Chacina no Cabula: a reação que vem das ruas

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Foto: Léo Ornelas

 

Familiares, moradores do Cabula e militantes cobram justiça pelas vidas dos 13 jovens assassinados pela polícia

*por Alane Reis, publicado em Revista Afirmativa

Na tarde desta quarta-feira (11) militantes de movimentos sociais, moradores de comunidades periféricas de Salvador, familiares e vítimas de violência causada pela polícia, reuniram-se em protesto às vítimas da chacina do Cabula, ocorrida na madrugada do dia 6 de fevereiro. Na ação, uma guarnição da Rondesp (Rondas Especiais da Polícia Militar) matou 13 jovens com idades entre 16 e 27 anos.

A manifestação, organizada pela Campanha Reaja ou Será Mort@ – articulação de movimentos e comunidades de negras da Bahia – saiu da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), no Cabula, em direção a Vila Moisés, local da chacina, no mesmo bairro. Cerca de 300 pessoas acompanharam o ato. Chamava atenção a presença massiva de mulheres da Vila Moisés e Engomadeira – comunidade adjacente.

Manifestantes denunciam que a polícia militar tentou inibir a ação durante todo o percurso. “Os policiais seguiram rente, acelerando as motos atrás da gente. Provocando e falando misérias perto das pessoas”, conta J. S. Lopes, militante, que participou do ato. Hamilton Borges, liderança da Campanha Reaja, anunciava no megafone a cada tentativa de coação da polícia aos presentes.

Ao chegar na Vila Moisés, os manifestantes foram aplaudidos pelos moradores. Os mais destemidos juntaram-se a manifestação. Muitas pessoas usavam máscaras com medo da retaliação policial. No campo de barro da Vila, local do crime, em meio a cápsulas de balas que ainda restavam no local, à emoção tomou conta da maioria das pessoas. “Eles (os policiais) atiravam nas costas dos meninos e depois chegavam no corpo e atiravam pela frente. Alguns foram espancados antes de morrer”, conta uma moradora, que por motivo de segurança prefere não se identificar.

As vítimas identificadas pela equipe da Afirmativa foram: Adriano Guimarães (21), Caíque dos Santos (16), Everson dos Santos (26), Bruno Nascimento (19), Ricardo Sila (27), Natanael Costa (17), Vitor Araújo (19) e Tiago das Virgens (19). Seus nomes, e os de outros mortos em ações policiais foram chamados pela multidão: “Davi Fiuza, PRESENTE!, Nego Blue, PRESENTE!…”. Os parentes aos prantos. E o tipo de cena que faz de uma repórter menos profissional e mais humana. Os manifestantes fizeram um apelo ecumênico por paz e Justiça. Rezaram o Pai Nosso, a Avemaria e rogaram por Xangô, Orixá da Justiça.

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Foto: Léo Ornelas

Entenda o caso

Segundo a Secretaria de Segurança Pública da Bahia, a polícia recebeu uma denúncia de que uma quadrilha se preparava para assaltar uma agência da Caixa Econômica Federal, na região do Cabula. A guarnição da Rondesp em serviço se deslocou ao local descrito na denúncia e foi recebida a tiros pelos supostos assaltantes. O suposto confronto entre nove PMs e 30 suspeitos armados com pistolas, revólveres, espingardas e bananas de dinamite, deixou o saldo de 13 jovens mortos e cinco feridos. Um policial, o sargento Dick de Jesus, foi atingido de raspão na cabeça e já passa bem.

Governador incita violência e ilegalidade

As opiniões do governador Rui Costa (PT) e do secretário de segurança pública daBahia, Maurício Barboza, sobre o caso tem causado espanto. O governador comparou as mortes dos jovens a gols, e os policiais a artilheiros. “É como um artilheiro em frente ao gol que tenta decidir, em alguns segundos, como é que ele vai botar a bola dentro do gol”, comparou. A declaração foi feita na manhã do dia 6, durante a coletiva de apresentação da Operação Paz e Folia, para o carnaval. O governador foi aplaudido por centenas de policiais presentes na cerimônia.  O secretário Maurício Barbosa também defendeu a ação da PM. “A polícia deve agir com rigor, deve ser dura. Lógico, sem ser arbitrária. Mas atuando com firmeza”.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo divulgou no dia 6 uma nota repudiando o comentário do governador da Bahia. “Lamentamos a extrema ignorância e grosseria das declarações do Governador Rui Costa. Ignorância porque desconhece os índices de criminalidade de seu estado que estão entre os piores do Brasil: 36,1 homicídios por 100 mil habitantes. Quatro vezes pior do que São Paulo”, diz a nota.

