A atual crise do capitalismo e seus efeitos em Sergipe: o caso da Vulcabrás/Azaléia

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A perda de milhares de empregos diante da saída da empresa de Sergipe é um ótimo experimento da atual dinâmica da economia mundial. Estamos preparados para entendê-la e enfrentá-la?

 *por Leomir C. Hilário.

Há pouco mais de um ano escrevi para a Revista REVER um texto intitulado “Pré-sal: riqueza fictícia, disputa irreal”. Meu objetivo era, dentre outros, chamar a atenção para o fato de que as lutas contra o Leilão de Libra, por exemplo, assentavam-se numa ficção, a saber, de que havia realmente muito dinheiro em jogo que estava se perdendo devido ao processo de privatização em curso à época. A meu ver, a esquerda parecia não compreender o que acontecia e apegava-se às antigas palavras de ordem, como a de que “o petróleo é nosso”. Mas esta palavra de ordem só faz sentido se houver petróleo. Não havia nenhum “bilhete premiado”. O que a realidade solicitava era algo sempre muito difícil embora paulatinamente urgente: em vez de correr em direção à prática, era preciso parar um pouco e se questionar: o que de fato está acontecendo?

Naquela ocasião, ainda sem dados concretos sobre esta queda atual da Petrobrás, arrisquei-me acertadamente a prevê-la a partir da queda da OGX e de Eike Batista, afirmando que “o declínio da OGX e da fortuna de Eike Batista parece ter sido o prenúncio do grande desastre que se avizinha e que levará, desta vez, não uma fortuna abstrata, mas boa parte da finança nacional brasileira”. A desvalorização recente de R$ 610 bilhões, fazendo com que a Petrobrás valha hoje menos do que valia antes do pré-sal, dá razão aos meus argumentos naquele texto. A atual abordagem da grande mídia na chave da corrupção é apenas uma forma de encobrir o real problema da economia nacional de um país periférico como o Brasil e seus limites lógico-históricos de desenvolvimento.

Gostaria de tomar como exemplo, desta vez, um dos acontecimentos que marcaram uma parte do proletariado sergipano, refiro-me ao fechamento de três das quatro fábricas da Vulcabrás/Azaléia. Escolho este exemplo porque retrata muito bem a dinâmica do capitalismo atual e a falência de qualquer gestão estatal-política da crise, o que nos coloca, enquanto esquerda, em xeque: o que fazer? Não procuro aqui dar respostas prontas, receitas para ação, mas tento chamar a atenção para o fato de que é preciso pensar, refletir e criticar a atual conjuntura contemporânea marcada por uma crise estrutural. Entendo que apenas resgatando a dimensão autônoma da teoria podemos começar a sair do aparente beco-sem-saída da crise. Sem entender o que está acontecendo, nós, da esquerda, apenas ficaremos esbravejando às paredes.

Vulcabrás/Azaléia: ontem Nordeste brasileiro, amanhã Ásia

Em meados de Maio de 2014, os grandes veículos de comunicação sergipanos passaram a noticiar o fechamento das fábricas da Vulcabrás/Azaléia e as tentativas do Governo de contornar tal situação. Dois anos antes, na Bahia, acontecia algo muito parecido, sendo que no ano anterior, em 2011, já haviam sido fechadas seis filiais. No Rio Grande do Sul foram 8900 demissões em 2011. Ao mesmo tempo, a Vulcabrás adquiria uma fábrica na cidade de Chennai, localizada na Índia. A justificativa dada por Milton Cardoso, então presidente da empresa, era a de que para competir com os calçados importados da China não havia alternativa senão produzir em mercados que tenham custos menores de produção.

A Azaléia chegou em Sergipe em 1986, primeiramente na capital Aracaju, mas em 1989 foi transferida para Itaporanga, contando com 450 funcionários. Chegou a ter 800, mas em 2006 contava apenas com 280 trabalhadores. Somando, à época, com Lagarto, Ribeirópolis, Carira e Frei Paulo, eram empregadas aproximadamente 2.340 pessoas, que produziam 40 mil pares de calçados femininos, sendo que ¼ destes saíam de Sergipe e partiam para 88 países.

Resumindo: uma empresa, cuja sede está no Rio Grande do Sul, tem seus produtos fabricados, em parte,no interior de Sergipe e compete com produtos chineses em várias partes do mundo. Isto significa que sem compreender a dinâmica global do capitalismo fica impossível compreender o que se passa e, logicamente, complicado propor alguma ação, bem como prever e se antecipar aos fatos.

