160 anos de Aracaju: Chega de vender nossa cidade!

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Desde sua origem, passando pela industrialização com o setor têxtil e a ocupação dos bairros, a cidade vai se modelando de acordo com as demandas do empresariado

*por Alexis Azevedo de Jesus (Pedrão)

Mais um aniversário da nossa querida Aracaju. Esse é o período de festas, comemoração, homenagens das mais diversas e bonitas. Faz parte da tradição. Mas não seria tempo, também, de se fazer um profundo balanço sobre o passado, presente e futuro? Pessoalmente, sinto essa necessidade. Penso que as comemorações não devem servir para ofuscar a nossa caótica realidade e as desigualdades sociais. Aracaju, com 160 anos, se comparada com outras capitais, é uma “jovem”. Mesmo assim passamos por problemas semelhantes às mais antigas. Comemorar o aniversário da cidade, no momento atual, nos convida a discutir e propor. Trago então uma contribuição para o aniversário da cidade que cresci e construo minha vida.

Pelos noticiários, pelas denúncias das organizações dos trabalhadores e da juventude, conversando com as pessoas nas ruas, identificamos os principais problemas. Ausência completa de política cultural, de moradia e de creches, alto índice de violência urbana, perseguição aos feirantes, taxistas alternativos e professores/as, postos de saúde deficientes, venda de áreas verdes, sem contar os escândalos dos abusivos aumentos da passagem de ônibus, do IPTU e dos casos de repressão da guarda municipal. Alguns desses problemas antigos, outros criados pela gestão do prefeito João Alves em conjunto com a maioria dos vereadores. Para completar, com a chegada das chuvas, a defesa civil já está em alerta e as comunidades mais carentes de saneamento básico se preparam para enfrentar a inundação das casas. Nesse cenário não é absurdo questionar se temos mesmo o que comemorar.

O mais interessante é que na “jovem-velha” Aracaju, em sua última campanha eleitoral, uma falsa polararização também ocorreu entre a “experiência” e o “novo”, materializada nas campanhas de João Alves e Valadares Filho. Falsa porque não representavam dois projetos distintos, vide financiamento e apoio do empresariado sergipano para as duas candidaturas. O “experiente” e o “novo”, que na verdade eram faces da mesma moeda política duramente criticada meses depois nas grandiosas jornadas de junho, se “confrontaram” e hoje temos mais uma prova concreta de que a experiência de idade ou gestão não significa sob nenhum aspecto garantia de que a cidade funcione bem, em especial para a classe trabalhadora. Aracaju está tão ruim quanto na época da prefeitura de Edvaldo. Porque, vale lembrar, Valadares Filho perdeu, não por ser jovem, mas por representar a continuidade de um projeto rejeitado pela população após os 12 anos desde a vitória de Déda em 2000.

O fato é que, independente dessas disputas políticas a cada quatro anos, a nossa cidade não pertence a nós. Pertence aos empresários. Esse é o problema central. No mercado do Augusto Franco falta box para os feirantes que trabalham há 20 anos, mas tem espaço para donos de restaurantes. As construtoras que financiaram as campanhas sorriem felizes com a construção de prédios de forma indiscriminada e sem um plano diretor para impor limites sociais e ambientais. O empresariado do transporte foi mantido e ainda trouxeram os parceiros da Itamaracá/Atalaia de Recife, sem licitação. A Alma Viva tem isenção fiscal e a Torre segue intacta como parceira da prefeitura, mesmo tratando os garis de forma desumana. A Coroa do Meio e a Zona Norte, no ritmo que segue a especulação, daqui a um tempo não terão mais áreas verdes. A reforma do muro de contenção na 13 de julho virou um aterro e um calçadão deve nascer no local. Os funcionários de escola e a merenda foram terceirizados garantindo o lucro do empresariado, mesmo que isso precarize os salários, as condições de trabalho e a qualidade da alimentação.

Assim, os políticos não passam de representantes de interesses privados e não da coletividade. A prefeitura tem funcionado como um balcão de negócio. Não importa se com Edvaldo perdoando dívida da UNIMED e reduzindo impostos para o SETRANSP, mesmo que isso implique diminuição da arrecadação, ou se com João Alves contratando o escritório de Jaime Lerner e a empresa Vitória Transportes de Suzana Azevedo. O que interessa é que os políticos garantam no prazo dos seus mandatos que a cidade continue refém dos diversos grupos empresariais. Embora seja tentador o discurso das parcerias público-privadas e a união do setor público e do setor privado para o “bem de todos”, devemos tomar cuidado com o canto da sereia, pois o público – o atendimento dos direitos básicos da população – só tem acumulado derrotas nesse formato. O problema de João Alves, portanto, não é de gestão, é estrutural. Fosse Valadares não seria muito diferente. Fazer oposição aos políticos dissociando do empresariado é uma discussão parcial que deposita erroneamente esperanças nas eleições e não na luta cotidiana da população. Discutir o futuro da cidade resumindo o nosso papel ao voto é um erro e um desserviço ao avanço de consciência.

Iniciativas como a do Movimento Não Pago que afirma em suas palavras de ordem que “transporte não é mercadoria”, o “Sarau De Baixo” que ocupa o espaço público “sem ingresso” ou a Revista Rever que busca uma comunicação contra-hegemônica, para ficar em alguns exemplos, trazem à tona o debate da desprivatização e do protagonismo popular. De maneiras diferentes são jovens que parecem compreender  que o futuro de Aracaju depende da disputa frente aos “políticos tradicionais”, mas também à burguesia local. Embora os bem remunerados intelectuais da classe dominante disseminem a idéia de que não existe mais classes sociais, o trabalhador aracajuano sabe muito bem quem é o seu patrão ou que o Tamandaré, o Santa Maria e o morro do Santos Dumont nunca teve qualidade de vida nem bonitos cartões postais como na 13 de julho e no Jardins.

Se considerarmos que Aracaju passou a existir como capital justamente por interesses econômicos da elite, tendo em vista que não havia estrutura nenhuma quando da mudança de São Cristóvão para cá, percebemos que o problema da supremacia dos interesses privados nos levam longe. Desde sua origem, passando pela industrialização com o setor têxtil e a ocupação dos bairros, a cidade vai se modelando de acordo com as demandas do empresariado e não das necessidades sociais. Tem sido uma constante que a cada eleição apenas se aprofunda. Fica então a minha sugestão de presente. Que nestes 160 anos, tomemos a cidade em nossas mãos. Vamos às ruas sem medo de dizer: Aracaju é nossa! Chega de vender nossa cidade!

*Alexis Azevedo de Jesus (Pedrão) é mestrando em Educação pela UFS e colaborador da Revista Rever

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