As eleições são um mau agouro

corkydebate420aa
“Todo o processo eleitoral, das confabulações internas dos partidos até o dia do voto, é como uma expiação à qual estamos submetidos para pagar os pecados que cometemos ao sermos comuns, perigosamente conformados, indiferentes à política”

*por André de Souza

Antes de mais, esse é um texto que deveria ser póstumo. Que deveria se seguir à (re)morte da política (re)assassinada ao fim das eleições, depois de ser torturada e dilacerada pela mídia, pelos candidatos, pelos agentes anônimos que trabalham para manter o teatro funcionando, e, é claro, por nós mesmos. Mas não, é necessário publicá-lo antes que a política torne a morrer mais uma vez, só para dizer: nós avisamos.

Eu sei que existe por aí uma legião de suspeitos, de inconformados, de negadores do espetáculo que são as eleições. Legião que dorme exausta sob o sol fervente que se abate sobre a calmaria da trégua interessada somente ao status quo, com seus títeres perigosamente adaptados ao teatro infame de segunda categoria que é a NOSSA política.

Arre! Legião cansada pela descrença, desmembrada pela impossibilidade de se colocar, eu espero que vocês estejam atentos e se reconheçam aqui, pois são para vocês que eu escrevo, é a vocês que eu quero chegar, como a água chega torrencialmente fora dos limites da margem no transbordo do rio, como o raio desce da tormenta e parte uma árvore na sua busca pelo calor do centro da Terra, como um canário rasga sua garganta tentando encontrar uma parceira que possa transferir seu canto aos seus progenitores.

As eleições são um MAU AUGORO. Todo o processo eleitoral, das confabulações internas dos partidos até o dia do voto, é como uma expiação à qual estamos submetidos para pagar os pecados que cometemos ao sermos comuns, perigosamente conformados, indiferentes à política.

Essa expiação é consequência direta do pecado político original atentado por gente como Hannah Arendt ou Foucault: a morte da vida pública grega e a subsequente condenação da política por toda a tradição da filosofia, de Platão a Marx: transformando a política em uma jaula que nos prende à subsistência de nossos corpos: todo o corpo político se transformou numa grande administração que pretende nos controlar para nos garantir o mínimo para uma subsistência medíocre: enquanto a maioria carrega o mundo nas costas, uma minoria esbanja mergulhados numa gordura transmutada da carne e do suor da maioria.

A diferença entre esse pecado e aquele de nossa querida avó ancestral, além de terem sido seres masculinos que o cometeram, é que a salvação não está fora do mundo, está dentro dele, e diz respeito a todos nós. Para esse pecado não precisaremos de um Messias, mas talvez precisemos de uma BOA NOVA POLÍTICA do tamanho de um meteoro gestado nos confins de alguma maravilhosa nebulosa.

Há uma atitude geral inconscientemente (mas nem sempre) perversa no fato das eleições. Nessa época, ela emerge parcialmente, oferecendo-nos à vista seu breve espetáculo doentio. Ela tem relação com o saber generalizado mais ou menos consciente de que a política é marcada por chagas que, de tão velhas, estão podres, infestadas por vermes que já viviam na maçã primordial. Essa atitude se mostra ao sorrirmos ironicamente com o canto da boca quando ouvimos sobre o candidato do outro, mas não o nosso. Se mostra quando combatemos fervorosamente pelo que nem sentimos que nos diz respeito. Se mostra na ignorância sabida e sentida e mesmo assim ignorada dos detalhes e fundilhos da vida política.

A dicotomia de toda eleição, as personas que combatem, seja Dilma e Aécio ou qualquer outra dupla, é nela que se encarna a auto-perversão incrustada na barriga de cada um: nos odiamos temporariamente segundo esse signo para preencher o tempo de qual somos vítima, e logo que o esquecemos na clausura de nossa vida íntima, buscamos outras dicotomias para que não encontremos face à face o vazio. Elegemos e combatemos a favor de uma persona ou de um partido que, de acordo com nossa imaginação desprovida de realidade, supre nossos interesses, assim como um filme da Temperatura Máxima é visto com um único interesse: o de dormir. Elegemos respondendo à dinâmica do esquecimento, elegemos porque esquecemos de nós mesmos no dia da eleição: é a auto-alienação do voto.

As eleições são um mau agouro porque anunciam um desastre por vir: a completa imbecilização a partir da extrema individualização do humano, prenunciando a catástrofe a nível mundial perpetrada pela GRANDE MAIORIA de nós: falta de água, de comida, de energia, populações inteiras se deslocando em busca de subsistência, etc. (na verdade tudo isso já acontece, mas vai acontecer mais ainda). E vai acontecer porque nossas relações com a política fazem parte de uma mais abrangente relação existencial que estabelecemos com o mundo fora de nós: nossa existência é vazia como um dente mortificado por um canal, pois somos viciados na efemeridade de nosso próprio ego, no consumo, na aniquilação. Treinados para consumir o que quer que seja, o fazemos bem: consumimos a nós mesmos como um estômago que não se alimenta do que está fora dele e acaba por devorar-se. É por isso que não nos importamos com o que pode acontecer com o mundo dos nossos netos e bisnetos, e é por isso que desistimos mesmo antes de tentar.

Já estamos preparados para o esquecimento. Já estamos pré-parados diante de um tema que irá desaparecer em poucos meses, substituído pela final do campeonato brasileiro e pelas mais novas pseudo-polêmicas perpetradas pela máquina de fazer de nossas massas cinzentas SORVETE que é a mídia.

E aposto que você não tem nada a ver com isso. Claro, o problema é do Governo.

*André de Souza, indignado.

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s