Um muro e dois planetas

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Moradores da Aruanda erguem muro contra famílias sem-teto. Um único espaço garante a elas o acesso à rua: o buraco por onde a fossa é despejada

*por Priscila Viana

Os impactos causados pelo crescimento urbano desigual já não podem mais ser camuflados pelo discurso do “progresso inevitável”, tão alardeado pela mídia, por governos e pelas empresas de construção civil. Se, por um lado, a especulação imobiliária tem comandado a reorganização urbana, por outro, os processos de favelização, segregação e exclusão gritam. E por mais que muitos se finjam de surdos, elas gritam não só pelo direito a uma casa onde a família possa dormir. Mas principalmente pelo direito à cidade.

Essa é a luta de cerca de 1.200 famílias que há pouco mais de duas semanas ocuparam um terreno de cerca de 14 km2, pertencente à União, no bairro da Aruanda. A Ocupação Recanto das Mangabeiras José Luciano da Silva, como foi batizada pelos militantes do Movimento Organizado dos Trabalhadores Urbanos (MOTU), reflete o contraste do crescimento urbano em uma das maiores áreas de expansão de Aracaju. De um lado, barracos de lona, madeira e papelão erguidos ao redor de mangues e fossas. Do outro, condomínios fechados de casas e apartamentos, boa parte deles em processo de construção.

No entanto, a segregação territorial não é marcada apenas pelo muro invisível da exclusão. Na Aruanda, o muro que isola as famílias sem-teto do espaço urbano não só é visível, como é feito de tijolos. Os mesmos blocos que poderiam erguer o lar de tantas famílias é utilizado pela classe média urbana para reafirmar o apartheid socio-econômico que, simbolicamente, sempre existiu.

“Os próprios moradores fizeram esse muro porque espalharam que a gente estava fazendo assalto. E a polícia aparece aqui todos os dias, tá sempre fazendo ronda. A gente vem lutar por uma moradia, que é um direito nosso, e ainda é tratado que nem criminoso. Agora repare na fossa que eles jogam em cima da gente”, afirma o jovem Kian Kauã Lemos, enquanto leva a equipe da Revista Rever até o muro.

O esgoto e o lixo produzidos pela classe média que se recusa a dividir o espaço das ruas com as famílias sem-teto têm um destino: o próprio terreno da ocupação. Ao erguerem o muro, os moradores “se esqueceram” de um tijolo: aquele que serviria para impedir a passagem da fossa diretamente para a Ocupação Recanto das Mangabeiras. O mesmo espaço onde as crianças brincam e passeiam de pés descalços, já ausente de infraestrutura e saneamento básico. “Esse muro não lembra o apartheid do final dos anos 60 nos Estados Unidos, erguido entre os moradores do Brooklyn e os dos outros bairros?”, provoca Kian.

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Toda surdez será castigada

Chegamos próximo ao horário do almoço. Atrás de nós, uma senhora se aproximava com um saco de carne, doado por uma churrascaria localizada no município de São Cristóvão. Enquanto temperava a comida em um pequeno espaço disputado por uma cama e algumas prateleiras improvisadas de madeira, repletas de temperos naturais, ela conversava no mesmo ritmo com que amaciava a carne.

“Isso aqui é pra todo mundo. É só chegar e comer. Aqui a gente divide o trabalho e o alimento, porque a gente vive em comunidade. E viver em comunidade é cuidar de todo mundo”, ela explica assim que nos aproximamos. O prato do dia é fígado, assado em uma fogueira improvisada com restos de tijolos e em pouco tempo todos se revezam em poucos pratos, bandejas e tampas para comer.

Enquanto percorremos os barracos “protegidos” por lona preta e conversamos com as famílias, um carro da Polícia Militar se aproxima. Um dos policiais desce do carro e afirma que os moradores do bairro reclamam de invasões e furtos em suas residências e associam os atos aos moradores da ocupação. Perguntamos se há alguma queixa registrada ou boletim de ocorrência, e o policial titubeia. Mas responde: “Bom, não. Até agora não soubemos de nenhum registro. Acho que a maioria não presta queixa”. Um dos militantes do Motu tenta explicar que ali residem mais de mil famílias que não querem nada além de uma moradia.

A conversa parece amigável, mas não é necessário ser especialista em segurança pública para compreender a abordagem que, apesar de educada, tem como função intimidar. “Vocês estão fazendo algo de errado? Dizem que não. Se não estão, não precisam ter medo. Quem tem que ter medo da gente é o marginal que se esconde aí, o homem de bem não”, esbraveja o policial quando alguns representantes do movimento tentam conversar sobre a adoção de cautelas na realização das rondas, para não assustar as crianças.