A Anistia Internacional também divulgou em nota que o caso mostra indícios de execução sumária e que nos últimos meses tem recebido denúncias sobre a “abordagem abusiva” da Rondesp, com relatos de uso excessivo da força e desaparecimentos forçados. “A declaração do governo incentiva ainda mais a postura desastrosa da polícia. Os fortes indícios de execução sumária, aliados a declaração do governador, nos deixa muito preocupados”, afirmou Alexandre Ciconello, assessor da Anistia Internacional.

“A comparação das mortes com um jogo de futebol denota o caráter que esse governo tem, mas isso não é novo. A idéia de comparar nossas vidas a jogos também está no baralho do crime e na cartilha de tatuagens”, explica Hamilton Borges, sobre outras ferramentas “divertidas” usadas pela SSP, disponíveis ao publico através do site da secretaria. “O governador instituiu na Bahia o Estado de direito penal. Deu autorização pública à polícia para matar. Precisamos retornar à legalidade”, completa o militante.

Os militantes da Campanha Reaja reuniram-se com o secretário de Justiça, Diretos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia, Geraldo Reis, na tarde desta terça-feira (10), para exigir um posicionamento do governo. Dentre as exigências estão: uma nova perícia para o caso – já solicitada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o fortalecimento dos programas de proteção a vítimas e testemunhas, o fim das revistas vexatórias em presídios e o combate aos grupos de extermínio em atuação na Bahia. O secretário Geraldo Reis garantiu que todas as mortes serão investigadas.

Muitos moradores contestam a versão da polícia. Uma testemunha que afirma ter visto toda a ação conta que os jovens estavam rendidos. “Os meninos estavam reunidos quando foram cercados pelas viaturas. Foram espancados. Alguns morreram de costas, com as mãos na cabeça”, relatou uma senhora. A versão é confirmada por outros moradores da Vila Moisés.

A Policia Civil divulgou em nota, no dia 10 de fevereiro, que apenas dois dos 13 mortos na ação tinham antecedentes criminais. A informação contradiz a versão inicial da PM, largamente divulgada pela mídia baiana, de que a maioria dos jovens eram fichados por tráfico e assalto.

A Campanha Reaja

A Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto, impulsionada pela Quilombo X – Ação Cultural Comunitária, é uma campanha pela paz e a favor da vida, que desde 2005 atua nacional e internacionalmente, contra a brutalidade policial, pela causa antiprisional e pela reparação aos familiares de vítimas do Estado. O grupo pretende iniciar um núcleo de ação na Vila Moises e Engomadeira para acompanhar os casos de intimidação e brutalidade.

Defensores sob ameaças

 Hamilton Borges conta que os militantes da Campanha Reaja vivem sob constante ameaças. “Desde a 1ª Marcha (contra o genocídio do povo negro, realizada em algumas capitais do Brasil, em agosto de 2013) venho sofrendo ameaças. Minha casa já foi invadida, militantes nossos foram presos. Dois foram mortos. A policia diz que não há autoria dos crimes. Ano passado um comandante do 18ª batalhão do Pelourinho me abordou e fez falas de intimidação. Esta semana, alguns de nós recebemos ameaças pelo Whatssap. Me tornei uma pessoa odiada pela corporação policial da Bahia. Nós, a Anistia Internacional, a Front Line e a Justiça Global solicitamos a minha inclusão e a dos demais membros da Reaja em programa de proteção a defensores de direitos humanos na Bahia. Nunca recebemos resposta”, desabafa.

 *Alane Reis é jornalista e membro da Revista Afirmativa

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