Bairro Industrial de Aracaju e o conflito entre a história e o ‘desenvolvimento’

Igreja_shop
Projeto de grande shopping center no histórico Bairro Industrial de Aracaju tem gerado polêmica por ameaçar patrimônios históricos da capital sergipana 


*por Daniel Martins e Jennifer Cristina
(
artes de Daniel Martins)

Há mais de 50 anos a rotina de Bernadete (hoje com 87 anos) era acordar cedo e se dirigir ao galpão da Sergipe Industrial para mais um dia de trabalho em uma das fábricas mais antigas do estado. Naquele tempo, em que muitos sergipanos ainda trabalhavam no campo, com ferramentas rudimentares e roupas comuns, ser funcionário da indústria era um sinal de status entre os moradores do bairro.

Bernadete, porém, jamais imaginaria que um dia a Sergipe Industrial seria demolida para dar lugar a um novo símbolo de desenvolvimento econômico. O que para alguns é sinal de progresso, para outros pode ser a perda da memória histórica de Aracaju, conforme destacou o professor de História da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Antônio Lindvaldo Sousa, em carta aberta ao Conselho de Cultura de Sergipe.

O Aracaju Parque Shopping chegou ao Bairro Industrial já transbordando pretensão em seu projeto arquitetônico. E não só pela responsabilidade assumida de revitalizar a zona norte da cidade. Mas também porque será o primeiro shopping de Aracaju a apresentar um projeto inovador e ousado, que pretende garantir os valores étnicos, culturais e religiosos da população. A sede da Paróquia São Pedro Pescador, que fica situada quase ao centro do terreno do shopping, será restaurada e mantida pelo empreendimento

No entanto, nem todos estão satisfeitos com a forma com que os seus proprietários têm tratado os patrimônios históricos da região. O professor Sousa, do Departamento de História da UFS, se opôs à demolição da antiga sede da Sergipe Industrial para a construção do novo shopping. Na carta aberta ao Conselho de Cultura de Sergipe, ele declarou que a fábrica estava entres os bens culturais que representam a memória e história de Aracaju e que tombá-la era “um ato de valorização da identidade aracajuana e sergipana, contribuindo para alicerçar a ideia de que existe história de Sergipe em Aracaju e não somente em São Cristovão e Laranjeiras.”

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Uma trajetória de constantes mudanças

Como muitas comunidades aracajuanas, o Bairro Industrial começou de forma quase espontânea. Esse processo é explicado pelo professor Antônio Carlos Campos, do Departamento de Geografia da UFS: “Aracaju foi uma cidade criada por decreto, mas não planejada, como muitos imaginam.” Inicialmente chamado de Maçaranduba e também de Chica Chaves, o bairro surgiu no final do século XIX, a partir da Colônia de Pescadores e das vilas de operários das fábricas instaladas na região. Com a falência do setor têxtil, afirma Campos, muitos dos terrenos antigamente utilizados pelas fábricas foram vendidos para loteamento ou passaram por ocupações, como a da chamada Favela da Matinha, na parte norte do bairro.

O cenário se modificou com o passar dos anos. As velhas fábricas deram espaço às residências e vieram projetos de valorização das belezas naturais do bairro, como a Orlinha do Bairro Industrial, inaugurada em 2003. Segundo dados da prefeitura, ela está entre os locais turísticos mais frequentados da capital. A orla conta com uma vista privilegiada do Rio Sergipe e da Ponte Construtor João Alves, que ligou a Barra dos Coqueiros ao centro da cidade e trouxe visibilidade ao que passaria a ser a nova essência do Bairro Industrial: o comércio.

Com a crescente valorização da Barra dos Coqueiros após a construção da ponte, era de se esperar que o mesmo ocorresse ao Bairro Industrial. De acordo com a arquiteta e urbanista Renata Dantas, especialista em relatórios de impactos, a implantação de grandes empreendimentos, como um shopping center, induzem o crescimento urbano local e a especulação imobiliária. Esses fatores trarão para a região uma sobrecarga da infraestrutura. Ela reforça ainda que o crescimento do bairro e de toda a localidade trará para o comércio local a possibilidade de ampliação e valorização dos seus serviços.

Já na opinião do professor Campos, os pequenos comerciantes do bairro devem ser prejudicados por não conseguirem acompanhar a economia acessória ao shopping. Isso deve provocar mudanças drásticas no perfil dos moradores para os próximos anos. “A população não impõe mais o perfil do mercado, o mercado é que impõe o perfil da população”, diz ele. E com o surgimento de prédios acima de quatro andares, que já são uma tendência no Bairro Industrial (o próprio terreno ocupado pelo shopping inicialmente serviria para um condomínio do tipo), essa população também deve aumentar. Um crescimento acompanhado por possíveis problemas, como o aumento da criminalidade, destaca Campos.

