Pós-eleições e preconceito ou do que a carne herda

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Pode ser o pobre, o nordestino, o negro, o homossexual, o suposto ignorante, afinal, no Brasil a elite branca da casa grande desconhece o que é “perder”

*por Romero Venâncio

“O problema político é o problema do controle do ódio e não do amor.E o ódio é uma paixão que desencadeia quase inevitavelmente a questão do inimigo.” Alain Badiou. In: “Elogio ao amor”

Era bem inicio dos anos 90 e o professor Giovanni Queiroz, da UFPB, indicava a um grupo de alunos do curso de filosofia o livro da também professora da UFPB, Maura Penna, “O que faz ser nordestino: Identidades sociais, interesses e o “escândalo” Erundina” (editora Cortez, 1992). O livro, fruto de um trabalho de pesquisa, nos chamava a atenção para a situação de nordestinos pobres em São Paulo e a responsabilização de terem determinado o processo eleitoral que culminou com a vitória de uma nordestina radicada em São Paulo, a desconhecida nacionalmente até aquele momento – Luiza Erundina.

Pichações fascistas em espaços de nordestinos, palavrões, perseguições e toda uma sorte de preconceito que vinha a tona logo após as eleições de 1988 para prefeito de São Paulo. O sinal de alerta estava ligado à esquerda e a direita (sempre acho que as esquerdas da época, em São Paulo, aprenderam pouco com o fato, mas estamos em outro terreno e a história agora é outra e mais grave) e a direita continuou no seu papel até hoje (literalmente – dia 27 de outubro de 2014 – basta ver as redes sociais e seu esgoto pseudo-erudito ou medíocre ao extremo, tanto faz, o preconceito cresce a ponto de se parecer com fascismos vários espalhados pelo mundo e de triste memória).

Sempre vai-se a procura do “bode expiatório”. Pode ser o pobre, o nordestino, o negro, o homossexual, o suposto ignorante, afinal, no Brasil a elite branca da casa grande desconhece o que é “perder”. O mais irônico nestas eleições de 2014 é que o governo de plantão (petista e seus aliados) não tem nada de revolucionário ou expropriador de nada dos ricos. Tem aliados ricos, recebeu dinheiro da Friboi e outras empresas, recebeu apoio de oligarquias locais e em nenhum momento falou em mudança radical. Um governo que a décadas promove certa mobilidade social, mas não mudança propriamente dita (não há nenhuma contradição em promover mobilidade social sem mudança social – típico do governo atual desde a presidência de Lula). Um governo que ganhou notoriedade entre as camadas populares devido a uma série de programas sociais, tendo sido o “bolsa família” carro chefe destes. Então, por que tanto ódio? Tanto furor de indivíduos ou grupos nestas eleições? Lanço aqui algumas hipóteses ainda em andamento e no calor da hora.

Primeiro, o mais badalado nas redes sociais e nos jornais e revistas dos ricos brasileiros: essa mobilidade social fez pobre usar transporte aéreo, fez pobre ter o filho ou a filha numa universidade pública e em cursos como medicina ou direito, por exemplo. Tomando só esses dois exemplos, percebeu-se que a gritaria foi geral. Houve uma “invasão” dos espaços  historicamente reservados para os brancos por negros e pobres. “Política de cotas” virou o seu contrário na baca e na pena dessa gente acostumada a ganhar e ter o Estado a seu favor sempre e sem soltar nenhuma migalha aos mais pobres.

Aqui mora a questão: desde a política oficial da casa grande e da senzala na história do Brasil que é assim: o pobre tem seu lugar subalterno e deve aceitá-lo resignadamente como natural a ponto disto virar uma distinção cultural. Ora, à medida que os espaços intocados foram “profanados” pela presença do pobre (nordestino, nortista, negro, favelado, etc.) o alarme de incêndio tocou e vieram as perguntas: onde vão parar? É bolsa pra tudo? É muita corrupção? As bolsas alimentam preguiçosos? E por vai ou ainda esta indo.  Aquelas senhoras que parecem pular das páginas dos livros de história de um 1964 e suas marchas, começaram com histeria cívica de novo desde junho de 2013 e não pararam mais. Aqueles senhores bem nascidos e bem postos começaram suas análises auto ditas científicas sobre inflação, fuga de capitais, Cuba, Venezuela, Bolívia (sempre os três mesmos países na boca dessa gente. Por que será?). Tá claro e ao mesmo tempo velado uma coisa: pobre não pode melhorar de vida para essa gente da casa grande e se qualquer governo “liberal-social” ou “neodesenvolvimentista” ajuda de alguma forma os mais fracos e desprotegidos, é tachado de “comunista”, “cubano” ou coisa que o valha.

