Sílvio Campos (Karne Krua) – Parte II: “Cara, nossa banda não é de hit de rádio”

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“Nunca criei expectativa de estourar nacionalmente, minha música não é de consumo, não vai tocar nas rádios grandes” 

*por A Mosca

Parte I: “Sentimos tudo na carne”

Nesta segunda parte, Sílvio Campos abre o jogo sobre cena alternativa, das produções e produtores, sobre público fiel e a “cultura da porta”, editais e políticas culturais. E adianta os próximos passos da Karne Krua, Máquina Blues e outros projetos. Confiram.

A Mosca: Aqui em Sergipe se fala muito em cena alternativa, se tem ou não tem… Conte-nos um pouco mais.

Sílvio Campos: Às vezes eu falo, mas tenho cuidado de falar. Porque todo mundo entende cena que é tá abraçado com o Seu Montanha, com o cara da Nantes. Nada contra. Eu apenas conheço. Outras bandas se distanciaram dessa questão da origem do rock em Aracaju. Não vem aqui na loja, ou em outra loja. Não vejo os discos. É bem diferente. Se eu falar de cena, vou falar do que vivo. Das bandas de punk, do trash metal por exemplo. Existe cena, em todo lugar tem um amontoado de pessoas fazendo alguma coisa. Seja no teatro ou na música.  O que acontece é que algumas se identificam mais com um tipo de arte, de som. Uma banda punk se junta à outra banda punk, e por aí vai.  As bandas começam a somar forças. E aqui em Aracaju já tem várias bandas que eu não conheço. Hoje, temos um projeto em Aracaju muito bom chamado Zons, que faz este trabalho de documentar, com qualidade, isso pra mim também é cena. Então cena é o conjunto de várias coisas que rolam na cidade, não dá para limitar, mesmo sabendo que algumas bandas vão procurar suas afinidades.

AM: Já se discutiu muito nas redes sociais entre o público, artistas, de que em Aracaju já teve mais shows, outros acham que hoje tem mais qualidade…

SC: Então eu não concordo não (que antigamente era melhor) sempre existiu pessoas querendo fazer alguma coisa. Mas hoje tem mais gente fazendo e documentando. Seria idiotice dizer que antes era melhor porque vim do começo. As coisas eram muito difíceis. Eu lembro da primeira vez que botamos iluminação em um show: “Caralho tem luz no show”. Com diz o ditado “Não colocar o carro na frente dos bois”. Eu mesmo sempre fui pé no chão. Nunca criei expectativa de estourar nacionalmente, minha música não é de consumo, não vai tocar nas rádios grandes. Agora quem monta banda, a galera do teatro e do audiovisual sabe que as coisas são difíceis.

AM: Você acha que o artista em Aracaju sofre mais?

SC: Eu não sei, eu sei que quando se faz porque você gosta é o elementar pra mim. Agora se quiser um campo maior pra trabalhar, você tem que ir buscar. Eu poderia transferir a Karne Krua pro Rio de Janeiro, mas não tive interesse. Se eu tiver que sair pra tocar, eu vou, mas volto pra cá. Eu sou um dos caras que ficou pra “acender a luz”. Eu e outros. Agora se a pessoa acha que tá pequeno, tem que ir buscar outro lugar. Não adianta ficar aqui dizendo que é o “cú do mundo”. Isso não me diz nada.

AM: E por que você acha que os festivais aqui perderam o fôlego:  Punka, Rock-Se, Rock Sertão entre outros. É da própria dificuldade de ser alternativo ou tem outras particularidades?