Mas as famílias ocupadas não querem “apenas” uma casa. Elas reivindicam dignidade e qualidade de vida. “A gente não tá aqui pra sobreviver. Uma casa pra morar é central, mas também precisamos de creche, escola, posto de saúde, água encanada, energia, áreas de lazer. Nós vamos transformar isso aqui em uma comunidade. Nos próximos meses, iremos aos órgãos municipais tentar viabilizar essas questões. Nem coleta de lixo tem”, explica um dos moradores, enquanto andamos por uma ciclovia repleta de postes sem lâmpadas.

Passamos por uma criança cadeirante em um chão pantanoso, que segurava três bonecas enquanto seus olhos seguiam perdidos pelo espaço. A cada pedacinho de espaço percorrido, cobras penduradas, como prova da situação em que se encontrava o terreno ao ser capinado.

Mais de mil famílias sem moradia, sem água encanada, energia e serviços básicos de saúde, educação e saneamento. À sua frente, um muro erguido pelas “pessoas de bem” e suas fossas escorrendo entre os barracos daqueles que elas acusam de roubar suas casas. Dessa forma, deixam clara a demarcação social que rege o espaço urbano e o pertencimento destinado a cada um dos lados. Dois planetas separados por um muro: o do “cidadão de bem” e o dos que lutam por um pedaço de chão, um teto pra dormir, uma vida pelo menos digna.

9 comentários sobre “Um muro e dois planetas

  1. Amiga Priscila Viana. Lendo seu belíssimo e comovente texto me veio uma duvida. Na verdade me vieram varias duvidas:
    Em primeiro lugar, gostaria de saber o que a senhora quer dizer colocando aspas nas palavras CIDADAO DE BEM? Estas ao quais referem-se a nós moradores do conjunto Horto do Carvalho;
    Segundo. A senhora mora em condomínio fechado? Se sim então aconselho que converse com os condôminos e convença-os em derrubar o muro, pois como a senhora é uma solidaria “cidadã de bem” não se incomodaria dividir seu mundo com os demais moradores e transeuntes. Ou se incomodaria?; e
    Terceiro. A senhora procurou alguém do conjunto para o dialogo? Que eu saiba um bom jornalista ouve as duas partes e sendo assim cheguei a conclusão que sua pessoa quer aparecer sem poder.
    Se eu fosse a senhora me filiava e assumiria o comando do MST, sindicato, associação ou a algum movimento semelhante. Talvez a senhora teria mais sorte e apareceria na mídia televisiva, alavancando assim seu “ótimo” profissionalismo, mostrando sua imagem para que nós pudéssemos vê-la e saber de quem a senhora se trata, pois chamar pais de família de “cidadão de bem” (ironicamente usando aspas) criticando-os por detrás da tela de um computador é fácil.
    Profissionalmente só tenho a te desejar boa sorte senhora Priscila Viana!

  2. Bom dia

    Eu gostaria de saber se o autor ou autora dessa materia já teve sua casa arrombada , seus animais judiados, sua privacidade violada, se onde ela reside carroceiros passam em pe em suas carroças olhando para dentro de sua casa, se pessoas que se dizem de bem passam armadas de pistolas e escopetas em frente sua casa, e gostaria de saber pq um muro no final de uma rua que nao sai em lugar nenhum apenas em um matagal a imcomoda tanto, se alguem tiver o contato dessa pessoa por fafor me passe pois direi isso a ela pessoalmente.

  3. É meus amigos, nós não temos o direito de reclamar. Nós temos obrigações. Houve uma época em que sair para trabalhar era considerado luta, hoje invadir e esperar sentado por uma casa é uma batalha digna de glória.

