Nem deu tempo de se iludir: como novo governo de Dilma Rousseff já começou à direita

Joaquim Levy, o novo Ministro da Fazenda e ex-diretor do Bradesco. Um nome para não deixar dúvidas.
Joaquim Levy, o novo Ministro da Fazenda e ex-diretor do Bradesco. Um nome para não deixar dúvidas.

Pela quarta vez consecutiva a eleição do candidato do Partido dos Trabalhadores não simboliza coisa alguma. Já podemos dizer que não é uma guinada à direita, mas apenas o programa do partido sendo aplicado?

*Henrique de Oliveira

Após vencer umas das eleições mais disputadas desde 1989, tendo 3 milhões de votos de diferença, a candidata Dilma Rousseff (PT) venceu o candidato do PSDB Aécio Neves. Em mais uma eleição polarizada entre PT e PSDB, a vitória da candidata petista garantiu o 4ª governo federal consecutivo ao Partido dos Trabalhadores.

 Durante a sua campanha eleitoral a candidata do PT acusou a candidata Marina Silva (PSB – REDE) de querer entregar a economia brasileira para os banqueiros, pois, Marina defendia a autonomia do Banco Central na política monetária do país. Dilma também não poupou o candidato Tucano de querer frear o aumento do salário mínimo, aumentar os juros e reduzir o papel dos bancos públicos na economia. Segundo a candidata do PT,”O PSDB plantaria juros para colher inflação”.

 Utilizando uma retórica de Esquerda, com imagens saudosistas do tempo que Dilma participou da luta armada contra a Ditadura Militar e o slogan “coração valente”, no segundo turno das eleições o PT conseguiu aglutinar ao seu redor setores da Esquerda Socialista, Movimentos Sociais e os setores mais progressistas da sociedade, efeitos que conseguiram garantir a vitória eleitoral.

 A campanha eleitoral de Dilma se pautou em defender uma política de maior participação do Estado na economia, garantia de direitos trabalhistas, ampliação dos gastos públicos e dos programas sociais. Era uma candidatura que se colocava em contraposição as forças do retrocesso, representadas pelo PSDB e REDE. Mas após a reeleição, as medidas políticas tomadas por Dilma colocaram por terra todo o discurso progressista assumido na campanha eleitoral.

 Uma das primeiras medidas tomadas após a reeleição foi o aumento dos juros. No dia 30 de Outubro a taxa de juros saiu de 11% para 11,25%  e no dia 4 de Dezembro uma nova alta da selic para 11,75%. Durante a sua campanha Dilma acusou Aécio Neves (PSDB) de querer promover um aumento dos juros. Porém, os aumentos consecutivos dos juros tinham a intenção clara de atingir os investidores e rentistas, traduzindo para o economês jornalístico, os aumentos tiveram como objetivo “acalmar os mercados”.

 Mas o aumento dos juros diminui os investimentos em produção, a rentabilidade para as aplicações pressionam a entrada de dólares no país, o que causa a sobrevalorização do real, barateando o dólar e favorecendo as importações dos produtos chineses, resultando em aumento da concorrência, diminuição dos empregos e desindustrialização.

 Em um cenário econômico que aponta ser de dificuldade, de aprofundamento da crise do capitalismo no Brasil, onde o discurso do governo é a contenção dos gastos públicos, aumentar 0,75% na Selic gera uma despesa financeira de 15 bilhões ao governo.

 Dentre outras medidas combatidas por Dilma na campanha eleitoral, mas que foi aplicada pela mesma após a reeleição, foi à redução do papel dos bancos públicos na economia. O ex Ministro da Fazenda Guido Mantega anunciou que reduzirão os empréstimos realizados pelo BNDES. Outra medida de caráter liberal e privatista tomada pelo governo é abrir o capital da Caixa Econômica, o que significa na prática um lento processo de privatização de um banco público. [VI]

 Durante o processo eleitoral Dilma acusou Marina Silva de querer entregar o futuro da economia e da vida dos brasileiros aos banqueiros, porque a candidata Marina defendia em seu programa a autonomia do Banco Central. Mas, na montagem ministerial, Dilma procurou o presidente do Bradesco para ser Ministro da Fazenda, mas Luiz Carlos Trabuco Cappi recusou a proposta da presidenta para assumir o Ministério. 

 Não contente, a presidenta continuou a procura por um homem ligado ao capital financeiro para gerir a economia, e o escolhido foi Joaquim Levy, também do Bradesco. Duas coisas supostamente contraditórias marcam a escolha de Joaquim Levy. Primeiro, Joaquim Levy em 2006 foi contra a política de reajuste do salário mínimo, quando era Secretário do Tesouro Nacional. Segundo ponto, Joaquim Levy colaborou na elaboração do programa eleitoral do PSDB.

 A presidenta prometeu que nem que vaca tossisse iria mexer nos direitos trabalhistas, no entanto, semana passada o governo mudou a regra de acesso ao seguro desemprego. Para ter acesso ao primeiro pedido de seguro desemprego o trabalhador vai ter que ter 18 meses de trabalho com carteira assinada, e não mais 6 meses, e para a segunda solicitação o trabalhador deverá ter contribuído por 12 meses ao INSS. A perspectiva do Governo Federal é economizar 18 bilhões de reais com a previdência social. Economizar dinheiro retirando direitos dos trabalhadores.

 A pergunta que não quer calar é: A Vaca que tossiu era Friboi? Já que a JBS foi uma das maiores financiadoras da campanha eleitoral de Dilma.

 Após passar as eleições inteira dizendo que os outros candidatos queriam tirar dos trabalhadores para entregar aos banqueiros, a candidata reeleita faz a mesma coisa, retira direitos trabalhista, promove cortes no orçamento para aumentar o superávit primário e repassar verbas públicas para as mãos dos banqueiros e rentistas, pagando os escandalosos juros da dívida pública.  O Governo Federal parece não está contente em ter repassado no ano passado, 42% do orçamento público para o pagamento de juros da dívida pública, o que contabilizou 1 trilhão de reais.

 Para 2015 o orçamento aprovado reserva 47% para o pagamento dos juros da dívida pública, uma “bagatela” de 1,356 trilhões. Entre 2011 e 2013 o governo Dilma pagou 2 trilhões de reais com os juros da dívida pública, fazendo assim, uma das maiores transferência de renda da história do país, só que retirando dos pobres e entregando aos ricos.

 O que estamos vendo desde a confirmação da reeleição de Dilma até agora, não é uma concessão à Direita realizada pelo PT, mas sim a apresentação do real programa de governo que estava escondido durante as eleições. Se enganou, quem acreditou que após receber 318 milhões de reais durante as eleições, dinheiro vindo diretamente dos grandes empresários, a candidata do PT iria fazer uma inflexão pela Esquerda e atender as demandas dos trabalhadores. Essas medidas tomadas por Dilma demonstra o aprofundamento da “americanização” da política brasileira, onde PT e PSDB cumprem o mesmo papel que cumprem Democratas e Republicanos nos EUA. Na aparência são oposições, mas na essência estão vinculados ao mesmo projeto de hegemonia dos grandes grupos econômicos.

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