Maranhão: um torrão na eleição presidencial

A pacata cidade de Dom Pedro, no Maranhão, explica muito sobre o pleito presidencial de 2014
A pacata cidade de Dom Pedro, no Maranhão, explica muito sobre o pleito presidencial de 2014

Em Dom Pedro, pequena cidade do Maranhão, manifestações populares carregam os elementos simbólicos que explicam o alto número de votos em Dilma. Aquele povo está muito longe de votar por “ignorância” ou por “gratidão”

*por João Carlos Cunha

Primeiramente um adendo: politicamente, a preocupação em quem o governador eleito apoiaria nesse segundo turno presidencial mostrou-se desnecessária. O povo do Maranhão demonstrou que sua eleição em primeiro turno se deu à revelia de qualquer pauta social, cultural ou econômica que ele pudesse expor: existia um motivo comum que encaminhou as eleições para governador no Maranhão. O candidato que Dilma e o PT apoiaram perdeu de forma acachapante, enquanto ela teve média altíssima em primeiro turno [Confira o texto do mesmo autor sobre o tema, antes do primeiro turno: O que está em jogo nas eleições 2014 – Maranhão].

Eis o segundo turno.

No dia 25 de outubro de 2014, véspera da decisão do segundo turno das eleições presidenciais no Brasil, o que vimos na cidade de Dom Pedro, interior do Maranhão, distante cerca de 300km da capital São Luís, é o que pode (e deve) ser chamado de mobilização popular. Dois dias antes, uma mobilização de partidários do candidato do PSDB, Aécio Neves, conduzida pela elite política e, principalmente, agrária da cidade promoveu uma carreata para mostrar apoio. Poucas pessoas aderiram ao evento, pelo menos dentro da perspectiva de que seria algo grande (não chegou a médio).

Nas primeiras horas da manhã do dia 25 um carro de som já entoava nos quatro cantos da cidade que naquele dia a partir das 18 horas o “povo humilde irá se encontrar na entrada da cidade para fazer uma grande manifestação de apoio à presidenta Dilma, aquela que ama os mais humildes e os mais pobres, aquela que governa para a gente”. A partir do horário marcado começamos a ouvir os fogos. Não demora muito buzinas de motos e carros e um grande carro de som estouram os tímpanos. De repente irrompe na Rua Humberto de Campos, a grande mobilização convocada desde cedo.

Muitas motos, principal meio de transporte atualmente nas cidades menores do interior do Maranhão. Muitos carros, de populares a pickups (estas com várias pessoas em suas carrocerias). Uns dois ou três caminhões de carregamento de tomate (principal atividade agrícola da cidade, hoje bem menor do que antes, mas ainda assim forte), também cheios de gente.

À frente um carro daqueles que o interior do Nordeste conhece bem: o tal do paredão de som. Dos alto falantes entoava um cidadão que falava constantemente sobre aquela manifestação ser “do povo humilde, que a presidenta Dilma ama”. Passaram na frente da minha casa e o que vimos ali foi realmente uma manifestação popular. Não despontava, como em outras carreatas, uma figura política. Não era o prefeito o protagonista, nem vereadores ou deputados. Era possível perceber as figuras, mais por ser celebridade do que pela sua presença destacada em carrocerias. Era o povo o protagonista daquele momento (na verdade o protagonista era o cidadão que falava no paredão à frente, mas depois que ele passava, o barulho das buzinas o silenciava).

Dom Pedro não é uma cidade rica, longe disso. Ainda hoje sofre de muitas mazelas. O município está longe daquilo que podemos chamar de desenvolvido – e aqui falamos não só de desenvolvimento econômico, mas de uma noção ampla dessa categoria. A concentração de renda ainda é fortemente agregada aos grandes produtores rurais daquela região, denominada região dos cocais – onde o babaçu abunda. A onda do gás, lançada e explorada de forma imprudente pelas empresas de Eike Batista, trouxe mão de obra estrangeira, muitos espanhóis, mas que já desistiram dessa empreitada fajuta. Muitos trabalhadores daquela região, pela falta de maior e melhor qualificação, ficaram na parte do trabalho braçal, porém também desistiram depois de terem sido surrupiados em seus direitos trabalhistas. Restou para muitos a volta à lavoura de subsistência e programas de assistência social. A falta de políticas públicas municipais e regionais entrava a produção de pequenos donos de terra, os conflitos agrários ainda existem e as comunidades de quebradeiras de coco ainda sofrem pressão extrema contra a lei do babaçu livre – poucas cidades no Maranhão foram contempladas com esta lei municipal.

