Quando olhamos para o buraco sem fundo e enxergamos água límpida

protesto

É como se o país estivesse em êxtase moralizante, e agora nascem todos os dias paladinos anticorrupção, cuja principal noção política é: “o PT fodeu o país”

*por André de Souza

O problema é quando olhamos para um buraco sem fundo e achamos que vemos água límpida e parada, pronta para ser colhida com um mínimo movimento de roldanas conectadas a baldes e cordas. Engano comum. Pois é da própria natureza da vida humana comunitária que os problemas não cessem de aparecer. Não há fim, assim como não há soluções o suficiente. Cada galgar é um retomar, um renovar, e a ilusória escada sempre faz com que caiamos como recém-andantes em face ao devir histórico. Falta a consciência de nossa meninice. Com ela, viria a abertura e a liberdade, mas não é o caso. Pelo contrário, estamos paralisados pelos ossos da velhice, e o pior, uma velhice precoce, como se tivéssemos nascido com artrite, e a falta de fluidos é igual à nossa incapacidade de libertar o fluxo do real das cercas da imaginação projetiva. Projeta-se o imaginário, e assim esquecemos do real.

Essa experiência parece estar na base dos movimentos que vêm surgindo no Brasil. Não se enxergam os problemas reais, mas buscam-se soluções imaginárias para problemas de mentira. Essa é a característica das manifestações (sejam passeatas ou mensagens de ódio no facebook) contra o Governo. Se compreende muito pouco acerca do funcionamento da política (a atual e a possível), que de maneira alguma está restrita à (in)visível publicidade (caráter do que é público) daquilo que aparece na grande mídia ou mesmo na letra de jornalistas ou opini(cães) mais ousados.

E qual o motivo disso? Artrite. Paralisados pela incapacidade de pensar, estimulada pela falta de experiência na coisa, a população (e hoje em dia, quase todas as classes) consome e regurgita ignorância, tudo isso sem sentir calafrios. Isso não significa incapacidade (ao menos essa é a minha esperança), pois às vezes é preciso somente uma topada para que comecemos a fazer conexões tão longas quanto vertiginosas. Mas é que qualquer coisa é sempre condicionada por outra, e essa artrite possui uma história longa. Isso quer dizer que a vontade ou a falta dela como centro da ação humana não abrange todo o problema, pois a vontade é condicionada. Isso não significa que vivemos um destino emoldurante. Essa questão foi aberta há tempos pela filosofia e permanece a ferida: ao mesmo tempo em que somos determinados por condições exteriores, mesmo que criadas por nós, temos a possibilidade de experimentar a liberdade através da realização do novo.

Nesse sentido, somos uma comunidade de agentes determinada e que determina, mesmo que os resultados de nossas determinações sejam imprevisíveis e só possam ser conhecidos quando olhamos para trás. Só que, quando falamos em política, falamos de um território blindado, onde poucos têm acesso e, os que têm, não valem um peido de uma burra cega: o pior, não precisam valer. Essa blindagem estaria no cerne da necessidade de uma Reforma política que radicalize a destruição das contenções e a criação de canais para a vazão da informação, do poder decisório e da organização comum. “Necessidade”? Talvez nem tanto, pois o que vemos são pessoas que não prezam pela liberdade de atuar politicamente, mas unicamente pela transfusão de um vírus por outro. É uma espécie de menoridade, que não tem nada que ver com a meninice inerente aos assuntos humanos. Ela é caracterizada por uma dependência: alguém tem que fazer política no lugar de outros, e o ônus disso é a alienação do poder decisório: “escolho entre azul, verde ou vermelho, mas não me peça para criar uma paleta de cores”.

Talvez seja graças à essa dependência que o debate sobre a Reforma política deu lugar, aos poucos, ao ódio contra o PT. A grande mídia fez o favor de anular o ímpeto por uma nova política através de ficções cuidadosamente planejadas e altamente lucrativas. Essa crise não dói no bolso (ainda), dói na imaginação. É como se o país estivesse em êxtase moralizante, e agora nascem todos os dias paladinos anticorrupção, cuja principal noção política é: “o PT fodeu o país”. O palavrão serve para expressar a falta de noção, nada mais. Mas entremos na “brincadeira”: o PT não fodeu o país. Ele só ajudou (e ajuda) a foder. O país está sendo estuprado há centenas de anos. Os partidos são muitos, e além dos partidos, temos o judiciário, e além do judiciário, as grandes empresas nacionais, e além das grandes empresas nacionais, as internacionais, e os outros países, e além dos outros países: nós mesmos. Quer dizer, a política pode ser blindada, e isso é um problema, mas ela não possui fronteiras intransponíveis, e a responsabilidade é, em grau maior ou menor, de todos.

O problema está em que, por vivermos uma histórica blindagem política aliada à despolitização também histórica, não nos sentimos responsabilizados por nada, esquecemos que somos atuantes justamente porque não atuamos: esperamos. Só que aí vive um aparente paradoxo: a espera é uma atividade, não fazer nada. E aí mora a responsabilidade, somos responsáveis por não fazer nada. Esperamos em nossa ignorância e, enquanto isso, engorduramos nossas carnes com gordura de manteiga de pipoca até que uma história bem feita nos inflame ao ponto de irmos para a rua para provar a nossa ignorância diante de olhos petrificados pelo absurdo da coisa. Assim, a moviment(ação), quando chega, chega ensopada de burrice, pois agimos sem ter o costume de pensar, rebentos que somos da espera e da ignorância. Essa é a natureza do “fora Dilma”, do “impeachment já”: indignação cega por motivos ilusórios.

A estupidez, matéria da despolitização, se mostra na incapacidade de vislumbrar a realidade. Mas não só isso, se mostra na falta de memória e no conformismo, como se nunca aprendêssemos nada porque não existe preocupação alguma. Assim, passam ditaduras, passam FHC’s, passam PT’s e PMDB’s, passam Odebretch’s e Eike’s, e o cenário é sempre o mesmo. Porque só há movimentação, nunca mudança. O problema dessa incapacidade de vislumbrar a realidade pelo exagero da imaginação é só uma: o terror. O aumento das superstições e preconceitos em matéria de política, aliado, claro, à dimensão niilista da existência humana atual (que já dura algum tempo) tem um caminho que já experimentamos nas ditaduras, totalitarismos e fundamentalismos religiosos. Esse caminho vai dar no extremo autoritarismo, na intolerância e na morte, que, como estamos vendo, já se mostra nos horizontes dos asfaltos.

*André de Souza é colaborador da REVER e está sentido preocupado

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