SC: Tem várias coisas. O produtor é um artista que também faz parte do processo. Eu acho que tem passar por essas dificuldades. Tipo se a Karne Krua não tivesse passado por essas dificuldades talvez já tivesse acabado. Pra mim vale mais tá vivo até hoje, do que ter feito um monte de coisa nos anos 80. Falta produtores que queiram produzir. Produtor, não é só o cara que ganhar dinheiro com isso. Ele tem que ter suporte. Porque você pode perder em um e ganhar em outro. Se alguém faz uma produção e não consegue levar capital pro evento, é um problema dele como produtor. Porque se eu tenho uma banda e não consigo gravar um demo, é melhor acabar. Não estou falando que para ser produtor tem que ter poder aquisitivo, para bancar show, mas ele tem que buscar recursos pro evento. Muita gente me chama pra tocar em eventos grandes e diz assim “pow cara o evento tá assim, a grana tá pouca”. Aí a banda toca de graça, mas o cara do som ganha, o cara da bilheteria ganha, a segurança ganha. Isso é justo? O produtor tem que ter o evento pago. Não é fazer bilheteria para pagar a banda. Que foi o que mais aconteceu aqui em Aracaju. Fiquei muitas vezes sem receber por que era amigo, brother, porque deixou pra depois e nunca veio. E todo cachê por mais simbólico que seja, a gente usa pra banda. Foi 400 reais. Vamos gravar um demo. Porque nenhum estúdio liga pra mim: “Silvio venha tocar aqui, vai ser tudo de graça”. Quando se trata de produção, você tem que fazer o evento pago. Porque deixa pra tirar na bilheteria, aí não rola, criasse uma bola de neve. Aí faz outro evento pra pagar aquele que não deu certo. Por mais que o evento seja legal. Eu produzir algumas coisas, mas com tudo pago. Quem foi viu. O que não aconteceu com muita gente por aí, que esperava grandes bilheterias e aí fica o rombo na história. Esses grandes festivais, eles já entram com tudo pago. Vários patrocinadores tão ali bancando. Faça chuva ou sol. Quê dê publico ou não. Esse é um dos problemas, essa dependência da bilheteria e dependência do patrocinador. E se a banda x ou y não tá ganhando, alguém tá.

AM: E a Karne Krua mudou a postura?

SC: É natural que a banda peça alguma coisa, mas não deixamos de tocar com caixa amplificada na rua. Tudo depende do evento. As vezes o produtor vem aqui e pergunto “quem tá fazendo?”, “a aparelhagem tá paga?”, e as vezes ele diz que não tem nada. Eu aconselho, “não entre assim que vai da merda”. Procure patrocínio pra pagar o som e depois outro pra pagar as bandas. E pagar as bandas não é cachê milionário. A Karne Krua já tocou por cachê de 500 reais, que a gente considera simbólico. E o que a gente dá em troca é um show que o cara diz ” porra foi bem pago”. Eu me lembro de uma situação do Punka, quando ainda era um evento pequeno, que eles determinaram um cachê de 300, ao fim do show eles deram R$ 450, dizendo que o show tinha sido massa, que tinham tudo pago. O evento era menor. Quando cresceu deu problemas. Talvez a produção tivesse que ter esperado mais um pouco pra dá um passo maior. Enfim, não sei se foi isso. Mas eventos que geralmente não dão certo são porque não tá pago. Eventos que eu não recebi, não tava pago. Você encontra o cara do som, e ele diz que só recebeu metade, ai outro diz que recebeu um cheque pré-datado. Tá tudo errado isso. Teve um evento com The Baggios, Mamutes, Naurêa que o cara amigo meu veio aqui “vou pagar vocês antes do show”, toda semana vinha aqui e dizia isso, e acreditamos até a última instância e ele não pagou. Depois ele veio me dizer que ele fez o evento pra pagar uma dívida dele. Eu disse não se faz show pra pagar divida. Faça pra ganhar porque se você não ganhar você empata, porque se você fizer para empatar você pode perder. Teve que vender carro e tal. A gente só recebeu uma parte, outras receberam tudo. Mas ele agiu errado.

AM: Vocês receberam muitos convites para tocar em São Paulo?

SC: Recebemos convites até para tocar na Argentina, países vizinhos. Eu não acho ruim, mas a maioria das bandas undergrounds gastam para fazer essas viagens. Uma banda como The Renegades of Punk, botou dinheiro do próprio bolso para ir para Europa. Várias bandas de São Paulo, não um Ratos de Porão que tem um nome mundial, mas muitas vão com a sacola nas costas, gastando a sua própria grana. A não ser quando a banda recebe uma grana de prefeitura, do governo, conheço bandas do Rio e São Paulo que foram assim. Teve banda que conseguiu através de edital. Eu não vejo muito sentido pra mim que sou autônomo, pros outros caras que trabalham. Fomos tocar em um festival em Brasília que não ganhamos, mas também não gastamos. Agora, acho atitude da The Renegades of Punk do caralho. Mas, hoje estou mais focado na produção interna da banda. Fazer um caixa para produzir material, camisetas, e depois disso organizar pra uma viagem. Agora tem muitos convites que são roubadas. Pedimos passagem e hospedagem e o cara diz que não tem. Eu tenho preferido tocar em coisas mais seguras.

AM: Vocês têm usado a internet e as redes sociais?