Segundo, o mais fundo da história: trata-se de um brutal preconceito de classe. O discurso moralista contra a corrupção (que há nesse governo petista, sem dúvida) virou messianismo na boca das classes dominantes e a única bandeira a se falar e se propagar. O candidato dessa gente, Aécio Neves, entrou nessa e demarcava bem o tema da corrupção quase como programa de governo. Esquecia ou se fazia de cínico ao desconsiderar toda a “privataria tucana” da gestão de FHC ou a de mais de vinte anos dos tucanos no governo de São Paulo. Por corrupção, era o sujo falando do mal lavado. Essa não era a questão. Era a cortina de fumaça. Os debates se tornavam tediosos pela ladainha da corrupção em defesa e ataque e de grandes projetos para uma Nação, nada tínhamos. O tempo inteiro ficava de fora que o preconceito era de classe e importava identificar um governo nada transformador como um paladino comunista. Triste situação que ganhou as redes sociais, empobreceu toda forma de debate e ganhou as várias formas de preconceito.

Terceiro, o papel da mídia das classes dominantes no Brasil atual. Veja, Folha de São Paulo, estado de São Paulo e Rede globo (Globo News) como protagonistas históricos de um ataque cerrado ao governo onde ligava diretamente qualquer política social dos petistas e aliados a Cuba, Venezuela ou Bolívia. Cotidianamente, a mais de uma década, o ataque cerrado ao governo naquilo que tinha ele tinha de “melhor” (ou menos pior) em termos de políticas sociais. Atacou-se política de cotas, bolsa família, projeto de participação popular (ainda tímido e com pouco rumo), programas contra homofobia ou transfobia, temas como aborto foram travados por conta de moralismo instigados pela própria mídia e politica de drogas, nem se podia falar. Resultado: formou-se uma geração inteira de jovens alimentados por este discurso e tendo ainda fascistas de influência católica como Olavo de Carvalho e seus discípulos ecoando isto ou idiotas como Lobão, Danilo Gentili, Rodrigo Costantino, Reinaldo Azevedo ou ainda intelectuais acadêmicos como Pondé, Magnoli, etc. Todos se prestando ao papel dos cavaleiros da triste figura da mídia da casa grande ou de uma burguesia tosca e predatória.

Uma geração inteira lê, acredita e reproduz essa gente como se fossem profetas de uma verdade escondida por este governo ou como se tivesse um projeto de “ditadura comunista” em andamento (aqui, o delírio beira a loucura coletiva!). As eleições apenas dinamizaram o que já vinha em andamento e sendo alimentada diariamente com essa explosiva histeria coletiva. Desde a vitória de Dilma, a coisa ganhou as redes e jornais e vai se firmando como um movimento político. Fala-se de separatismo, morte aos nordestinos ignorantes, volta dos militares, redução de maioridade penal, fim da corrupção, impeachment, etc, etc…

Por fim, não acredito que esse movimento tenda a diminuir, ao contrário, vai crescer com o atual parlamento eleito. O crescimento de fundamentalistas no congresso nacional levará cada vez mais água ao moinho da reação e do conservadorismo. Um anticomunismo delirante vai sendo divulgado entre as massas e disputando as consciências dos mais pobres. A situação do governo eleito não é nada confortável e nada indica que ele dará uma guinada à esquerda.

Agora, pior será a situação de uma esquerda não-governista e socialista que aposta na luta de rua. Por ser minoria ainda, será atacada todo o tempo: por governistas ou conservadores de toda sorte. Uma coisa é certa, esse movimento preconceituoso e de traços fascistas, não se aquietará mais enquanto o governo for petista (mesmo que não faça grandes movimentações a esquerda) ou de qualquer outra esquerda  e cada vez mais os programas sociais que ajudem os mais pobres serão violentamente atacados. Mas como política não é uma reta euclidiana, muita coisa pode acontecer, inclusive nada (pouco provável).

* Romero Venâncio é professor de Filosofia da UFS

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