativas sobre o que pode ou não sobre os centímetros encobertos de nosso corpo?

*por Baruc Carvalho Martins e Thiago Ranniery

A saliva quente, o cheiro claudicante, bruto, as costas embevecidas de um suor que não cessa. De cima pra baixo, de baixo pra cima, o corpo todo se eriça e retrai. Esquenta, coração bate mais forte. Os movimentos se aquecem, aceleram. A respiração ofegante ganha contornos espetaculares e uma sinfonia se apresenta na carne, na buceta, no cu, na axila, na boca, nas orelhas, cabelos e onde quer que o desejo sugira. A última transa sua parece ser a primeira. E de gozo, nas esquinas das formas, conclama: “Preencha todos os meus buracos”.

Essa é a cena que encerra Ninfomaníaca: Volume I (2013), de Lars Von Trier, e que abre um paralelo ao redor do filme: uma mulher compulsiva por sexo encontra no primeiro amor de sua vida a chave para a libertação da sina que é transar descontroladamente, com qualquer um, mas sem conseguir atingir o gozo em toda a sua plenitude.

Em confronto, de distâncias longitudinais e tão próximas a isso, o episódio que durante poucos minutos atravessou a madrugada desta segunda, 29, e provocou extensas discussões nas mídias sociais, pôde confirmar: as beiradas também se aproximam de excreções, sujeitos, lugares e substâncias.

Remontando a cena da ficção, Levy Fidelix, candidato à Presidência da República, em pleno debate numa emissora da TV aberta, disse o que muitos de nós já sabemos. A medida de sua força nas palavras tão contundentes – e, para alguns, deslocadas da realidade –, muito provavelmente, desencadeou a produção de memes, hashtags, depoimentos, em maior medida de rechaço, e elogios em todas as plataformas de socialização do ciberespaço sob o doce véu de uma contenda que agora se armava.

E as justificativas para isso, postas sobretudo no Twitter, não foram poucas:

“@thaisapriscilla Ninguém é obrigado a concordar com estilo de vida ou opção sexual de outros, mas respeito é o mínimo que se pode ter! #levyvoceenojento”.

“@gotsgaga uma coisa é você não concordar com a comunidade lgbt outra coisa é fazer discurso de ódio, exigimos respeito!!!!!!!!!!!! #LevyVocêÉNojento”.

“@SHINEELUXO #LevyVocêÉNojento deve brincar de troca-troca com o Marco Feliciano e Silas Malafaia e fica aí”.

“@rotrez O que vai “””acabar””” com a família é ela ser tão mencionada por um ser tão nojento quanto esse #LevyVocêÉNojento”.

E os apoios para isso não foram tímidos:

“@Metaller666 Nojento é ver homem beijando homem. #LevyMeRepresenta”.

“@Ops_Fran O cara tem direito de ter opinião própria, ninguêm é obrigado a aceitar os gays!  #LevyMeRepresenta”.

“@gustavo_ramiro #levymerepresenta muitoo boa a resposta . Não é preconceito é fala que pensa . BRASIL É UM Pais democrático e falamos o que pensamos #Freva”.

“@danielzuos #LevyMeRepresenta @levyfidelix  Apoiado,  somos a maioria! Quem é contra tem o meu respeito, mas primeiro se de o respeito.”

A ebulição dessas frases se transformaram em respostas prontas para punir um Outro, que agora figurava como vilão. Levy foi pregado na cruz de Pedro, de cabeça para baixo, reforçando o misticismo maniqueísta que impediu muitos de avaliar a complexidade das intricadas relações políticas que configuram esta cena grega, quase clássica. Entre o herói e violão, Levy vira Judas, o traidor em dia de malhá-lo. Sob os imprecisos poderes do horror, vemos voar pelos ares as violências inscritas no corpo nosso de cada dia. Aos auspícios da palavra daquele a cujo dogma, muitos dos mais revoltosos, são fiéis: “a história se repete, a primeira vez, como tragédia e a segunda como farsa”. Mas não houve correspondência entre o Mestre e os peregrinos. O catecismo foi jogado no lixo.

Sagrado e profano se esgarçaram mutuamente. Limites foram fronteirizados por beiras. As posições a favor e contra das declarações de Levy, tão ingênuas em seu caráter preconceituoso ou de heroico de combater violência, puseram, mesmo que sem querer, em lados iguais pessoas que se identificam de campos/ideologias diferentes. Foi uma festa com defesas valorosas que reiterava e atualizava a norma enquanto deixava a vida escapar, frágil pelo vidro asséptico do debate político. De novo.