No que diz respeito aos impactos causados à infraestrutura no local, um empreendimento desse porte tende a aumentar os problemas de tráfego. Segundo a arquiteta, é necessário a realização do Relatório de Impacto de Vizinhança (RIV) ou Relatório de Impacto de Circulação (RIC). Medidas na fase de obra para amenizar a alteração no ambiente sonoro, qualidade do ar, do solo, da água, desconforto ambiental e tráfego, são alguns dos itens desses relatórios. Eles fazem uma análise prévia da situação do trânsito local, a situação futura com estimativa de crescimento local e a junção do tráfego estimado. Nesses relatórios não são considerados somente os automóveis, mas também os ciclistas, pedestres e usuários de transporte público.

Para o professor do Departamento de Geografia, o Plano Diretor de Aracaju, que deveria regulamentar essas questões, não funciona porque está desatualizado (os códigos em que eles são baseados são de 1966) e não é bem fiscalizado. O que orienta os empreendimentos na cidade são apenas os estudos de viabilidade econômica, como o Guia de Oportunidades para Investidores da FIES. Há ainda um cálculo da Associação Brasileira de Shopping Centers, que considera a proporção de um shopping para cada 200 mil habitantes (Aracaju tem cerca de 600 mil) como suficiente para o atendimento de toda a população, completa o professor.

Enquanto muitos aspectos sobre o futuro do Bairro Industrial com a chegada do aglomerado comercial ainda são desconhecidos, as obras seguem, e a entrega do Aracaju Parque Shopping tem previsão para 2016 (saiba mais). E assim, aos poucos, os registros daquele tempo em que indústrias pioneiras cresciam na cidade e davam nome à própria região passam a sobreviver apenas na memória de pessoas como Bernadete, que viram a história acontecer e se desfazer diante dos seus olhos.

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12 comentários sobre “Bairro Industrial de Aracaju e o conflito entre a história e o ‘desenvolvimento’

  1. Acredito sinceramente que dá para conciliar nosso patrimônio histórico novas construções.Um país sem memória também é um país sem história.

  2. O texto parece dar mais importância a algo sem vida, um prédio, que às pessoas. Lembrem que serão os mais pobres a serem empregados na lojas do futuro shopping. Tenho certeza que eles e suas famílias aracajuanas (muitas, possivelmente, do próprio bairro) não acharam esse incremento na renda nada ruim.

    1. A matéria não questiona a construção do shopping, o foco é a polêmica levantada pelo departamento de história da UFS. Assim como trará benefícios, trará também incômodos, mobilidade urbana.. dentre outros.
      Grata pela leitura!

  3. Aracaju é uma jovem cidade de apenas 160 anos. Natural que o novo possa ocupar os espaços deixados por estruturas ultrapassadas ( a antiga fábrica de tecidos ) Importante a preservação da igreja, mas, não se pode, em nome da preservação histórico cultural frear o desenvolvimento.

    1. Concordo plenamente. A matéria tenta esclarecer até que ponto esse desenvolvimento deve ser levado adiante. Por isso a preservação da igreja dentro desse ‘desenvolvimento’. Concordamos que o shopping dará visibilidade para o local, mas também causará transtornos de mobilidade, dentre outros. Grata pela leitura!

  4. Certo. Não foi uma boa ideia apelar para o imaginário de uma pessoa, que está prestes a morrer, daqui pouco tempo. Ela tem história no bairro? Sim. Entretanto, humanos morrem, prédios se reinventam. O grande desafio de prédios históricos em centros urbanos emergentes é se manter, e isso, meu caro, somente com registros e museus. Sou a favor da construção, acredito que trará inúmeros benefícios tanto para o bairro quanto para Aracaju, quiçá Sergipe, tanto econômica quanto socialmente. E sim, importo-me com patrimônio, desde que ele não “atrapalhe” o desenvolvimento da cidade, pois ela precisa crescer. A região era alvo de muitos assaltados, além de sede para consumo deliberado de drogas. O patrimônio histórico deve ser mantido, mas a criminalidade, não, né? Como lidar com isso, sem projeto arquitetônicos, já que as políticas públicas não estão surtindo efeito? Neste âmbito, o melhor que se pode fazer é tornar a paróquia um museu que resgate a “memória” do bairro, dentro do shopping. Proposta arriscada, porém inovadora. Vale o fel, para colher o mel.

    1. Em qual momento da matéria, há posicionamento contra a construção?!
      Creio que você deve aprender a ler e interpretar melhor.
      Você sabe o que é jornalismo literário ?!
      Okay! Lendo um pouco você terá noção do que é apelo pelo imaginário de um antigo morador e o que é uma fonte com relevância e relação com o bairro.
      Grata pela leitura!

  5. parabéns à revista Rever,me senti duplamente contemplado com essa matéria.Como estudante de História e aluno do professor Lindvaldo me senti muito feliz com a discussão dessa temática.No artigo do colega Alexis Azevedo intitulado:”160 anos de Aracaju:chega de vender a nossa cidade”.Havia externado justamente essa preocupação com a destruição do nosso patrimônio histórico.Palmas para os jornalistas Daniel Martins e Jennifer Cristina.

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