20 anos sem Guy Debord: notas sobre o déficit crítico

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“Os 20 anos sem Guy Debord, constatado este silêncio em relação ao impacto radical de sua obra, são também 20 anos de déficit teórico para a esquerda”

*por Leomir C. Hilário.

 Há 20 anos, no dia 30 de novembro de 1994, falecia Guy Ernest Debord, autor, dentre outras, da obra “A Sociedade do Espetáculo” (1967) e cujo nome está ligado a um dos fenômenos mais enigmáticos da história do século XX: o fatídico Maio de 1968. Uma boa forma de compreender a importância de Debord para o campo de uma teoria crítica radical do capitalismo marcada pelo horizonte emancipatório é enxergar a obra dele na perspectiva da compreensão do que foi 1968. Aliás, me parece, inclusive, que Debord e o Maio de 1968 são muito pouco mensurados no interior da esquerda, isto é, não são devidamente levados em conta.

 Enquanto a esquerda não fizer uma análise de conjuntura em relação ao Maio de 1968, jamais será capaz de entender o que foi o Junho de 2013, isto é, não terá os elementos suficientes para compreender como grandes movimentos de massa podem ocorrer de maneira mais ou menos imprevisível em várias partes do mundo, não liderados por partidos políticos, marcados pela pluralidade de pautas, pela diversidade de setores sociais que as compõem etc., e de como, apesar das especificidades nacionais destes movimentos, eles se inscrevem num quadro mais amplo de fases específicas do capitalismo. Isto significa que sem entender a dinâmica do capitalismo a nível mundial, a análise da conjuntura nacional é sempre defasada. No atual quadro, sem a compreensão do que significa a crise estrutural do capitalismo, a compreensão dos movimentos anti-sistêmicos é bastante prejudicada. Também por isso voltar a Guy Debord me parece um passo obrigatório para uma esquerda que pretende se renovar teórica e praticamente, na medida em que sua obra contribui para pensar a atualidade.

Um autor como Immanuel Wallerstein, por exemplo, é da opinião segundo a qual 1968 pode ser concebido como uma “revolução mundial” por terem havido manifestações, ao mesmo tempo, para citar alguns exemplos, no bloco socialista de nações, no que era denominado de Terceiro Mundo, na América do Norte, na Europa Ocidental, no Japão etc. Mais do que isso, para ele, 1968 foi o evento político mais importante do século XX. Mais importante do que a Revolução Russa de 1917, mais do que a derrota de Hitler e o estabelecimento da hegemonia dos Estados Unidos em 1945, mais até do que o colapso do bloco soviético em 1989-91. Não pretendo aqui discutir como ele chega até essa conclusão, pois não quero escrever um texto acadêmico, mas esta opinião dele me serve como forma de chocar a leitura comumente realizada do Maio de 1968 como movimento histórico subvalorizado. É bom lembrar que o Wallerstein faz parte de uma tradição que analisa a sociedade na chave da longa duração histórica, isto é, pensando formas sociais num arco histórico de séculos, logo não se trata de alguém empolgado com o Maio de 1968, mas de um estudioso que percebe a importância da ruptura na qual o Maio de 1968 foi o acontecimento histórico emblemático.

 Ressignificar a importância do Maio de 1968 – retirá-lo da condição de levantes efêmeros que sucumbiram posteriormente – serve também para repensar a própria obra de Guy Debord. Ou seja, repensar o Maio de 1968 deve nos levar a realizar um balanço de como a obra de Debord foi absorvida e/ou desconsiderada pelo campo majoritário da esquerda, sobretudo a esquerda partidária. Isso nos leva a colocar o Debord no interior de uma tradição minoritária do marxismo heterodoxo constantemente jogada para escanteio. Não por acaso a esquerda partidária desconsidera a obra de Isaak I. Rubin e Evgueni Pachukanis – dois autores executados pelo stalinismo em 1937 – desconsidera também as obras de Roman Rosdoslky, Ernst Bloch, Anton Pannekoek, para citar alguns exemplos de autores que, apesar de terem dado grandes contribuições, jamais foram devidamente dimensionados. E isso não foi nem é por acaso. Posso citar também o caso do Brasil, onde a crítica brilhante de Caio Prado Jr. sofreu do mesmo mal. Paro por aqui. Não pela falta de exemplos, mas pelo fato de que são tantos nomes desconsiderados que eu teria de escrever um texto só mostrando isso.