  4. Pois é amigos. É fácil ouvir apenas um lado da historia e sair por aí postando fotos e relatos. Isso qualquer estudante no primeiro período de jornalista sabe fazer. Mas vamos lá.
    Eu moro neste bairro há 8 anos. Desde quando cheguei nesse lugar não presenciei avanço algum no que se refere a saneamento básico, educação, segurança…pelo poder publico.
    Aqui é um lugar esquecido pelos nossos gestores (tão esquecido que nestas eleições presenciei apenas 1 carreata de um politico oportunista).
    Sensacionalismo qualquer criança de 1 ano de idade sabe fazer quando quer ganhar algo.
    Então me explique uma coisa senhora jornalista: o que uma senhora com cerca de seus 50 anos de idade faz em me oferecer um apartamento no bairro 17 de março por 25.000,00 (vinte e cinco mil reais)? Será que essa mesma senhora esta inserida nesse grupo para querer ganhar outra casa paga com o meu, o seu, o nosso dinheiro?
    Me explique o que faz um carro avaliado em 30 mil reais dormir todas as noites na garagem de uma casa no bairro 17 de março. Será que veio de brinde junto com a casa? Pois meu carro vale apenas 15 mil e mesmo assim porque eu o financiei.
    Me explique como uma pessoa que morava em barracos “protegido por lona preta”, e em meio a passagem de esgoto conseguiu construir uma casa de andar totalmente reformada neste mesmo bairro (17 de março). Enquanto isso tento fazer apenas um quartinho decente para minha filha de 8 anos dormir e não consigo terminar.
    Pois é cara jornalista. Respeito muito seu trabalho, assim como respeito qualquer outro profissional, mas dessa maneira não tem como engolir calado seu protagonista texto.
    Não aceito que ninguém tire a liberdade de minha filha poder brincar na calçada de sua própria residência sem medo da possibilidade de chegar um estranho e ataca-la. Não estou citando que essas mesmas pessoas ferem minha segurança, nem que elas são as culpadas por isso ou aquilo outro, mas inibe-me de poder sair um dia e quando voltar no outro encontrar minha residência vazia (que é o que está acontecendo por aqui constantemente).
    Mas eles não estão errados. Se há quem dê, porque não pegar? O único problema está no descontrole! E essa má distribuição é o que faz com que esse câncer nunca se acabe. É igual a formigueiro.
    É cara jornalista, muito bom ouvir apenas um lado da moeda. Muito bom apontar e atirar sem ser atingido.
    “O assistencialismo irresponsável é o que trasnforma o povo em parasitas”!
    Passar bem minha cara!

  5. Em relação ao título “Um muro e dois planetas” da jornalista Priscila Viana, um fato que me faz pensar e que me chamou a atenção foi!!!! como se é dada a ocupação de terras e como se é conquistada esses terras em nosso país?
    Ocupar terras: pelo fato de não se ter onde morar é uma coisa, e ocupar pelo simples fato especulativo é outro. É sabido que muitos daqueles que orquestram ocupações, já de fato tem suas moradias, tem apoio de lideranças e grupos políticos, e que muitos desses quando ganham suas casas vendem e esperam que outros terrenos sejam invadidos e ocupados para poderem venderem de novo.
    O que nós queremos é simplesmente o direito de se ter segurança, pois não aguentamos mais com a insegurança, não aguentamos mais ver nossas casas serem saqueadas, e ficarmos refém e presos em nossas próprias casas, com muros, grades, cercas elétricas, câmaras, outros meios de comunicação e cachorros, pra se ter o mínimo paz.
    Realmente o título me faz pensar no significado de:
    Movimento Popular X Movimento Social
    O Movimento Popular é uma designação dada por seus próprios militantes, diferente do conceito de movimento social criado pela sociologia, o movimento popular é fruto das contradições sociais e econômicas do sistema capitalista,
    Em suma, o Movimento Popular é um sujeito coletivo oriundo das contradições econômicas do sistema capitalista e em confronto com esse sistema, é um movimento não institucionalizado e é formado pelas camadas pobres. O Movimento Popular não é um sujeito histórico fruto da estrutura econômica, mas fruto das condições subjetivas dessa estrutura.
    Movimento social é uma “expressão técnica” que designa a ação coletiva de setores da sociedade ou organizações sociais para defesa ou promoção, no âmbito das relações de classes, de certos objetivos ou interesses – tanto de transformação como de preservação da ordem estabelecida na sociedade.
    Esperamos que a jornalista Priscila Viana convide-nos a dar o nosso parecer, pois o que penso pode ser discutido, ao contrario do que ela pensa e escreve.
    Esperamos retorno.