Nos últimos anos, nos anos dos governos de Lula e Dilma, a cidade de Dom Pedro viu sua renda tomar certo impulso, as pessoas começaram a ter mais noção dos seus direitos e pelo menos uma das culturas faleceu: a cultura do trabalhador sujeitado. Hoje na cidade, o sábado pós almoço é um momento de fechamento de portas. Estabelecimentos lojistas fecham, carteiras de trabalho estão assinadas, o trabalho lamurioso até nos dias de domingo pela manhã não é mais realidade. Não há mais empregadas domésticas dormindo em casa e diminuiu bastante a cultura da menina que foi “criada” por famílias mais ricas, não se sujeitam mais à condição de cuidadora de crianças. Os programas sociais de assistências facilitaram a vida de muitas pessoas naquela região, a vida dos mais ricos em nada diminuiu de padrão. O mesmo latifundiário que exibia grandes pickups continua as exibindo, mas a bicicleta foi substituída por motocicletas.

E não se pode falar em ignorância do povo matuto, do povo humilde como o nosso locutor identificou-se e àqueles que o acompanho no ato pró-Dilma. As pessoas sabem quais as responsabilidades do prefeito, quais são as atribuições que o município deve ter com as dotações que recebe. Se o hospital municipal vai mal, sabem que o responsável é o secretário de saúde e o prefeito que não repassaram a verba para o conserto. Se a escola municipal está sem merenda, não é o governo federal que será cobrado, mas a secretaria de educação e o prefeito que nomeou o secretário. Se não existe uma lei do babaçu livre, as comunidades de quebradeiras sabem que o problema é o aparelhamento das câmaras municipais pelos grandes latifundiários e que barra sua edição. E assim por diante…

Os indígenas, entretanto, sentem na pele a falta de políticas para suas demandas.

O resultado é que em Dom Pedro, Dilma alcançou quase dez mil votos, contra cerca de dois mil de Aécio. Reflexo de uma comunidade que viu nos últimos doze anos seus filhos saírem para estudar nas faculdades junto com os filhos dos mais ricos – e que nos últimos anos viu as próprias instituições de ensino superior adentrar suas fronteiras (EAD ou presenciais).

Não é letramento acadêmico que essas pessoas adquirem, mas a prática da vivência. É a experiência das cidades do Maranhão que fizerem este ter a maior votação pró-Dilma. O Maranhão que derrotou por duas vezes uma oligarquia que só os massacrava, mas que vê ainda no governo dos últimos 12 anos vários problemas, porém bem menos do que aquele que esquecia o Nordeste em suas políticas. Não existe ignorância do povo que recebe bolsa família, mas a percepção de que estes podem melhorar e muito sua condição.

A mesma condição se estabeleceu no município mais “dilmista”, a cidade de Belágua: as pessoas sabem que a falta de políticas públicas municipais é que inviabiliza a infraestrutura mínima. O executivo municipal e estadual no Maranhão, há anos vêm desacreditado nesses rincões, resta a sustentação nos governos federais – e o governo antes de Lula e Dilma olvidava de tal forma essas pessoas que a mínima assistência e visibilidade permitiu uma ponta de esperança. Casos de corrupção, alta do dólar, recessão, reforma política e crise são assuntos estranhos para essas pessoas. A preocupação com estes temas é: zero. Crise é, apesar de melhorias consideráveis, o que essas pessoas vivem como normalidade (a falta de recursos mínimos para sobrevivência digna). Para essas pessoas importam as refeições diárias, o sustento das crianças sem doenças por conta de falta de condições mínimas de sobrevivência, ou a possibilidade de compra de remédios caso isso aconteça, uma morte digna para seus idosos com a possibilidade de cuidados para diminuir a sua dor. Talvez a saída de seus filhos para estudos mais aprofundados sobre o Brasil e o mundo comece a mudar os temas de preocupação (ou não).

Olhar o Maranhão e – por que não? – o Nordeste sob a perspectiva de que se vota no governo atual por conta de ignorância é ingenuidade dos intelectuais. Ignorância é justamente o que não existe, pois essas pessoas não são ignorantes da sua condição pré e pós governo PT. A ideia de que se vota pela gratidão a programas sociais existe em certa medida, contudo ela se esvaece no ponto em que precisamente a possibilidade de movimento social (mover-se de um espaço a outro dentro da sociedade) aparece de forma concreta. Não é gratidão, é o senso de que existe uma obrigação: os governos devem de tornar plausível que as pessoas melhorem de vida e tal obrigação está sendo cumprida, aos olhos dessas pessoas, pelo governo que é hoje vigente. Como tornar com governos que os esqueceram durante tanto tempo?

Textos extensos sobre a cabeça do eleitor tornam-se obsoletos com a constatação pura e simples de que as pessoas votam por interesses (para muitos, isso parece absurdo). E o interesse do maranhense neste momento está adequado perfeitamente à política que o governo do PT está promovendo. As mudanças que a grande maioria das pessoas do Maranhão e do Nordeste experimentou nos últimos anos tende a refletir em próximas eleições. Resta saber se os outros partidos conseguirão convencer o povo de que suas propostas podem reverter as memórias dessa gente.

*João Carlos Cunha é mestre em Direito e colaborador da Revista REVER 

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