Rever Entrevista: Lidi do Pagufunk

lidi
(Foto: Fernando Correia)

“Olha como ela fala, Olha como ela fala. Ela fala revolucionando, revolucionando. E a gente se amarra no jeito dessa menina, sempre acompanhada da luta feminista. Quando ela passa os machistas já cochicham: poxa vida hein.”  ( Revolucionando- Pagufunk)  

por Rafa Aragão

Nada define melhor Lidi de Oliveira, 22 anos, também conhecida como “Lidi do Pagufunk” do que os versos acima. Por onde passa ela vai revolucionando, cantando e levando a mensagem do feminismo. Nascida em Belford Roxo e criada em Duque de Caixias, município da Baixada Fluminense – periferia do Rio de Janeiro, essa filha de nordestinxs, descobriu no feminismo uma forma de resistência contra a violência e o machismo. Nessa entrevista descobrimos um pouco mais sobre sua trajetória e suas opiniões sobre política e cultura.

Rever: Como você conheceu o feminismo?

Lidi: Conheci a teoria feminista aos 16 anos, através de sites e blogs. Mas o feminismo vai além da teoria, costumo dizer que sempre o vivenciei. Quando tinha 12 anos, aconteceram dezenas de casos estupros, contra crianças e meninas adolescentes, no bairro que cresci e ainda moro, amigas foram mortas. Foi muito marcante pra mim, sabia que a culpa não era nossa, que alguma coisa precisava mudar, só não sabia como. Eu prometi a uma amiga, no dia em que soube de seu falecimento (foi estuprada e esquartejada pelo avô) que um dia descobria uma forma para que nenhuma mulher passasse pela mesma situação. Cheguei a fazer trabalhos voluntários em igrejas, orfanatos, asilos e aos 16 anos descobri aquilo que seria a resposta pras minhas indagações e a razão pra continuar a resistir: o feminismo.

Rever: Conte para nós como nasceu o Pagufunk e por que escolheram o funk?

Lidi: Pagufunk nasceu em julho de 2013, em um quintal de uma biblioteca comunitária, do Grupo Tia Angélica, no bairro onde moro, em Caxias. A biblioteca tinha perdido milhares de livros, por causa de um alagamento, uma amiga (Deborah – DJ da Pagufunk) e eu resolvemos colaborar com o espaço, construindo atividades culturais no local. Vale ressaltar que Tia angélica, uma incrível senhora feminista, mantém a biblioteca com o pouco dinheiro que recebe de aposentadoria.

Em um sarau que organizamos no local, começamos a reparar que as crianças e adolescentes dançavam músicas que tinham um conteúdo muito machista. Eu já estava me aventurando a escrever músicas, Deborah me incentivou a pegar o microfone e cantar para minhas vizinhas, daí nasceu Pagufunk.

O funk é nossa cultura popular, crescemos ouvindo o batidão, minha família e vizinhxs dançam funk, faz parte do nosso dia a dia. Usamos nossa cultura como forma de transformação em nossas casas, ruas, bibliotecas e todos os espaços.

Rever: Além da música o Pagufunk atua em outras áreas?

Lidi: Além de escrever músicas e cantar, Pagufunk organiza oficinas sobre feminismo, gravação de músicas, história do movimento de mulheres da Baixada Fluminense em escolas, bibliotecas comunitárias e pontos de cultura.O recurso de boa parte do que fazemos vem do nosso próprio bolso, costumo dizer que nós ficamos ainda mais pobres depois da Pagufunk (risos).

Rever: O vídeo da música “A missão vai ser cumprida” gerou diversos debates entre as feministas e revolta entre conservadores por conta do refrão (“eu vou cortar sua pica”).  Quem escreveu a letra? Como nasceu a ideia do vídeo? E qual a reação de vocês diante das ofensas e ameaças?

Lidi: Todo o debate que gerou em torno dessa música merece se tornar um filme (risos).

Ela foi construída de forma coletiva, o funk “A missão vai ser cumprida” é do mundo! Várias mulheres colocaram seus versos, seus gritos de revolta e o objetivo é que continuem acrescentando novas letras.

Sobre o vídeo, em novembro de 2013, aconteceu a Residência Artística Feminista Libertária (REAL), em Brasília, organizada pelo CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria). Era um espaço para artivistas se encontrarem, trocarem ideias, construírem coisas juntas. O vídeo foi gravado em um momento de descontração entre a gente e em janeiro de 2014 divulgamos esse registro audiovisual.

Em pouco tempo, o vídeo chegou a ter 200 mil visualizações e muitas ameaças, nossas páginas foram atacadas, nossos rostos escrachados em sites neonazistas, faziam campanhas pra nos estuprarem, nos prenderem e por aí vai. Nossa reação foi buscar fortalecer redes de apoio, mulheres de vários lugares do mundo se manifestaram em solidariedade. Tínhamos a certeza que estávamos incomodando quem deveria ser incomodado. A missão foi cumprida!

Rever: Como é seu trabalho com as mulheres em situação de risco da Baixada Fluminense (RJ) ?

