DUAS OU TRÊS COISAS QUE GOSTO NA MÚSICA DE BÁRBARA EUGENIA

barbara-eugenia-07

A música de Bárbara nos remete a situação a situação existencial concreta das novas gerações

por Romero Venâncio

“O verdadeiro presente retira sua felicidade da imaginação da felicidade do presenteado. Significa escolher, gastar tempo, sair do seu caminho, pensar o outro como sujeito: o contrário do esquecimento.” Th. Adorno. In: “Minima Moralia.

A história da música brasileira mais recente tem algumas peculiaridades interessantes: uma delas é a capacidade de se renovar quando parece que chegou ao mais abjeto lixo sonoro. Parece, só parece, que do nada aparecem verdadeiras pérolas musicais, composições impressionantes ou retomadas do passado com inovação sem igual… Como dizia Tom Zé numa entrevista perdida no tempo: o segredo da nossa inovação vem do passado, o futuro agente tropeça… Faço essa pequenina introdução para sugerir a forma como vejo e escuto a música da carioca (já paulistana) Bárbara Eugenia.

Primeiro. Uma retomada consciente do passado musical e sem preconceito, faz das interpretações de Bárbara Eugenia uma velha novidade. Claramente marcada pelo bolero (e mais na frente pela bossa nova) e por sua “filosofia de cantar as dores de amores”, a distinta coloca à disposição de uma nova geração aquilo que estava perdido no limbo do passado. Claro que ela faz pouca referência ao bolero, mas ele entra na forma e no estilo de cantar dela. A maneira como canta “as dores de amor” já é a prova cabal. Mas isto é pouco, muito pouco para a grandeza da novidade que é esta voz e performance.

Ela é desta geração contemporânea meio nerd, meio tola e vitimada por uma herança cultural de três décadas de neoliberalismo em cultura que foi devastadora em termos estéticos na nossa música. Muito lixo de “melosidade amorosa sem inteligência” ou porcaria mesmo de quinta categoria vendida em massa e ajustando-se ao figurino da decadência política acelerada (as campanhas políticas que o digam). Exatamente o contrário do que vemos e ouvimos nas versões ou composições originais de Bárbara. O amor e seus dramas estão presentes num frescor juvenil, numa liberdade ou numa busca intensa que nos faz refletir sobre como andam os afetos de uma geração contemporânea de si mesma e talvez nem saiba como vive.

A música de Bárbara nos remete a situação a situação existencial concreta das novas gerações. Há uma sensibilidade melódica imantada por uma letra inteligente, irônica muitas vezes e simples no entendimento geral. É o que vemos em “O peso dos erros”, quando diz: “… saber lidar com a vida e correr atrás…”. Em tão poucos palavras e num tom melancólico, Bárbara Eugenia capta um drama de geração em vários níveis (talvez seja até autobiográfico, vivido na pele… Mas pouco importa!) e trazido numa “simples canção”. A invocação do tempo “como um amigo precioso” é bem marcante em várias composições dela, a começar por “O tempo”.

Uma jovem com bastante maturidade para perceber essa mutação, suas dores e a necessidade trabalhar com isto permanentemente ou sofrer com ele inevitavelmente. Talvez isto advenha do trabalho da cantora: tradutora. A arte e a capacidade de verter de uma língua para outra um escrito, nos faz ter experiência com a vida já dizia Walter Benjamin nos seus ensaios sobre tradução. Uma hipótese que levanto por saber através de uma entrevista que o “ganha pão” atual da cantora é a tradução. Traduzir é sempre experimentar.

Segundo. O titulo de seu primeiro álbum: “É o que temos”. Termo aparentemente despretensioso e largado. Ledo engano. Segundo a distinta, vem de uma poesia claramente existência sobre a morte. Aqui ganha o peso do existir. Mais ou menos de cabeça, lembro-a: a vida é como portas fechadas que se abrem, até a porta final que é a morte… Simples, dura e certeira… Virou título do álbum primeiro e um indicativo dos rumos musicais da cantora. Apesar de parecer tão distante da sua geração, Bárbara vai no coração dela: uma geração que vive e dissimula cotidianamente essa condição de finitude e de percurso para a morte iminente.