Pau, cu, buceta, pelos, costas, barriga, mãos, dildos, squweels. Nem só de excreções vive a foda. Casamento, divórcio, união, poliamor, pluriamor, amor livre, relacionamentos em diapasão que não se encerram. Nem só de marido e mulher vivem as pessoas. Homem, mulher, papagaio, periquito, jabuti, unicórnio, criança, filho e manjericão. Nem só de comerciais de margarina vivem as famílias. E nem só de famílias vivem as relações de parentesco.

Quando não postos assim, passeando pelos caminhos pegajosos e tão surtidos do prazer, o absurdo que se toma das palavras de Levy escondem a natureza potente que faz do seu hino contra um certo tipo de práticas sexuais a significaram certos tipos de pessoas, os homossexuais, tornar-se exigência primeira e última da cartilha do rechaço, da indignação, da ira descontrolada.

Não deveria ser difícil perceber que as excreções não saem de sua boca como projetos de um país teocrático. São elas, contudo, recursos de um jogo bem jogado para aclarar nas reações do público a soma de um minuto a mais de atenção num espaço tão concorrido como o da TV.

É o marketing político projetando ideias que já fazem parte da sociedade. Como enunciador, Levy baila em atos de fala precisos para uma repercussão pensada. “Aparelho excretor não reproduz”, afirma. E pra que precisaria? Toda relação deve culminar com uma criança? E os casais héteros inférteis que utilizam de seus aparelhos excretores – pau, buceta – não estão nessa conta?

Em uma reviravolta estranha, deixa vazar o que nem se sempre se faz óbvio: pessoas fazem sexo com zonas de impurezas do corpo. E essa conjugação ente corpo impuro e sexo não é exatamente da ordem do reprodutivo. Estranha cena essa, em que aquele que incitou um país contra um minoria sexual, seja o único a assumir, nem que seja para rechaçar, o que não se pode dizer: sim, pessoas fazem sexo com um buraco do corpo chamado cu.

E o ruído incomoda. Avança. Em Luciana Genro, a candidata que se localizou do outro lado do ringue, uma proximidade irrevogável com Levy se abre: o que estamos dizendo sobre nós – a partir de nós? Não é fácil, não é inteiro, não é direito.

Luciana, à guisa de uma resposta já batida, endossou o que se propôs a criticar. Ratificou em espírito, nos poucos segundos que teve a disposição, tanto para a pergunta quanto para a resposta, o elo místico que se configurou depois na disputa entre o bem e o mal, entre as trevas e a luz, entre o amor e o ódio. Como assim violência se soluciona com casamento, Lu?

E o cu fustiga, contrai, expele. Fulguras de desejo, de uma relação construída entre a inteligibilidade do prazer e a própria nuance que delineia o ambiente do mundo. Mas isso não está claro. Nem poderia.

Em mundo em que a celebração do amor é invocada para estancar a violência, transformando em ruínas os desejos, os suores, o gozo, o sujo do sexo, o impróprio do discurso em cadeia nacional, varremos para baixo da vida a impureza da própria existência, que, ainda bem, teima em voltar à superfície. Sim, pessoas transam, fazem sexo, das mais diversas formas. Quanto tempo duramos e perduramos em afirmações e refutações de narrativas sobre o que pode ou não sobre os centímetros encobertos de nosso corpo? Pecado mortal se paga com penitência pagã.

E o filme chega ao seu final. A segunda parte estreia. Em Ninfomaníaca: Volume II (2014), também de Lars Von Trier, na última cena Joe (Charlotte Gainsbourg), tendo entre as pernas o seu protetor, um homem velho que nunca conseguiu transar na vida, a tentar estupra-la, sussurra em tom forte: “Não!”. “Mas você transou com milhares de homens”, retruca. A tela fica preta. O estampido do tiro cruza o espaço. Ele, provavelmente, morre.Mas não morre, circula, vive, vira fantasma. Das formas de um substantivo que torna uma mulher em ninfomaníaca pela regulação que se faz do limite da pureza de seu corpo; de bigode e cabelo pintados, Levy aponta para a insígnia que não alcança e nem consegue possuir completamente. Aponta para uma espécie de fantasma a assombrar. Tanto quanto a ameaça da violência, o risco é conjurar, como quem esteriliza vidraças em laboratórios da existência, essas fantasias da imundice e da sujeira, às custas de protegê-las.

Sua verdade, construída em um discurso de ódio lavrado em candura, transfigura em depósitos simbólicos excreções que encantam em sua sujidade. Mas que, no último frame, reabastecem as normas, mesmo de quem apaixonadamente e tão afetivamente se coloca contrário a injustiças.

É o The End que chegou. Vai começar outro filme.

* Baruc Carvalho Martins  é estudante de Jornalismo da UFS, militante do coletivo (Des)montadxs e RUA.

* Thiago Ranniery é doutorando em Educação pela UERJ e militante do coletivo (Des)montadxs

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