Em maio de 2014 foi anunciado, pela própria Vulcabrás/Azaléia, a desativação das operações industriais em Carira, Ribeirópolis e Lagarto, por conta da “situação econômica”, o que acarretou na demissão de cerca de 1.300 trabalhadores. Quando uma fábrica como esta fecha é todo um conjunto de relações de troca que se desfaz. Em Ribeirópolis, não foram só os 450 trabalhadores que ficaram desempregados, mas também todo o entorno que vendia alimentos, roupas etc., foi desarticulado. Além, é claro, dos empregos indiretos no interior da fábrica, como os que trabalham no refeitório, jardinagem, confecção de uniformes, serviço de transporte de funcionários etc. [Um estudo sobre isso é a dissertação de mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Sergipe, cujo título é “A implantação da Vulcabrás/Azaléia no Município de Frei Paulo/SE: impactos no desenvolvimento local”, de Paulo Rege Santos Matos].

Em entrevista ao SETV exibido no dia 13/05/2014, Jackson, então Governador do Estado, afirmou: “Tudo o que o Estado pôde fazer, ele fez. Não faltou aparato do Governo. Porém isso é resultado de uma crise que ultrapassa as fronteiras do Brasil. É a competitividade asiática e lamentavelmente as fábricas fecham, causando desemprego. A estratégia do Governo agora é atrair novos investimentos, novas empresas, aproveitar os espaços e colocar novas empresas que estão procurando o Governo do Estado e dar uma resposta a sociedade. O que não pode é o Governo do Estado assumir as responsabilidades de uma empresa que é da iniciativa privada. O Estado fez a sua parte, mas o Estado tem limite”.

A citação é longa, mas creio que ela é necessária porque coloca os impasses de uma crise como esta. Ou seja, o Governo do Estado propôs dar tudo e mais um pouco no que se refere às isenções e incentivos fiscais, e mesmo assim a empresa foi embora. Isso denota que o Governo é conservador, não está ao lado dos trabalhadores etc.? Certamente, mas é preciso sair do registro da crise de direção e de gerenciamento.

A questão é mais profunda: existem limites objetivos para a ação do Estado numa crise como esta que vivemos. Na medida em que a crise tem condicionantes que ultrapassam em muito o Estado – neste caso, é uma empresa nacional, com produtividade transnacional, que compete com um país de dimensão continental como a China, que decide mudar suas indústrias de localidade – talvez o papel da luta emancipatória centralizada no Estado deva ser questionado, pois, num caso como este, ter o poder do Estado não significa muita coisa.

Em 2011, eram cerca de 4 mil trabalhadores inseridos na produção da Vulcabrás/Azaléia em Sergipe; em 2014 o número reduziu para aproximadamente 2.300. Em 19 de Maio de 2014, mais 1.300 trabalhadores foram demitidos. Ou seja, ocorre aqui uma redução drástica do número de trabalhadores. No entanto, na contramão da narrativa da empresa e da mídia de que a Vulcabrás estaria em crise profunda de difícil saída, em novembro de 2014 ela teve um lucro líquido de R$ 3,1 milhões. Ou seja, os elementos são chocantes: fechamento de indústrias, demissões em massa e, ao mesmo tempo, retomada dos lucros? Ou seja, menos trabalho/trabalhadores e mais lucros?

Se não sabemos exatamente como agir diante da batida em retirada de grandes indústrias, convém nos questionar acerca do motivo que as trouxe até aqui. Trata-se do mesmo incentivo que levam as grandes empresas para a Índia e China: a possibilidade de exploração de mão-de-obra barata.

Não por acaso, a Azaléia sofre das mesmas denúncias que a Foxconn, responsável pela fabricação de tablets da Apple, ou seja, a de produzir mercadorias com base num regime de semiescravidão. Na Bahia, uma só máquina mutilou cerca de 80 trabalhadores, o que acarretou num processo contra a empresa, em que seu advogado chegou a dizer que os trabalhadores intencionalmente se mutilaram para conseguir indenizações e que eles eram os culpados pelos próprios acidentes.

O capital, apesar dessas personificações que contribuem para sua reprodução desumana, é um mecanismo cego que vai atrás de massas humanas dispostas a venderem sua força de trabalho abaixo do padrão civilizatório aceito para aumentar a taxa de lucro. Em algum momento, elas estiveram na periferia nordestina brasileira do capitalismo. Hoje, estão em outro lugar e é para lá que ele vai, como a própria Vulcabrás/Azaléia comprova abrindo uma filial na Índia, como fizeram a Gerdau (líder na produção de aços longos na América Latina) e a Stefanini (maior multinacional de tecnologia do Brasil), para citar dois grandes exemplos.