Uma das características dessa geração quando se converte a algum grupo cristão, cai no mais ralo fundamentalismo tolo e guiado por padres ou pastores de um moralismo rancoroso e anacrônico sem igual. Sinto que a música de Bárbara Eugenia assume essas contradições da vida como “naturais” e necessárias de serem vividas sem desculpas ou subterfúgios, mas naquilo que são… Sobra-nos “O peso do mundo: o amor” como já dizia em verso Allen Ginsberg. Vejo um leve tom sartreano nas composições e interpretações dela. Como na música “Coração”, onde temos a “tudo, tudo a nossa volta, solidão…” essa vontade de agarrar a vida na sua singularidade e nos seus dramas fazem da música de Bárbara um sismógrafo existencial de uma geração e algumas pistas para entendermos o que significa ser jovem num Brasil como nosso e com as contradições latentes cada vez mais visível e cada vez mais nos deixando atônitos com tantas coisas vindas desse mundo juvenil.

Terceiro. De Tom Zé a Diana ou o contrário. Talvez não traga muita novidade nos trabalhos de Bárbara Eugenia ter gravado “Dor e dor” do Tom Zé que esta no álbum de 1972 “Se o caso é chorar”. Faz-nos ver um pé na vanguarda por parte dela. Tom Zé é o que tem de mais experimental em termos de música no Brasil. Aquele que pode ser chamado de “tropicalista de fato” e até hoje. Trata-se de um disco com sonorização ímpar que une vocalização, instrumentação, filosofia e poesia sobre as diversas apresentações da dor humana, tanto no aspecto social quanto amoroso.

Associando uma pitada de ironia, aborda temas regionais da capital de São Paulo e da cidade de Irará e na música em questão, temos um jogo de palavras ao estilo concretista em que o sentimento amoroso é a chave. Bárbara recupera esse jogo e amplia ainda mais para o elemento amoroso, facilitada pela sua inconfundível voz. Agora, a regravação mais interessante e marcante no primeiro trabalho de Bárbara é o clássico da cantora Diana: “Porque brigamos”. A música foi gravada e lançada em 1972, versão vertida para o português da clássica “I am i said” de Neil Diamond. A música passou para a história, pelo seu sucesso imediato, como uma música “brega”. Tocada muito nas rádios, nos motéis, cabarés, bares por todo país, deu imensa popularidade a cantora Diana. A gravação da Bárbara caiu como uma luva. A versão ficou moderna e ao mesmo tempo manteve o tom melancólico típico da versão original e realçou ainda mais a voz da cantora carioca. A letra é absolutamente simples e sem grandes inovações, mas o segredo tá na letra. Narra uma história de um impasse: uma mulher que já não consegui aguentar as brigas e sofrimentos com o amado e mesmo assim, não consegue deixa-lo. Este enredo capta bem um clima quase universal vivido por muitos amantes, o clima do impasse numa relação.

A voz de Bárbara Eugenia amplia isto ao máximo de lamento e num tom próprio da cantora, fazendo a música fica exatamente para a sua voz e nos passar esse sentimento de impasse de não poder ficar sofrendo, mas não poder ficar sem o amado. Atire a primeira pedra quem já não passou por isto numa relação? Na minha avaliação, Bárbara Eugenia vai se tornando uma das cantoras mais originais do cenário musical brasileiro do momento. Tem originalidade, sabe trabalhar com o passado musical nosso, tem uma voz marcante e é inteligente na forma de compor. Uma maravilha escutá-la.

Um comentário sobre “DUAS OU TRÊS COISAS QUE GOSTO NA MÚSICA DE BÁRBARA EUGENIA

  1. Muito oportuna essa matéria que nos mostra um certo alívio, pra quem gosta de uma boa música, provando que nem tudo está perdido ou seja, prestando um serviço de UMPB (UTILIDADE PARA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA). Irei ouvir.
    Obrigado Professor

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s