O ABC do Sertão por Luiz Gonzaga

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Luiz não foi o pai do forró, mas, sem dúvida, foi o principal difusor da vida e música nordestina

por Geilson Gomes

Na história da cultura brasileira, a música nordestina sempre desempenhou um papel muito forte de resistência e de contadora de sagas, histórias, córdeis e da trajetória do povo sertanejo. Amanhã, 13 de dezembro, comemora-se o dia nacional do gênero musical do nordeste: o forró. A data foi escolhida em homenagem a Luiz Gonzaga, que nasceu neste dia, em Exu, cidade de Pernambuco.

Em Exu, ele aprendeu a tocar sanfona. De personalidade duvidosa, Lua – como era conhecido – não estava nem aí para quem estava no poder. Se era milico no governo ou não, o único interesse dele era se aproveitar do poder para ajudar seu povo. Por isso, existem inúmeras acusações nos lombos de Lua.

Mais do que sua posição política. O que mais marcou na vida de Luiz foi a sua produção musical. Ele não foi o pai do forró, mas, sem dúvida, foi o principal difusor da vida e música nordestina.

“Lá no meu pé de serra
Deixei ficar meu coração
Ai, que saudades tenho
Eu vou voltar pro meu sertão
No meu roçado trabalhava todo dia
Mas no meu rancho tinha tudo o que queria
Lá se dançava quase toda quinta-feira
Sanfona não faltava e tome xóte a noite inteira”

Pé de Serra – 1942

O forró vem da palavra forrobodó, que é de origem Bantu e que significa arrasta-pé. O Bantu é um tronco linguístico africano que influenciou o idioma brasileiro. Além ser um gênero musical, o forró é também dançado ao som de vários outros ritmos: xote, baião, xaxado e coco.

O termo forró começou a ser cunhado no início do século XX para designar uma festa com diversos ritmos. A partir da década de 40, Luiz Gonzaga começou a ganhar destaque nacional, levando para as rádios o som genuinamente nordestino. O álbum ‘A história do Nordeste – Na voz de Luiz Gonzaga’, Lua resgatou as vivências e a peleja de sua terra.

“Lá no meu sertão pros caboclo lê
Têm que aprender outro ABC
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê”

ABC do Sertão – 1953

Em se tratando do perfil controverso de Lua, muitas pessoas o acusaram de ser cúmplice do regime militar. Porém, em muitas músicas gravadas por Luiz percebemos a “questão social” inserida nelas, no qual, a imagem do nordeste resistente é central nas canções, tornando-o em um cantor de protesto. Ele inclusive regravou a música de Geraldo Vandré, Pra não dizer que não falei das flores, em 1968.

Não sei como será o futuro do forró, mas, me assusta muito as novas tendências deste ritmo forjado na luta e realidade do povo trabalhador do nordeste. Com produções cada vez mais plasticizadas, sem farra e muita vezes sem o resfulengo da sanfona, o forró modernoso, em muito dos casos, apelam para letras que reforçam a ostentação.

Para nós nordestinos, o forró representa muito mais do que o criado 13 dezembro. É música pra ser tocada todo o ano. É nosso alento e nossa aproximação simbólica da vida simples da roça.

“Caboclo humilde, roceiro
Disposto, trabalhador
No remexer da sanfona
Escuta este cantador
Que no baião fala ao mundo } bis
Teu grandioso valor

Aqui nesta vida humana
Ninguém é melhor que tu
Escuta esta homenagem
De um cabra do Pajeú
E outro do Rio Brígida
Dos carrascais do Exu”

Caboclo nordestino – 1963

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