O comercial da Vulcabrás protagonizado por Leonel Brizola é o emblema de como ficou ultrapassada a estratégia de uma esquerda empenhada na modernização, como se a questão fosse fortalecer a produção nacional que seria a base para a soberania do Brasil. Esta estratégia acabou com o século XX, hoje já não é mais possível aos países periféricos serem de primeiro mundo, a própria base produtiva oriunda da Terceira Revolução Técnico-Científica não está ao alcance de todos. Além disso, a produção hoje é estruturalmente transnacional, de tal modo que a ação estatal-política se reduz a fornecer incentivos cada vez maiores para atrair investimentos. O Brasil já não tem mais para onde evoluir em termos histórico-econômicos, ele se tornou aquilo que o sociólogo Chico de Oliveira chamou de Ornitorrinco. Isto é, o atraso brasileiro possui uma funcionalidade sistêmica global, ele já não é mais um estágio do qual é possível superar mas sim uma forma específica de desenvolvimento que compõe o quadro internacional de divisão do trabalho e de produção/distribuição de mercadorias.

Comecei esse texto mencionando a Petrobrás e a OGX porque a Vulcabrás/Azaléia participa do mesmo jogo especulativo mundial. Um dado: em 2001, a Azaléia estava dentre as cinco maiores empresas calçadistas do mundo, na avaliação do BNDES, em 2011, o valor de mercado da empresa era estimado em quase 2 bilhões de reais; em meados de 2014 não passava de 365 milhões. Como se explica essa queda absurda do valor de mercado e diminuiçãodo número de trabalhadores? Certamente não será compreendida na chave do capitalista mau caráter, gorducho e de cartola ávido por dinheiro, aliado com o governante pelego.

 ***

O projeto societário do capitalismo foi o de expulsar massas humanas do campo para a cidade, monopolizando o uso dos recursos naturais a seu favor, na direção da exploração de sua força de trabalho em grandes espaços de produção, como a indústria. Sua promessa era de que, em torno da fábrica, iriam se constituir outros espaços de relações de troca favoráveis a todos, além de um conjunto de instituições sociais, tais quais escolas, hospitais, prisões, enfim, todo um espaço urbano-industrial.

No interior dele, os trabalhadores lutariam por melhores condições de salários, fazendo progredir a ordem moral da sociedade, bem como ampliando seus direitos e, assim, a democracia. Esta promessa harmoniosa já não é mais possível na atual fase do capitalismo, onde ele dispensa força de trabalho sem diminuir sua taxa de lucro, criando uma massa supérflua, que literalmente sobra e inunda as prisões, os hospitais, as periferias etc.

Nestas condições, o Estado economicamente se transforma em mero “administrador de crises”, pois procura atrair investimentos quase que aleatoriamente, no estilo “quem pegar, leva”; socialmente ele se transforma num “gestor da barbárie” porque precisa lidar com essas massas que sobram por meio de políticas sociais, como o bolsa-família, e mecanismos de repressão violenta, como a polícia e as prisões.

A narrativa esperançosa do Governo do Estado de Sergipe é a de que alguém ocupará o lugar deixado pela Azaléia. A esquerda, no entanto, precisa ter a coragem de afirmar que ninguém mais ocupará esse lugar e que talvez seja a hora de construir a possibilidade de uma sociedade para além das indústrias, para além do trabalho, para além da economia.

Desprovidas de trabalho, estas massas estão despossuídas do principal objeto que lhes permite o acesso aos bens sociais necessários: o dinheiro. Na sociedade capitalista, a sociabilidade é realizada por meio de uma coisa – o dinheiro – e não por meio de alguma qualidade social ou valor moral (ser humano portador de direitos fundamentais, p. ex.). Esta coisa, no capitalismo, assume propriedades humanas, possui a qualidade humana por excelência (ser sociável); os sujeitos, por sua vez, se coisificam, isto é, existem como seres sociais somente por meio de uma coisa (o dinheiro). O capitalismo produz a todos nós como “sujeitos monetários”, isto é, sujeitos cuja inscrição social passa necessariamente pelo dinheiro, quer queiramos ou não, apenas acessamos aos bens sociais por meio do dinheiro, desde uma pequena garrafa d’água para matar a sede até um lençol para dormirmos à noite.