SC: Sim e tem sido muito bom pra banda. Pra divulgar a banda, a gente tem até renovado o publico. O público vai pro nosso show e só pede a nossas músicas. E a gente tem visto um público jovem. E na rede tem muito material nosso. Já teve integrante da banda que queria que a gente estourasse, que fosse um Raimundos. Eu disse “cara, nossa banda não é de hit de rádio” as nossas músicas são agressivas, brutais, e do gueto. Nós temos um público que tem uma postura radical com o sistema. Então estamos bem no ritmo da gente.

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Primeira formação da Karne Krua com:Tony Almada, Vicente Coda, Silvio e Marcelo Gaspar (Foto: Divulgação no Facebook da Banda)

AM: A banda já teve um disco gravado com apoio da Lei Municipal de Incentivo a Cultura, como vocês enxergam hoje as políticas culturais e os editais?

SC: Eu acho que é um direito nosso. Agora eu não suportaria passar o que o Wendell e o Max passaram pra consegui na época do Em Carne Viva. Era tanta burocracia, descaso, mesquinharia. Eu tinha mandado todo mundo se fuder. Eu agradeço demais a eles, porque eles que correram atrás. Se alguém da banda quiser fazer, ou algum produtor quiser fazer tudo bem, mas eu não tenho paciência. Tive muitas brigas na época por conta desse disco, que era um disco chapa-branca e tal. Muita gente não enxergou que aquilo era um direito nosso. E depois disso não me interessei mais. Então temos feito as coisas que podemos fazer. Eu sou de um tempo que as pessoas eram convidadas pelo seu trabalho, se está produzindo. Tem gente ganhando dinheiro com grupos que não existem, que não tem feito nada. Então nem sempre é justo. Tinha que ser mais lógico e mais direto. O apoio, o incentivo ele tem que existir, mas precisa ser melhor distribuído e de forma mais clara. O metal em Aracaju por exemplo é desconhecido desses órgãos. A Karne Krua não tem chances, imagine uma banda de doom-metal.

AM: Já falamos de produtores, das bandas, de edital, agora vamos falar do público. Aqui em Aracaju dizem que o público não valoriza, tem a “Cultura de porta”, que o preferem cover. Você acha que o público já acompanhou mais, ou não?

SC: Hoje de uma forma geral, temos muitas coisas. Muitas bandas, das mais variadas vertentes. Então se escolhe mais. Seja mais underground ou menos underground. Não temos grandes festivais, nem grande banda vindo com frequência, apenas nesses eventos do governo e prefeitura. Mas na chamada cena independente tem acontecido várias coisas pequenas e isso deixa o público meio preguiçoso, escolhendo mais. Das últimas vezes que eu toquei com a Máquina Blues por exemplo, ninguém ficou na porta. As vezes o que acontece é que a banda se expõe muito, toca em evento gratuitos e rola um certo desgaste. Não deveria ser assim, porque se toca muito é porque tem público. A Karne Krua por exemplo tem um público fiel. Eu não me preocupo tanto enquanto banda, mas claro que, pensando como produtor, gera uma preocupação se o público não entra. Por isso que eu digo que o evento tem que estar pago. Agora a produção tem que funcionar. Porque se for bom, mesmo com poucas pessoas, vão sair dizendo “porra aquele dia foi foda“. Isso cria uma expectativa de quem não foi em ir no próximo. Mais se a produção for capenga cansa o público. Tipo o show tá marcado pra 22h, então 22h20 tem que tá tocando. Ai dá meia noite e não começou. Isso cansa o público. Agora claro, tem essa cultura horrível de ficar na porta. Isso não ajuda em nada. Não existe cena ou se cresce algum tipo de movimentação se as pessoas não valorizam, não participam. Já discutir com gente na porta, já mandei ir pra casa, porque na porta ela não tá agregando nada. Quando não tenta burlar a segurança, pular o muro. Enfim tem uma parte do público que tá mal acostumado, mas tem a parcela de culpa também de quem produz que as vezes não se organiza. Tem que ter a valorização do público e um melhoramento das produções.

AM: Como foi lidar com uma vida underground, de música, loja com o casamento, filhos, família? Em algum momento você pensou em largar o underground?

SC: Meu casamento foi muito atrelado com a vida que eu tenho hoje. Então os problemas de casa as vezes se misturava com os problemas da banda, da loja e se tornavam uma coisa só. Houve uma época que eu botava grana do meu outro emprego na loja. E hoje meu outro trampo foi por água a baixo, que é venda de livro e, o que me salvou foi a loja. Hoje vivo da loja. E tudo é muito ligado a minha família. Com todas as dificuldades eu vou resistindo. Antes eu só tinha loja em galeria, só ía os interessados. Só que esses interessados diziam assim “pow passei na porta da sua loja, mas deu preguiça de entrar”. Então tive a ideia de botar a loja voltada pra rua. E aí rola aquela propaganda natural. A vovó que passa e compra uma camisa pra neta.

