A “austeridadezinha” da ortodoxia petista

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Governo iniciou o ano com uma avalanche de medidas duras para atenuar os efeitos de uma crise vindoura. E claro, quem vai pagar, como de costume, são os trabalhadores

*por Sérgio Domingues, no Pílulas Diárias

Dilma “capitulou diante das pressões do mercado, assim como os líderes europeus e uma parte do PT”. Esta afirmação é do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, em entrevista publicada no Valor, em 16/01. Palavras insuspeitas, pois partem de um dos mais de 1.300 economistas que assinaram um manifesto em favor da reeleição da petista.

Belluzzo refere-se especificamente à nova equipe econômica do governo reeleito e aos ajustes por ela anunciados. Para ele: “Essa ideia de que vai se fazer dois anos de ajuste parece que não tem dado certo no mundo. Vamos fazer uma ‘austeridadezinha’, e aí a gente sai dela em dois ou três anos. Mas ninguém menciona o fato de que enquanto dura uma recessão vai se devastando a vida das pessoas“.

Antes de Beluzzo, a Fundação Perseu Abramo já havia divulgado um documento afirmando que Dilma adotou uma estratégia “bastante conservadora e ortodoxa na política econômica”. Para quem não sabe, a fundação pertence ao PT.

Mas houve quem aprovasse. É o caso de Edmar Bacha, ex-integrante do governo Fernando Henrique e um dos criadores do Plano Real. Em entrevista ao Valor, publicada em 14/01, o teórico tucano ultraneoliberal elogiou a nomeação de Joaquim Levy e as primeiras medidas anunciadas por ele.

Mas, para Bacha, Dilma não tem a credibilidade dos tucanos para ir adiante. De qualquer modo, vontade de mostrar esse tipo de serviço não falta aos petistas que comandam o País.

Salário mínimo, neoliberalismo e cara-de-pau  (publicado em 09/01)

Dilma desautorizou seu Ministro do Planejamento a alterar os critérios de reajuste do salário mínimo. Muita gente comemorou a atitude, temendo mudanças para pior. Mas as atuais regras de correção já prejudicam os mais pobres.

Os critérios em vigência foram adotados no governo Lula. Eles preveem reajustes do Mínimo equivalentes ao crescimento do PIB de dois anos antes, mais a correção da inflação.

Em primeiro lugar, o salário mínimo diz respeito ao que os trabalhadores precisam para viver dignamente, não a quanto são capazes de produzir.

Em segundo lugar, já seria um grave erro vincular a remuneração dos explorados à produção controlada pelos exploradores, em qualquer economia capitalista. Em um país que tem uma das maiores concentrações de renda e patrimônio do mundo, trata-se de um crime social.

Os governistas dirão que houve um considerável crescimento da capacidade de compra do Mínimo nos últimos 10 anos. É verdade. Mas os atuais 724 reais estão bem distantes dos mais de R$ 3 mil defendidos pelo Dieese. Além disso, somente em 2014 seu valor real ultrapassou o de 1983.

Ou seja, em plena expansão econômica mundial, levamos mais de uma década para recuperar os patamares salariais de trinta anos atrás. Mas como alegria de pobre dura pouco, já se anuncia que o salário mínimo deve subir 50% menos nos próximos 4 anos devido à queda do PIB.

Resumindo, à diferença entre um PIB monstruoso e um patamar salarial vergonhoso, chama-se superexploração. E ao atrelamento do salário mínimo à produção capitalista, dá-se o nome de neoliberalismo. O resto é cara-de-pau e Bolsa-Família.

E nesse mesquinho campeonato de ortodoxia neoliberal, Beluzzo é quem tem razão. Vai sobrar para a maioria pobre e explorada, seriamente ameaçada por mais uma onda de devastação econômica e social.

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