Contudo, estes sujeitos supérfluos que sobram à margem do atual modo de produção de mercadorias são, tragicamente, “sujeitos monetários sem dinheiro”, isto é, estão desprovidos daquilo que lhe possibilita a realização da sociabilidade, em termos concretos, a aquisição de bens necessários a sua subsistência. Eles procuram no mercado informal, precarizado e temporário, formas de conseguir dinheiro para se manterem vivos. No entanto, muitos já não conseguem nem se inserir neste mercado informal.

A esquerda não pode mais se resumir à classe trabalhadora, precisa pensar a partir daqueles que foram expulsos da sociedade capitalista. A cada demissão em massa, a cada fechamento de uma fábrica, é o contingente dessa massa supérflua que aumenta. Ela é a tendência do atual estágio do capitalismo em crise estrutural: aqueles que trabalham serão cada vez menos; aqueles que não trabalham serão cada vez mais, tanto os que não possuem trabalho formal com direitos adquiridos quanto os que nem nesse âmbito precário e informal conseguem se inserir.

É muito otimismo analítico-político crer numa racionalidade interna do sistema capitalista onde aqueles que saem do trabalho fabril-industrial migram todos para o trabalho precário-informal. Há massas que sobram, não há mais como fechar os olhos para isso. Já basta o ideário neoliberal cujo discurso defende que há espaço para todos no sistema capitalista e qualquer exclusão produzida se deve, no fim das contas, a uma ineficiência empreendedora dos sujeitos.

Gostaria de finalizar propondo mais uma reflexão ampla. Existe um desarranjo interno ao capitalismo: produzir valor e riqueza requer exploração de força de trabalho na forma de grandes massas humanas. No entanto, devido à concorrência, os capitalistas vencem sobre outros na medida em que empregam novas técnicas e tecnologias que possibilitam produzir mais mercadorias, em menos tempo e com menos uso de força de trabalho. No centro do capitalismo, é a tecnologia de ponta que significa a vitória sobre a concorrência, trata-se daquilo que Marx chamou de “mais-valor relativo”; na periferia do capitalismo, no entanto, a concorrência também pode ser vencida por meio do “mais-valor absoluto”, isto é, exploração de força de trabalho por aumento da jornada de trabalho, atualmente também pelo regime de trabalho brutal.

Pouco a pouco, nem as massas dispostas a serem brutalmente exploradas serão rentáveis ao capitalismo, pois ele não necessita mais delas para se auto reproduzir. Com isso, toda uma esquerda a favor do trabalho colapsa. Pois o próprio trabalho se torna não mais o princípio regulador da sociabilidade capitalista, mas o privilégio de poucos que, para defender tal privilégio, podem inclusive se voltar contra outros trabalhadores e desempregados. E, então, o que fazer? Continuar a apostar – com partidos, sindicatos, centrais sindicais, política institucional etc. – na impossibilidade de que todos tenham trabalho?

A nível nacional, o declínio da Petrobrás é um sintoma do fim do ciclo de crescimento econômico do Brasil, mas também da semiperiferia, isto é, também da China, por exemplo. Vale lembrar do reajuste do Bolsa Família ficou abaixo da inflação ou da manobra envolvendo o superávit para garantir as obras do PAC. O arranjo político-social ancorado num crescimento econômico como sustentáculo de políticas sociais está se desfazendo, batendo no seu limite. Desta forma, o que nós, da esquerda, teremos a propor quando o bolsa família ou o PAC, por exemplo, não forem mais financiáveis? Estaremos nós, juntos “criticamente”ao PT, para defender o bolsa família que dá uma renda mensal para que estes “sujeitos monetários sem dinheiro” realizem suas necessidades básicas? Se assim for, teremos perdido de uma vez por todas a capacidade de pensar e agir para além do capitalismo e, principalmente, de propor alternativas.

A nível estadual, a saída da Vulcabrás/Azaléia denota também o sinal de uma crise mais ampla, com efeitos de barbárie visíveis para aqueles que foram expulsos do processo produtivo e são obrigados a se lançarem no mercado informal, em cujo interior já não cabe todo mundo. São acontecimentos diante dos quais o silêncio e a incompreensão não estão disponíveis para a esquerda, se ela ainda deseja ser o polo a partir do qual a mudança social emerge.

*Leomir C. Hilário é colaborador da REVER e doutorando em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

2 comentários sobre “A atual crise do capitalismo e seus efeitos em Sergipe: o caso da Vulcabrás/Azaléia

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