Benefits Street: o neoliberalismo nas nossas almas?

Benefits Street: drew 4.3 million viewers
Série-documentário de perfil reacionário investiga a vida de desempregados de Birmigham que sobrevivem com programas de assistência. Sua leitura diz muito sobre o Brasil.

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NOTA DA REVER

Registra-se a terceira onda de comentários racistas e xenófobos explodem nas redes sociais. Em todos eles, os alvos são os nordestinos, os algozes são paulistas e o período coincide com as eleições. Toda vez que o Partido dos Trabalhadores obtém um resultado eleitoral positivo a culpa do seu sucesso – para seus opositores, obviamente – recai sobre os beneficiários do programa Bolsa-Família. O texto que segue trata de uma situação com alguns aspectos em semelhança.

No caso inglês, tradicionais bairros da classe operária convivem com um grande contingente de desempregados, que sobrevivem de recursos oriundos de programas estatais. O objeto da série-documentário são eles e a reação de setores da classe média e da elite. No texto que segue o termo “benefits” será traduzido como “subsídios”, que num entendimento mais amplo significam os recursos oriundos de programas de garantia de renda básica para a sobrevivência, ou “programas de assistência”.

[I.S]
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*por Richard Seymour, no Lenin’s Tomb
*Tradução: Daniel Martins


“Em toda economia viva e real, cada agente é sempre um empreendedor.” – Ludwig von Mises.

O que acontece quando ‘empreendedores’ falham? O que acontece quando, por uma razão ou outra, eles persistentemente falham em aplicar seu ‘capital’ de forma a desenvolver fluxos de renda confiáveis? A primeira coisa que eles fazem é se retirar do “mercado”. Eles dependem de benefícios. E depois? Eu vou voltar a isso.

No início do primeiro episódio da primeira temporada de ‘Benefits Street’ (Rua dos Subsídios, em inglês), um informante local guia um camera man por uma rua aparentemente comum da classe trabalhadora em Birmingham, aponta para as fachadas das casas e identifica cada uma como “desempregados, desempregados… desempregados… desempregados…”. A rua inteira é basicamente um depósito para o exército de reserva da mão de obra local: algo que eu poderia imaginar que o conselho local compreende e para o qual tem planos. O programa não se chama ‘Rua do desemprego’; que ainda é, em grande parte, visto como um problema social. Ele se chama ‘Rua dos Subsídios’; que é cada vez mais visto como um estilo de vida e um ethos.

Há uma melancólica sensação de declínio associada a isso. O discurso em torno do programa é de que essa rua uma vez representou a ‘respeitável classe trabalhadora’, em oposição à ‘subclasse’ irresponsável que supostamente persiste hoje. Onde, em outros tempos, segundo dizem, orgulhosas famílias da classe trabalhadora eram esforçadas e obsessivamente honestas, fazendo o máximo possível com muito pouco e só aceitando benefícios como algo temporário, hoje, isso se tornou um ‘modo de vida’. Dormir no sofá, fumar cigarros, sentar na soleira da porta, beber cerveja na rua, gritar para os imigrantes, gritar com as esposas, gritar com as crianças – um ‘modo de vida’ completo. Isso é o que o programa visa capturar com interesse antropológico.

É claro que essa melancolia é parcialmente associada ao declínio do império, à perda da onipotência mundial associada a isso, e à consequente mudança na composição da metrópole. O narrador de ‘Rua dos Subsídios’ ressalta as muitas ‘nacionalidades’ na rua, sobre filmagens de diversos tons de pele e tipos de vestuário. Isso é claramente uma forma eufemística de dizer que o lugar é multirracial e, particularmente, que tem uma elevada proporção de migrantes recentes. Eventos subsequentes mostram rivalidades sérias entre ‘locais’ e ‘recém-chegados’. Não importa que ‘lado’ você assume aqui, já que as conotações são o que importa. Apenas conceber que a imigração seja parte dos motivos de declínio da Grã-Bretanha, pelo desenvolvimento de uma classe irrecuperável de eternos fracassados, é suficiente. Isso define o cenário. A conexão já está parcialmente estabelecida na mente das pessoas de qualquer modo; o ressentimento já borbulhando. A promessa recente de Cameron de retirar os benefícios das pessoas que não falam Inglês foi muito bem cronometrada e aproveitou a mesma onda de ressentimento.

Nem tudo sai do jeito da Direita nesse programa. ‘Televisão realidade’ não é realidade, é claro, mas tem que aspirar a algum grau de realismo se quiser ser convincente: personagens nus e crus, diálogo mundano, sotaques reais, sabedoria popular sem cortes, os dramas emergentes da monotonia e do cotidiano – está tudo nas convenções. É claro que o programa é desonesto: é entretenimento disfarçado de documentário. É claro que os personagens são enganados por omissão ou por outros meios. Mesmo assim, não é possível descrevê-los como golpistas donos de iates e morando em mansões. As pessoas da ‘Rua dos Subsídios’ são pobres. O abuso de mecanismos de fuga – bebidas, cigarros, antidepressivos e outras drogas – mostra que muitos deles são miseráveis. O casal acusado de fraude da previdência está, obviamente, lutando para aguentar até o fim do mês. Esses mitos reacionários, de uma realeza da previdência, coberta de ouro e rindo o caminho inteiro até o banco, caem no primeiro obstáculo da ‘realidade’, mesmo a televisiva. Ainda assim, como vou sugerir, isso não é incompatível com o mantra neoliberal.