AM: Como é feito a produção das letras? Você faz sozinho?

SC: Bom na Karne Krua, como a gente teve várias formações, sempre que entrava um integrante novo eu dizia “olhe aqui ninguém fica sem fazer nada não” Claro que tem aqueles que tem mais facilidade de fazer a melodia do que escrever. Mas sempre deixei a banda aberta pra quem chegava pra colocar suas letras. Até mesmo para pessoas de fora. Hoje o Alexandre Gandhi tem sido um cara que tem produzido muitas letras, o novo disco vem com muitas músicas dele. As vezes ele dá uma lapidada nas coisas que eu escrevo. Na hora de fazer a música, os arranjos a banda toda participa. O importante mesmo é preservação  do contexto das letras com as ideias da banda. Temos cuidado ao escrever para não ter erros de interpretação.

AM: E a Máquina Blues como surgiu?

SC: No começo fui até criticado por ter uma banda de blues. Tipo “Silvio canta blues?”. Como se fazer um estilo de música, não pudesse fazer outro. Sendo que a música está tão entrelaçada, tem artista de jazz curtido grindcore. Nos primórdios da Karne Krua tinha uma música que era puxado para o blues, chamada “Violência”. Eu não cantava e era declamado. E era bem performático e tão. E o blues sempre esteve presente na minha formação. Aí juntei algumas pessoas pra tocar, fazer alguns. Mas ficou só nos ensaios. Depois montei outra banda que chegou a tocar em bares, em salvador com Robson Macaxeira e com Wendell que depois iria pra Karne Krua. Era de blues acústico. Em 2002  estava a fim de montar uma banda de blues e montei a Máquina Blues e estamos aqui até hoje. Cheguei a fazer um fanzine sobre o blues, tinha gente que não sabia que som era aquele. Uma das minhas influências vocais é Celso Blues Boy. Levo isso tanto pra Karne como para a Máquina.

AM: Você tá com quantas bandas hoje?

SC: Sete bandas e mais o projeto Sartana que não ensaia. Chega e toca. O nome vem de um justiceiro do Western, tá vendo ai, vem da infância. A mesma formação da Word’s Guerilla e fazer um som experimental, sem ensaiar e tocar de acordo com os temas que tivesse.

AM: O que mudou do Silvio que saiu de Aquidabã e o Silvio de hoje?

SC: Pra falar a verdade, sem muita modéstia eu me orgulho do que fiz. Porque sempre fiz o que gosto de fazer. Coisas que amo fazer. Os textos as músicas que fiz, as que musiquei com meus amigos. Isso foi virado algo grande. E fico muito feliz de ver as pessoas curtindo, gostando das coisas que eu faço. Mas não muda o sentido. Esse ano estive na minha cidade no início do ano, e foi inesquecível. Tinha muitos anos que eu não ia e ai ficha caiu. Todos os sentimentos que um homem pode ter senti nessa viagem. Porque muito do que você viveu na infância, um dia vem a tona. Então o sentimento são os mesmos, só que com o olhar amadurecido.

AM: Para finalizar o quais os projetos em andamento que você pode adiantar para nós?

SC: A Máquina Blues está pra lançar um material bem bacana, já passou até da hora da gente ter algo a altura da banda, estamos em produção. A Karne Krua vai lançar o “Bem vindo ao fim do mundo“, que pra mim é o melhor disco da banda. Tem o projeto Primitivas, que é lançar um material com músicas desconhecidas pelo público mais jovem, músicas bem antigas, que já vai sair com essa formação atual. E fazer alguns shows comemorativos dos 30 anos da banda, fazer algumas coisas fora do estado. E todas as outras bandas estão com material pra lançar.

 * Coletivo A MOSCA – O Jornal que pintou para lhe abusar

2 comentários sobre “Sílvio Campos (Karne Krua) – Parte II: “Cara, nossa banda não é de hit de rádio”

  1. Grande historia!
    Sou da primeira formação do guilhotina. Marcelo Trexx. favor quem tiver fotos daquela época do Guilhotina me envie. tenho algumas para passar. e ai, Denisson peralta , Sergio, soneca, Wilson. recordações!!

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