A (des)informação a serviço da (des)humanidade

ebola

Imprensa brasileira dissemina pânico em torno do ebola e coloca imigrantes em situação de terror e hostilidade

*por Priscila Viana

No último dia 9 de outubro, o guineense Souleymane Bah deu entrada em uma Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do município de Cascavel, no Paraná, após sentir febre. Recém-chegado ao Brasil com mais dois compatriotas e tendo acabado de se instalar no albergue André Luiz, junto com outros imigrantes, Bah foi imediatamente isolado com suspeita de ebola. No dia seguinte, foi levado para o Rio de Janeiro em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) e encaminhado ao Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, ligado à Fiocruz, para a realização de exames.

A medida de emergência, que nem de longe se reflete em uma preocupação com a saúde e a integridade do imigrante, em muito contrasta com o atendimento habitual do qual necessita boa parte dos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Antes mesmo da divulgação dos resultados dos exames a que Bah fora submetido, seu nome e a imagem de seu rosto já haviam sido escancarados em praticamente todos os veículos de comunicação de alcance nacional.

Antes mesmo da divulgação de qualquer informação oficial acerca do estado de saúde de Souleymane, seus companheiros de albergue já passaram a sofrer com a hostilidade de um povo que, ironicamente, é conhecido como “hospitaleiro” nos territórios para além do Oceano Atlântico. De acordo com reportagem publicada pelo Estadão no último dia 13 de outubro, 11 imigrantes moram atualmente no albergue onde Bah estava hospedado, alguns deles oriundos de países como Burkina Faso e Haiti, territórios onde a presença do vírus do ebola sequer fora confirmada.

Ainda segundo o Estadão, todos eles passaram a ter a febre monitorada diariamente e agora são apontados na rua como “os caras que vêm ao Brasil trazer doenças”. Em entrevista ao periódico, paranaenses negam ter conduta discriminatória e alegam estar preocupados tão somente com o risco de contágio – de uma doença que, ao contrário da já trivial gripe, sequer é transmitida pelo ar.

O ciclo midiático do pânico

Após ter sua identidade, privacidade e integridade devassadas pela imprensa brasileira e por um povo “hospitaleiro”, Souleymane Bah foi submetido a dois testes que, realizados segundo os padrões da Organização Mundial da Saúde (OMS), resultaram em negativo. Mas agora, Bah, da mesma forma que todos os outros imigrantes que tiveram contato com ele e que entraram legalmente no Brasil como refugiados, não conseguem um emprego e não andam nas ruas sem serem hostilizados.

Pouco antes da saga a que foram submetidos os imigrantes do albergue André Luiz, após a constatação de um simples sintoma como a febre de Bah, no início de agosto, a imprensa maranhense havia “noticiado” a internação de um nigeriano com suspeita de ebola no Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão (HU/UFMA). Mesmo com a negativa do próprio hospital, o boato se disseminou, principalmente em redes sociais pela própria população.

Na mesma semana, a imprensa pernambucana também divulgou a internação de um imigrante angolano no Real Hospital Português de Recife. Da mesma forma, o hospital negou qualquer internação com suspeita de ebola, informação divulgada pelo Diário de Pernambuco.

Ainda na mesma semana, como em um efeito-dominó, o boato de que um imigrante da África do Sul teria sido internado no Hospital de Urgência de Sergipe (Huse) se transformou em “notícia”. Aqui, chama a atenção o fato de que, mesmo após a divulgação de informação oficial que negava qualquer possibilidade de contaminação do paciente pelo vírus após avaliação de infectologista, o “caso” fora “noticiado” como o do “Africano suspeito de contaminação pelo vírus ebola”.

O que todos esses casos de repercussão midiática têm em comum é a disseminação do pânico como recurso de garantia de audiência. A venda da desinformação como ponto de partida para cristalizar ainda mais o preconceito arraigado que coloca todo e qualquer africano na posição de um eterno disseminador de epidemias em potencial. Estigma que se estende ainda a imigrantes que não vêm de nenhum país africano, como o Haiti, mas que são negros.

Em recente artigo intitulado “O vírus letal da xenofobia”, a jornalista Eliane Brum destaca de maneira brilhante que todos esses exames que, cientificamente disseram “não” para o ebola, confirmaram um simbólico “sim” para uma epidemia sobre a qual se arrastam as relações sociais brasileiras: a do racismo. Enquanto os africanos podiam servir de escravos em um passado recente e enquanto os seus descendentes diretos servirem para ocupar as fileiras dos trabalhos mais precários e com os salários mais baixos na recente configuração trabalhista brasileira, o país segue.

Não importa se a população de países como Guiné, Libéria, Nigéria, Senegal e Serra Leoa está sendo dizimada. Não importa se esses mesmos países, historicamente saqueados pelas potências europeias, não têm recursos para enriquecer ainda mais a indústria farmacêutica em busca de uma solução para evitar que sua população continue morrendo. Para a opinião pública ocidental, o grande problema do ebola, descoberto há quase 40 anos, é evitar que ele ultrapasse as fronteiras da África.

O clima anti-imigração já começa a se disseminar em vários países e populações diversas defendem que seus territórios fechem as portas para imigrantes negros, numa onda de xenofobia sem precedentes. A conduta de uma opinião pública guiada por uma imprensa sensacionalista que depende do ciclo de pânico e terror para sobreviver é bem sintomática de uma sociedade que sofre de uma histórica epidemia, muito bem caracterizada por Eliane Brum como “uma peste que não está fora, mas dentro de nós”: a herança escravocrata jamais superada.

*Priscila Viana é jornalista e mestranda em Antropologia Social

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