A realidade homicida ao nosso redor. Alma não tem cor, mas corpo tem

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Quantas famílias perderam seus pais e quantas mães tiverem que enterrar seus filhos, principalmente os nascidos de cor escura

*por João Camilo

No mês de julho, foi lançado o “Mapa da Violência 2014 – Os Jovens do Brasil”. Com índices registrados até o ano de 2012, o relatório teve a autoria do coordenador da área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, Julio Jacobo Waiselfisz, e recebeu o apoio da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, da Secretaria Nacional de Juventude e da Secretaria-Geral da Presidência da República. Naquele ano, 56.337 pessoas foram vítimas de homicídios, 7,9% a mais que em 2011. Imagine 154 assassinatos por dia.

As informações foram reunidas a partir do Sistema de Informação sobre Mortalidade, do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (SIM/DATASUS), responsável por catalogar os dados das 27 unidades federativas. A pesquisa trouxe resultados não apenas alarmantes, mas, principalmente, sintomáticos. Do total, 91,6% dos alvos eram do sexo masculino. Ficaram pelo caminho 30.072 jovens brasileiros – a parcela entre 15 e 29 anos, equivalente a 26,9% dos que habitavam no país. Eles foram vítimas de 53,4% dos homicídios.

Uma pena que as estatísticas sejam feitas de números quando se tratam de vidas em jogo. Gente massacrada pela insegurança das cidades, por grupos de extermínio, pelo combate sem sucesso ao tráfico de drogas ou por uma polícia opressora. Quantas famílias perderam seus pais e quantas mães tiverem que enterrar seus filhos, principalmente os nascidos de cor escura. Daqueles corpos, 41.127 (73%) eram de pele negra – ou seja, a somatória entre pretos e pardos, conforme convenção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Além do quantitativo nacional, a edição de 2014 do Mapa da Violência também apresentou dados referentes aos estados e capitais. Sergipe alcançou, em 2012, a surpreendente marca de 883 homicídios, um aumento de 19,5% em relação a 2011. Das vítimas, 477 (54%) eram jovens entre 15 e 29 anos: um deles foi Jonatha Carvalho dos Anjos, 16, baleado com um tiro na cabeça em março daquele ano (http://goo.gl/UdZJ6d). Não para por aí: entre os mortos, 811 (91,8%) eram pretos ou pardos. Foi uma média superior a dois negros liquidados a cada 24h.

Em Aracaju, a situação não foi diferente. Dos 883 homicídios ocorridos no estado, 351 aconteceram na capital, sendo que 327 tiveram como alvo a pele negra. Os outros 24 eram brancos. No Brasil, de 2002 e 2012, o número de assassinatos com vítimas brancas caiu 24,8%, enquanto que, para os negros, subiu 38,7%. Com os jovens, ao longo desse mesmo período, o contraste ficou ainda mais evidente: 32% a menos entre os brancos, 32% a mais entre os negros. É por isso que combater o racismo nunca é demais. Porque o racismo vive. E mata.

*João Camilo é jornalista

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