O fato é que as poucas tentativas de se apropriar da obra de Guy Debord podem ser localizadas, em termos bastante esquemáticos e apenas como forma de exposição, da seguinte forma: de um lado, na leitura segundo a qual o “espetáculo” se referiria ao domínio dos grandes meios de comunicação, em especial a televisão. Este é um ato muito comum: na incapacidade de realmente dimensionar um autor, situa-se este autor num campo bastante delimitado da sociedade, assimilando-o como uma peça argumentativa que não modifica a estrutura de leitura tradicional do capitalismo. Esta interpretação “midiocentrista”, isto é, onde o espetáculo é entendido somente como domínio da mídia sobre os indivíduos, marca uma parte das apropriações de Debord, àquilo que ele próprio chama de “discussão vazia sobre o espetáculo”.

Por outro lado, outras tentativas vêm pela desqualificação rasteira e vazia segundo a qual se o espetáculo está em todo lugar então tudo é espetáculo, inclusive a crítica de Debord. Aqui outra estratégia muito comum: na incapacidade de dimensionar a grandeza de um autor, coloca-se este autor no terreno do senso-comum, desqualifica-o e anula sua importância. Debord jamais postulou um conceito de espetáculo onde não há saídas, esta pode ser a leitura que Jean Baudrillard fez dele. Pelo contrário, o livro “A sociedade do Espetáculo” é composto por nove capítulos, onde apenas dois deles são destinados ao conceito de espetáculo e os sete restantes são destinados à problematização das formas de superação do espetáculo na direção de encontrar tanto uma forma prática de organização capaz de romper com o espetáculo quanto de fornecer um enquadre analítico que coloque o problema fundamental da sociedade, quer dizer, que reponha o lugar a partir do qual a sociedade se reproduz e aponte para a sua superação. Gostaria de sublinhar, sem poder me aprofundar devidamente, que Debord talvez tenha sido um dos grandes autores no contexto de 1968 a realizar uma crítica do modo de produção capitalista e não apenas ao seu modo de distribuição.

 O modo como a esquerda assimilou o Maio de 1968 é sintomático. Todos conhecem a frase “sejamos realistas, exijamos o impossível”, por exemplo, mas há muito pouco espaço para a utopia, isto é, há pouca reflexão sobre a historicidade do capitalismo, sobre a historicidade de suas categorias básicas, tais quais trabalho, riqueza e valor, constantemente entendidos como invariantes históricas necessárias à reprodução social seja ela qual for. “Exigir o impossível” significa, por exemplo, exigir a abolição do trabalho. E, neste caso, nenhum setor da esquerda partidária defende isso. Porque isso é impossível, dizem, o trabalho é a condição ontológica fundamental da reprodução social, do metabolismo entre homem x natureza. Ora, mas o Maio de 1968 não apostou que devemos “exigir o impossível”? Neste sentido, por que não dar razão ao Maio de 1968 e apostar naquilo que pode ser a superação e abolição do trabalho? Ou seja, por que não se abrir à possibilidade de um questionamento radical das bases teóricas que compõem a crítica? Não foi este o objetivo do Maio de 1968?

O que me parece é que ainda há certa impermeabilidade no campo da esquerda à crítica radical elaborada por Guy Debord, quase como uma herança da qual não se consegue desvencilhar. Bom exemplo disso é a discussão que Debord faz entre ambos os lados da Guerra Fria. Segundo ele, os Estados Unidos e a União Soviética representavam, de fato, lados opostos, mas, no entanto, ele argumentava, tratava-se de uma mesma moeda. Isto significa que Debord pertence a uma tradição cuja crítica se direciona também à deslegitimação da União Soviética como representante de alguma modalidade de sociedade emancipatória. Ou seja, em poucas palavras, Debord foi um dos primeiros a compreender a função sistêmica efetuada pelo socialismo real no interior da sociedade capitalista.

Ele chamou os Estados Unidos de uma forma de “espetacular difuso” e a União Soviética de “espetacular concentrado”. O que me interessa aqui é como ele compreende ambos os lados como subjugado a uma mesma lógica, o espetáculo. Além disso, me interessa quando ele diz que a União Soviética promoveu uma “acumulação primitiva acelerada pelo terror” e constitui, no fim das contas, uma “técnica de poder estatal em economias mistas atrasadas” (Debord, § 64). Antecipando o melhor da crítica ao socialismo real, Debord entende que o socialismo real exerceu a função sistêmica de modernizar aceleradamente economias retardatárias e periféricas do capitalismo. É bom lembrar, por exemplo, que a Rússia era um país feudal em 1917 e se tornou, em menos de 50 anos, um país extremamente industrializado, realizando a revolução industrial em tempo recorde. Ou seja, na Rússia, não foi a burguesia que implementou o capitalismo, mas foi o Partido Comunista que modernizou aceleradamente e industrializou a Rússia, construindo o aparato produtivo essencial para o modo de produção de mercadorias característico do capitalismo.