Lidi: Baixada é um território marcado por violência, principalmente contra as mulheres, infelizmente é algo do nosso cotidiano receber notícias que uma vizinha foi assassinada, estuprada e/ou espancada. Pelo fato de construir minha militância no lugar que cresci, diariamente mulheres batem na minha porta, seja pra desabafar ou pra levarmos até a Delegacia da Mulher.

Nós somos vistas apenas como estatísticas (A Baixada é a região que apresenta os maiores registros de casos de estupros no Estado do RJ, de acordo com o Instituto de Segurança Pública). Nadando contra a maré, há mais de um ano venho construindo atividades culturais numa biblioteca comunitária (lugar que nasceu PaguFunk), buscando trazer através das diversas artes temas sobre o nosso dia a dia.  E há vários grupos de mulheres na região que resistem, a luta é coletiva.

Rever: Houve muita polêmica entre blogs e ativistas sobre a participação dos homens na construção do feminismo. Como você acredita que os homens podem contribuir com o feminismo?

Lidi: Homens podem contribuir se desconstruindo na PRÁTICA, reconhecendo seus privilégios e tendo a consciência que o protagonismo da luta feminista pertence às mulheres.

Rever: Como você se define politicamente? Além do Pagufunk participar de alguma outra organização?

Lidi: Sou anarquista, feminista e me organizo respeitando as especificidades da América da Latina. Participo também do Coletivo Roque Pense! É uma organização de mulheres produtoras da periferia do RJ que discutem o sexismo dentro da cultura urbana. O feminismo consegue juntar funkeiras com as minas do rock pra desconstruir o machismo.

Rever: Qual sua visão do debate feminista feito (ou que deixa de ser) nesse período eleitoral? É possível ter esperança de melhorias nas políticas públicas para as mulheres?

Lidi: Vejo o avanço do discurso fundamentalista no período eleitoral e as pautas feministas sendo colocadas de lado, vivemos em uma cultura patriarcal e isso se reflete nas eleições. Diante do atual quadro é difícil ver mudanças políticas, mas é importante termos consciência que a mudança vem da base, e não das eleições, é necessário movimentos feministas organizados, se dialogando e pautando no cotidiano as demandas das mulheres.

Rever: Valesca Popozuda e outras mulheres se tornaram protagonistas no funk, um ambiente predominantemente masculino, e cantando músicas que muitos avaliam terem um potencial feminista. Como você enxerga essa participação feminina no funk?

Lidi: Cresci ouvindo funk, principalmente escutando as mulheres. Tati Quebra Barraco, Deize Tigrona, Mc Sabrina e tantas outras são referências na minha caminhada. Pra uma mulher pegar o microfone, subir no palco e cantar, em um ambiente extremamente masculino, é necessária muita coragem.

Já cheguei a ser agredida por homens verbalmente e fisicamente depois de cantar. O quanto foi importante crescer vendo funkeiras e mulheres do rap ocupando os palcos, falando sobre seus cotidianos. Agora, acho importante incentivar que mulheres ocupem a técnica, sejam operadoras de som, luz, DJs, produtoras, é necessário ocupar todos espaços desconstruindo a lógica machista, racista e capitalista e criar novas formas de se fazer cultura.

Rever: Recentemente você esteve em Aracaju (SE) participando do Sarau Debaixo. Como pintou esse convite?

Lidi: Encruzilhadas da vida! Há alguns meses ouvi o funk da Débora Arruda (uma das pessoas que constroem o sarau) começamos a conversar sobre mulheres na cultura e a importância da gente criar redes que nos fortaleçam. Entre conversas e planos, veio a oportunidade de cantar na atividade de 1 ano do Sarau Debaixo. Foi uma experiência incrível, me apaixonei pela resistência cultural de Sergipe, quero voltar mais vezes, aprender muito mais com minhas raízes.

Rever: Qual a sensação de ver que hoje você é uma referência para várias mulheres?

Lidi: Confesso que não consigo me enxergar como referência pra ninguém. Tenho muito que aprender na caminhada, o que falo/canto é o que construí coletivamente. Não quero ser vista como referência, mas como aprendiz. E tenho minhas referências, né. Por exemplo, a cantora Martinha do Coco, do Paranoá/DF, é minha mestre da cultura popular, parte do que sei aprendi com essa guerreira.  E a ReFem, uma rapper da Baixada Fluminense, é uma mulher que inspira meus versos e caminhada. O mundo precisa conhecer o grito de resistência delas e há tantas mulheres pra gente se inspirar!

Rever: E por fim, a missão está sendo cumprida?

Lidi: A cada dia tenho certeza que a missão está sendo cumprida!A resistência é por todas nós, em memória de Cláudia da Silva, Eloá, Dandara, por todas as irmãs que são assassinadas todos os dias por uma lógica machista, racista e capitalista. A missão está sendo cumprida por tantas, de várias formas e coletivamente. Somos muitas!

Um comentário sobre “Rever Entrevista: Lidi do Pagufunk

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s