Da mesma forma, o programa não é antipático com os seus objetos de estudo. De fato, é preciso um cuidado especial para desenvolver seus personagens de tal forma que, mesmo não sendo completamente honesto sobre eles, não os desumaniza completamente. Este fato tem sido citado em sua defesa pelos reacionários, que afirmam ter se sensibilizado com certos personagens. Mas não há nada de original ou surpreendente nisso. O discurso dominante da Direita neoliberal é a pseudo-simpática frase: ‘temos que ajudar essas pessoas a se ajudarem’ [algo como: ‘não dê o peixe, ensine a pescar’, em sua versão inglesa]. A conclusão final e absurda disso é a afirmação de Iain Duncan Smith, em um discurso que faz referência a ‘Rua dos Subsídios’, que os seus cortes na previdência o colocam na tradição abolicionista. O outro lado dessa agressão ‘piedosa’, é claro, é a demanda pela erradicação eugênica da subclasse: criar licenças de reprodução, como os sábios do Twitter sugeriram, e fazê-los provar que são cidadãos aptos antes de começarem a poluir os espaços com a sua prole. Isso não tem necessariamente nada a ver com ideologia biogenética, embora o ressurgimento desta nos últimos anos seja instrutivo; é suficiente que as pessoas acreditem que ‘sanguessugas preguiçosos e irresponsáveis’ vão criar filhos sem educação, sem moral, passando assim seu ‘modo de vida’ de uma geração para a próxima.

Então, isso me traz de volta à questão do que vem depois de as pessoas se retirarem do ‘mercado’ e dependerem de benefícios. O conceito neoliberal de ‘mercado’ é muito diferente do que o do liberalismo clássico. Não é um mecanismo autorregulado que tende ao equilíbrio, desde que o Estado não distorça as tabelas de preços. É um mecanismo educativo, ele ensina como governar a si mesmo. Sabemos que os neoliberais consideram o ‘mercado’ uma ordem extraordinariamente eficiente e espontânea, e que a sua suposta eficiência tem a ver com a sua capacidade de reconstituir automaticamente milhões e milhões de fragmentos dispersos de conhecimento sobre desejos e vontades e comunicá-las em mecanismos de preços simples, que permitem a melhor alocação de recursos. Há uma certa retórica pseudo-democrática da escolha popular para isso – parem de tentar dizer às pessoas o que eles deveriam querer, com suas instituições e leis paternalistas; deixe os empresários inteligentes lhes dar o que eles realmente querem. Mas, na verdade, o mais importante é o processo de aprendizado. É através do desenvolvimento de planos de ação, fazendo escolhas, alocando recursos, e assim por diante, que ‘empreendedores’ – e lembre-se, não há nenhum agente que não seja um ‘empreendedor’ – aprendem a se comportar de forma racional. Porque o mercado pune a irracionalidade. ‘O mercado’ é uma escola de autogoverno, e é somente pela imersão constante em situações de mercado, o mais amplamente possível, que os agentes se tornam eficientes em governar a si mesmos. Nesse sentido, ‘o mercado’ constrói a si mesmo.

Essa é a teoria, pelo menos. De acordo com este ponto de vista, então, se você tirar as pessoas do ‘mercado’, eles perdem contato com o processo educativo. Eles perdem o sentido de ‘espírito empreendedor’, de farejar uma oportunidade, de aplicar os seus recursos, suas informações, suas habilidades para o trabalho, a fim de arrebatar um prêmio antes que alguém o faça. Eles perdem o capital físico e mental, a adequação, as habilidades, a aptidão para o ‘empreendimento’. Isso é a ‘dependência da previdência’. Isso é o que Iain Duncan Smith caracterizou como um estado de ‘escravidão’; ironicamente, e inteiramente lógico para a perspectiva neoliberal, a cura para esta ‘escravidão’ é para obrigar as pessoas a trabalhar de graça. Isso não é apenas sobre economizar dinheiro e nem sobre o ‘livre mercado’. ‘O mercado’ pode ser a solução final, mas os neoliberais sabem que é necessário um Estado forte para garantir o domínio do ‘mercado’ (você pode considerar as recentes prisões por posse de drogas na Rua James Turley como uma ilustração dramática desse princípio). É, em grau significativo, sobre a formação do sujeito. Ou, em um idioma diferente, a produção de almas.

Nesse sentido, a continuação perfeita para ‘Rua dos Subsídios’, que eu não estou totalmente convencido de que não veremos, seria ‘Rua em Reforma’, em que uma equipe de economistas comportamentais, terapeutas, consultores financeiros e de carreira, maquiadores, cirurgiões plásticos e nutricionistas passam um ano na rua e tentam transformar seus cidadãos desorientados em ‘empreendedores’ dinâmicos e glamourosos. A série terminaria com um demorado conjunto de fotos de antes e depois, mostrando o sucesso do auto-aperfeiçoamento neoliberal. E a cena final seria simplesmente da rua redimida e todo o seu elenco de personagens em trajes de negócios, cada um levantando uma taça de champanhe para a câmera. Grandes sorrisos. Fazendo da Grã-Bretanha e de Iain Duncan Smith orgulhosos.

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