Em determinado momento de sua obra, Debord diz que o critério da consolidação do socialismo não é se ainda haverá burguesia (que de fato não deve haver), mas se haverá proletariado. E, neste sentido, segundo ele, o que o socialismo real fez foi produzir proletariado em massa, em vez de construir suas formas de abolição. Ele põe o fracasso histórico do socialismo real exatamente neste momento: “ao acumular capital, ele acumulou proletariado, e cria seu próprio desmentido, num país em que ele não existia” (Debord, § 113). Ou seja, ele levanta uma questão dolorosa e necessária: o socialismo real teria sido uma tentativa de produzir uma sociedade emancipatória ou uma forma sistêmica específica de instaurar o capitalismo em países atrasados e, assim, colocá-los no circuito do mercado global? Isso nos levaria a pensar de outra forma o modo pelo qual o socialismo real foi autoritário e opressor. Mais ainda, a entender o motivo pelo qual em momentos de sublevação, como na revolta do soviete de Kronstadt (1921) e na Primavera de Praga (1968), para citar exemplos temporais e geográficos distintos, não foi o imperialismo ou a burguesia internacional mas sim o Partido Comunista que abafou e assassinou militantes, instaurando uma ordem social autoritária que servia, no frigir dos ovos, ao processo abstrato de acumulação e reprodução de capital.

Guy Debord permanece num estranho silêncio e isolamento, mesmo após sua morte, por tocar em feridas abertas para a esquerda mundial. Sendo um homem de ação, que acreditava ferrenhamente no proletariado e numa organização proletária revolucionária, isto é ainda mais estranho. Em todo caso, é preciso dizer que, em minha opinião, recuperar Debord significa necessariamente quebrar com o esquematismo de análise reinante. A falta de disposição de quebrar os discos arranhados da análise conjuntural atual do capitalismo em crise estrutural é igualmente proporcional à de ler autores como Debord e, o que é mais grave, à de questionar radicalmente as bases teóricas consolidadas de uma leitura tradicional do capitalismo.

Os 20 anos sem Guy Debord, constatado este silêncio em relação ao impacto radical de sua obra, são também 20 anos de déficit teórico para a esquerda. Durante estes 20 anos, forjou-se, por exemplo, novas críticas radicais do capitalismo, como a agrupada no interior do que se chama de “crítica do valor”. No entanto, não faço aqui uma defesa de autores ou doutrinária. O que me parece é que estes 20 anos foram, também, os anos em que não só o capitalismo a nível global entrou num estágio de regressão social, como também o “sujeito revolucionário” passou de uma estratégia ofensiva para uma estratégia defensiva, rebaixando a crítica ao capitalismo ao nível do mero gerenciamento do poder político e distribuição econômica da riqueza. Não é, portanto, apenas o Debord como intelectual que contribuiu significativamente para a esquerda que faz falta, mas o Debord enquanto o ato de realizar a crítica radical do existente, isto é, como diria Marx numa carta a Ruge em 1843, trata-se de “uma crítica implacável de tudo o que existe, implacável em dois sentidos: a crítica não deve temer nem suas próprias conclusões nem os conflitos com os poderes instituídos”. É esta crítica radical, que se dirija à raiz do problema atual do capital, que tem sido deixada de lado. Razão pela qual a esquerda tem perdido sua capacidade de pensar e agir para além do Estado e do mercado.

 Gostaria de terminar esse texto informal indicando algumas leituras e enfatizando a necessidade de se retomar a crítica radical anticapitalista, da qual a vida e obra de Guy Debord são boas formas de exercício:

 

Guy Debord. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

Situacionista: teoria e prática da revolução. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2002.

Anselm Jappe. Guy Debord. Petrópolis: Vozes, 1999.

Anselm Jappe. As aventuras da mercadoria: para uma nova crítica do valor. Lisboa: Antígona: 2006.

 

*Leomir C. Hilário é colaborador da REVER e doutorando em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

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