O maior problema no futebol… “A Remoção do Indivíduo”

SambaPublicação inglesa faz levantamento e avalia: racismo e sexismo no futebol andam lado a lado.  Rússia, próxima sede da Copa do Mundo, tem se mostrado conivente com intolerância nos estádios.

*por Copa90.com
tradução: Irlan Simões

Artur Grigoryant, diretor do comitê disciplinar da Federação Russa de Futebol, vem contestando com frequência os ataques da mídia internacional ao afirmar que jogadores negros que reagem ao racismo provocado por torcedores não são vítimas, e que deviam ser punidos, a exemplo dos eventos ocorridos com Christopher Samba [o jogador do Congo teria respondido às ofensas racistas de um torcedor ao sair de campo e foi repreendido por fazer um “gesto deselegante”].

Esses comentários ganham contornos mais graves considerando o contexto: nos preparativos para a Copa do Mundo da Rússia de 2018, um relatório da Fare network (http://www.farenet.org/) sobre a realidade do racismo no futebol russo apontou mais de 200 incidentes recentes de discriminação. Sepp Blatter [presidente da FIFA] em seguida se dirigiu à imprensa “Estou ciente do relatório. Obviamente estamos preocupados, definitivamente”. Uma resposta terrivelmente desanimadora – mesmo nos padrões de Blatter – para um relatório que para seu diretor, Piara Powar: “expõe uma imagem macabra de uma liga domestica que é repleta de aspectos de racismo e xenofobia”.

Evidências disso não são difíceis de encontrar, ao menos em registros.  Torcedores ingleses lembrarão quando o Manchester City jogou contra o CSKA Moskow com portões fechados, pela fase de grupos da Champions League em 2014, por conta da punição de três jogos imposta pela UEFA diante da violência e do racismo protagonizados pelos torcedores do CSKA pela Europa. O ex-jogador brasileiro Roberto Carlos se retirou do gramado em protesto numa partida em 2011, quando jogava pelo Anzhi Makhachkala. Após esse incidente, autoridades russas prometeram “eliminar o racismo”: o autor do ato racist foi preso e alegou que a banana teria caído próximo a Roberto Carlos por acidente, e que teria lançado “por raiva, não por racismo”. Ele foi liberado em seguida sem qualquer punição.

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Seu companheiro brasileiro, Hulk, também viveu um caso semelhante após se tornar o primeiro jogador negro a atuar pelo Zenit St Petersburg. O maior grupo de torcedores do clube, Landscrona, publicou uma carta aberta afirmando que jogadores negros estavam sendo “empurrados goela abaixo” e que “jogadores gays não são dignos para nossa grande cidade”.

É fácil acreditar que o futebol britânico deixou para trás esse tipo de atitude reprovável, mas o registro recente de torcedores ingleses em Paris prova que, apesar dos avanços conquistados nos últimos 30 anos enquanto uma sociedade do futebol, o racismo continua a arranhar a nossa cultura torcedora [O caso em questão trata de torcedores do Chelsea que impediram um francês negro de entrar num vagão de metrô aos cantos “nós somos racistas, nós somos racistas e amamos isso”, parodiando um clássico cântico dos estádios ingleses].

O final dos anos 1970 e o começo dos anos 1980 foram um período excepcionalmente tristes no futebol inglês. Paul Canovile – o primeiro jogador negro do Chelsea – foi alvo de agressões racistas por seus próprios torcedores enquanto aquecia para sua estréia contra o Crystal Palace em 1982. Frank Sinclair, que posteriormente jogaria no próprio Chelsea, revelou que tinha apenas nove anos quando assistiu essas cenas nas arquibancadas: “foi terrível, sendo a minoria e assistindo aquelas agressões… após viver isso como um garoto ainda na escola cheguei ao ponto de pensar que não gostaria de estar ali”.

Cyrille Regis, um ídolo do West Brom do mesmo período de Canovile, também viveu agressões parecidas: torcedores entoavam sons de macacos sempre que tocava na bola, bananas eram arremessadas em sua direção da torcida e quando foi convocado para a seleção inglesa – seria até então o terceiro negro a jogar com a camisa inglesa em alto nível – Regis recebeu uma bala de revolver com um recado anexo: “se você pisar no gramado do Wembley [maior estádio da Inglaterra] vai receber uma dessa entre seus joelhos”.

Paul-Canoville

Enquanto a maioria absoluta dos torcedores do futebol moderno se sentiriam enojados e horrorizados com esses caso de racismo, é fundamental reconhecer que a relação que isso tem com o tratamento dado às mulheres no jogo nos dias de hoje. Um registro recente mostrou a médica do time principal do Chelsea, a doutora Eva Carneiro, sendo abusada por torcedores na beira do campo do Old Trafford. O Manchester United – assim como o rival Manchester City, cujos torcedores foram protagonistas de outras cenas de opressão – negou o ocorrido e se negou a agir diante do assunto. Já o Chelsea teria confirmado que isso está longe de ser um caso isolado e que, infelizmente, não é difícil de acreditar.

Eva-Carneiro

Com o número crescente de mulheres trabalhando no futebol, essa é uma luta difícil. Uma pesquisa da “Women in Football”  na temporada passada apontou que mais de dois terços das mulheres que trabalham no futebol já foram vítimas de sexismo e 89% delas declarou que não denunciou por medo de não serem levadas a sério.

As reações diferentes diante do racismo e sexismo nos estádios de futebol, sem dúvidas, são causadas pela escassez de mulheres envolvidas no jogo.  Jogadores negros foram parte central do futebol britânico por décadas e esses pioneiros, que não foram expulsos pela ignorância de alguns torcedores, pavimentaram o caminho para novas gerações que podem jogar futebol com certa liberdade.

O mesmo não acontece às mulheres. Sian Massey-Ellis, a juíza que foi alvo da misoginia de Andy Gray e Richard Key em 2011 ainda é uma das únicas três mulheres no apito na liga. Doutora Carneiro é apenas uma dentre uma pequena quantidade de mulheres trabalhando no futebol. É difícil imaginar que mulheres que vão a jogos de futebol – sejam elas nossas amigas, irmãs, mulheres, namoradas ou mães – sentirão alguma diferença tal qual o jovem Frank Sinclair teria se sentido nas arquibancadas do Chelsea – escanteado e intimidado por uma cultura futebolística encardida pela ignorância e ódio de uma minoria vocal.

Racismo, sexismo, homofobia – todas essas atitudes tem como objetivo a mesma coisa: a remoção do indivíduo. Esses “-ismos” não existem isolados no futebol, e são um produto inevitável da sociedade em geral. Mas torcedores de futebol e instituições podem ser uma poderosa força de mudança e reeducação, começando pelas arquibancadas.

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