Um olhar sobre as novas griôs sergipanas na luta anti-racista

cacheadas aracaju

No caminhar desse ano estamos presenciando uma entrada de novembro com uma profusão de atividades e movimentos relacionados à organização de negros e negras

*por Laila Oliveira

Longe dos textos acadêmicos, mas perto da construção e com os pés no chão – as mulheres negras sergipanas – imbuídas de um sentimento de mudança e quebrando a anestesia que há tempos havia se instalado nas organizações de mulheres negras, trazem em sua vivência e oralidade novas experiências para o combate às opressões cotidianas.

Espalhadas em seus terreiros, nos palcos através da dança ancestral, nas lutas solitárias e coletivas, nos salões de cabelo resistindo e enaltecendo a nossa capilaridade afro, no fazer filmes, na musicalidade, no silêncio do chão da escola que ainda alimenta e perpetuam diversas formas de racismo, essas mulheres encontraram umas nas outras um canal catalizador desse grito de liberdade e força, transformando indignação em luta permanente.

Somos 70% das mulheres sergipanas, mas nossa voz há muitos anos estava silenciada ou gueticizada, mas a movimentação de mulheres negras em todo o Brasil, e a resistência contribuiu para nos unir, o que antes estava silenciada ou gueticizada, e o que antes nos separou(o racismo), é agora o motivo da união e fortalecimento para o seu combate, para lutar pelo fim de todas as formas de violência: física, psicológica, sexual, institucional e simbólica.

Mas será que a luta de mulheres não consegue suprir esse hiato com relação às demandas das mulheres negras? A resposta é que continuamos na base da pirâmide social. As mulheres negras sofrem duplamente ou triplamente: com o racismo, o sexismo e a lesbofobia. No mercado de trabalho, recebemos menos que os homens brancos, que as mulheres brancas e que os nossos irmãos negros.

As mulheres negras não cabem à luta só pela inserção no mercado de trabalho, pois nunca foram donas de casa. A maioria sustentam suas famílias e desde cedo estão imersas no submundo do mercado de trabalho, mal pagas, exploradas, resultado de uma política de exclusão social originada no período pós-abolição, quando foram negadas condições de trabalho e moradia aos negros e às negras, restando os morros e os quilombos rurais. A luta é por melhores condições de trabalho, por trabalho decente e salários iguais.

Segundo dados do Instituto Búzios, o salário de duas empregadas domésticas negras se aproxima ao salário de uma empregada doméstica branca. Na região metropolitana de São Paulo no ano de 2002 o rendimento mensal de uma doméstica negra foi de R$ 412,00 enquanto de uma doméstica branca foi de R$ 765,00.

Em um cenário ainda opressor, é com alegria que eu vejo as organizações de mulheres negras emergirem, seja através das redes sociais, nas comunidades, em seus barracões e nas rodas de samba.

O grupo que iniciou nas redes sociais, Crespas e Cacheadas, mobilizou um encontro este ano com cerca de 60 mulheres negras, que numa atividade ritualística compartilharam suas dores e lembranças, estradas percorridas até enxergar a beleza e a força de suas raízes capilares. Adornadas de belos lenços coloridos e turbantes estampados, de dreads, de tranças ou black, essas mulheres mostraram o que é sororidade, ao reafirmar que estão juntas no combate ao racismo.

Ainda este ano, a Marcha das Vadias de Aracaju trouxe um bloco de mulheres negras que levantaram o estandarte: “negra é resistência”, bastante significativa, a frase que abria o bloco trouxe cartazes reivindicando o fim do racismo midiático, dos padrões de beleza, do extermínio da juventude pobre (e em sua maioria negra), o orgulho de ser negra, o fim da intolerância religiosa e de todas as formas de violência.

No caminhar desse ano estamos presenciando uma entrada de novembro com uma profusão de atividades e movimentos relacionados à organização de negros e negras. O nascimento do movimento auto-organizado de mulheres negras formado por artistas, professoras, comunicadoras, advogadas, estudantes…ufa! Mulheres negras dispostas a formar essa frente de luta para a superação do racismo, sexismo, lesbotransfobia e do preconceito de classe.

O cine-black organizado esse ano pelas “Crespas e Cacheadas” reuniu dezenas de pessoas em uma atividade para assistir o filme “A história de Ruby Bridge(1998)” e discutir a identidade da população negra, a campanha viral das estudantes de comunicação na UFS: ‘Por mais turbantes nas ruas’, a Unegro/SE que lançou um calendário de atividades para o mês de novembro percorrendo alguns municípios do estado, centros acadêmicos, diretórios e o V Ciclo dos Ogãs está trazendo para o bojo da discussão sobre negritude a figura da mulher negra.

Com tantos frutos que estão surgindo não podemos negar, a nossa ancestralidade e as ayabás estão soprando ventos à favor dessa geração de pretas que não fogem à guerra, e principalmente à luta.

Axé!

*Laila Oliveira é Jornalista, feminista negra e mãe do menino Enzo de 3 anos. Mestranda em Comunicação e Sociedade pela UFS, atualmente constrói o Movimento Auto-organizado de Mulheres Negras de Sergipe

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