Entre o desapego e a loucura: A doença e o pecado de jogar dinheiro fora.

lagartense
“Luís tinha passagem por diversas casas de internação, preferiria ele e a família ficar em casa que, mesmo sem a estrutura adequada, driblar os castigos físicos, as privações de intimidade e os choques elétricos de rotina”

*por Henrique Maynart

“Homem saca 7 mil reais e joga na rua em Lagarto”, “Busca por dinheiro gera tumulto em praça de lagarto” Manchete nacional das boas, jogar dinheiro fora é um dos estereótipos mais conhecidos e explorados da “loucura” no imaginário popular, só empareando com “comer cocô” dentre outras nojeiras da sanidade. Luis Carlos Carvalho, 61, esquizofrênico, saca sete mil contos de sua conta corrente na Caixa Econômica Federal, joga na Praça no último dia 7 de novembro e se tranca no quarto, vindo a óbito dias depois. O motivo ninguém soube, nem quis saber, nem mandou buscar. O sujeito e os objetos de sua desgraça, as agonias que transitavam trôpegas por trás das cédulas ao vento, estas pouco valeram entre o causo e a manchete.

Luís Carlos vivia com a mãe, sobrevivia com pensão e herança e tabelava forte com a esquizofrenia. Jogou dinheiro fora. Luís estava deprimido fazia algum tempo, sofria alguns surtos e crises ao misturar a medicação com álcool. Jogou dinheiro fora.Já era um senhor, conhecido por toda a vizinhança com mania de pagar cerveja aos conhecidos. Jogou dinheiro fora. Luís tinha passagem por diversas casas de internação, preferiria ele e a família ficar em casa que, mesmo sem a estrutura adequada, driblar os castigos físicos, as privações de intimidade e os choques elétricos de rotina. Jogou dinheiro fora, enquanto a vida escorria, grossa e lentamente, pelo ralo de uma sanidade que lhe enclausurava no tempo e no espaço.

Luís, que estava prestes a jogar dinheiro fora, acordou numa manhã de sexta-feira, engoliu cuscuz com pão e café e entornou convicto os 40 calmantes pra rebater o arroto. Podiam chamar de doido, viver daquele jeito não estava dando, já tinha dado o gasto. Dinheiro de morto serve pra quê em cofre de banco? Logo ele, que gostava de pagar cerveja pros amigos, fazer a alegria das mesas em troca de alguma atenção, ia guardar vintém pra quê? Sacou tudo e papocou o rendez vouz na praça matriz que assim um tiquinho dele multiplicava pela alegria ou necessidade de quem alcançasse aquelas cédulas. Se trancou no quarto para a morte, e assim foi.

Luís, que não se enquadrou nos porões da sanidade, que não tinha sua condição respeitada, que não encontrou acolhida e tratamento pautado na dignidade e na autonomia, carcomido pelas profundezas da depressão, que não viu problema em socializar o que era seu por saldo, conta e corrente, se escafedeu desta pra melhor e só lembraremos do causo, da confusão e das cédulas ao vento. Mais que um causo pitorescco que só ele, a história de Luís deveria nos ensinar que o respeito e a liberdade são mais valiosos que uns tantos mil réis fatiados em notas de 100 e 50 reais em manchete de jornal. A doidice que a gente larga no lombo dos outros também é nossa, rasgar dinheiro é ficha pra uma ruma de violência que se arrasta por estas bandas de injustiça e pretensa racionalidade.

*Henrique Maynart é jornalista e colaborador da REVER

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