  6. Palavras tão bonitas e bem elaboradas dignas de um filme triste e dramático!!!
    Contextos formulados por alguém que não imagina os transtornos vividos por esta comunidade…
    Esta comunidade entende que cada um tem o direito de lutar por suas moradias … por seus direitos… em momento algum fomos de encontro ao direito deles de lutar…
    O que muitos não sabem e que ha mais de 8 ANOS esta comunidade vive com o medo e o total descaso com o poder público… sem o mínimo de segurança… vivemos em nossas próprias prisões… com nossas casas cheias de grades.. cercas…cachorros… câmeras… Eu pergunto e os nossos direitos… cadê o direito dos meus filhos de poder brincar na porta a tardinha????? Para viver … para se socializar ??? Cade meus direitos quando dois meliantes invadiram minha casa com minha esposa grávida de 8 meses … nos levaram tudo….. e ainda passou 3 dias na UTI com meu filho com risco de morte????
    Mesmo assim… se o esgoto corre a céu aberto e porque a 8 anos a prefeitura não fez sua obrigação de liberar o residencial sem saneamento básico, quando e um direito constitucional nosso… que por interesses políticos foi liberado …. vivemos diariamente com o medo… não descriminamos ninguém… mas infelizmente muitos meliantes se aproveitam da situação para agirem e nos intimidar dia apos dia…
    Falar e muito bom…. vários podem idealizar o que bem entender…. más agir e procurar entender são pra poucos.

  7. Cara Priscila Viana, gostaria de dizer que não vejo problemas em escrever matérias de impacto e até entendo e respeito o direito de cada um expressar o que pensa. Mas você deveria agir com mais responsabilidade antes de usar um veiculo de informação para expor o que só um lado diz. A “classe menos favorecida” em questão faz questão de falar em alto e bom som que esta ali esperando um simples cadastro e que já tem onde morar. Sei que no meio existem familias que realmente precisam, mas isso não da o direito de ninguém invadir o que não e seu. Sera coincidência o aumento dos roubos e furtos a casas apos a ocupação? Estamos abertos a uma visita sua e tenha certeza que a receberem os de maneira tranquila, o que não da é haver essa inversão de valores, pessoas com pouca informação fazendo repercutir a subida de um muro mais do que a invasão de propriedade alheia. Reflita e aja com responsabilidade e imparcialmente. Grato

  8. Cara Jornalista, É realmente comovente a sua matéria, mas te convido a conhecer os integrantes dessa invasão. Por favor, sem papel e caneta,sem maquinas fotográficas,não venha vestida de jornalista.O que vai constatar é um grande grupo,que possuem moradia,e que nos conta tranquilamente que estão ali para conseguir mais uma casa. Sem esquecer que eles mesmo do grupo apontam quem são os bons e quem são os “barra pesada”.
    Quanto ao esgoto quero lhe dizer que tbm sofremos com a falta de saneamento básico a anos e suamos para manter nossas casas seguras, vivemos com a inseguranca, com o medo de sair de nossas casas. Nós não temos direitos? Não temos direito de manifestar mesmo através de muros? Sim, é um protesto.
    É justo assistir quietos pessoas fingindo miséria para ganhar um bem? Veja “ganhar” !
    Nós não somos ricos,somos trabalhadores ,que não invadimos o que não é nosso, pq temos que sustentar nossas famílias,pagar nossas casas,nossos impostos e ainda pagar por serviços que o setor público tem o dever de nos fornecer e não faz por incompetência. Não há saúde,educação,segurança… Não nos tranforme em monstros preconceituosos, venha conhecer o outro lado da nossa história,da nossa realidade.

  9. Em primeiro lugar: muitos moradores moram no bairro Santa Maria e saíram de suas casas pra tentar ganhar outra! Quem disse isso foi uma moradora do Santa Maria.
    Em segundo lugar: a fossa já existe a oito anos, por conta de moradores que se deram o direito de colocar o esgoto de suas casas para fora. Inclusive sou uma das prejudicadas, pois passa na minha porta! Quando eles decidiram montar barracos ali, esse esgoto com águas sujas já existia.
    Como jornalista vc deveria se preocupar em ouvir os dois lados da história.
    Desde que recebemos nossas casas, somos alvo de roubos! Saímos pra trabalhar e a rua fica deserta, muito fácil pra bandidos. Casas com fundo pro terreno baldio são alvos fáceis. Ela param carroças e como ninguém vê, levam tudo o que podem. A casa da minha frente foi uma delas. Até com uma privada já saíram de dentro de uma das casas.
    Pare de olhar as coisas de fora. Venda sua casa e venha morar aqui.
    Muito triste é um governo que não trabalha pra o povo. Que não agiliza as obras! Faz vista grossa pra tudo isso.
    E uma vergonha pessoas deixarem seus lares pra se sujeitarem a morar nessa imundice pra depois vender a casa que recebeu. Como foi com o bairro 17 de março. Palhaçada!

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