Racismo, o que você tem a ver com isso?

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“Como fazer luta de classe sem compreender que o combate ao racismo deve estar na agenda do dia?”

*por Laila Oliveira

No último domingo, 22, aconteceu um tributo a mulher negra sergipana e militante, Rejane Maria Pureza, nascida no Dia Internacional do Combate ao Racismo, e símbolo de resistência devido a sua trajetória de combate ao racismo, a intolerância religiosa, na luta pela equidade de gênero e em defesa dos direitos das crianças e adolescentes.

A capoeirista e também fundadora do Abaô, deixou um importante legado para aqueles que com ela militaram, seu nome hoje foi emprestado a rua do bairro Getúlio Vargas, bairro onde Rejane viveu com sua família, e que no último domingo foi palco de lágrimas, cantos, danças, batuques e muita resistência de uma comunidade negra que não foge à luta.

Estamos vivendo um ano muito decisivo para a população negra, onde o extermínio da população negra e pobre está ganhando visibilidade com as denúncias, onde a campanha Reaja ou Será Morto volta com toda força, afinal, já foi campanha do movimento negro nos anos 90, onde pela primeira vez mulheres negras organizadas ganharão às ruas de Brasília numa marcha pelo combate ao racismo e pelo bem viver, considerando que a luta feminista precisa ser interseccional.

Diante de um cenário desolador para o povo negro, do silêncio institucional e governamental em relação a chacina no bairro Cabula no estado da Bahia, o silêncio em relação a morte de Claudia Ferreira, o desaparecimento de Amarildo, a prisão arbitrária de Mirian França e tantos irmãos e irmãs negras que superlotam esse sistema carcerário, eu me pergunto, como fazer luta de classe sem compreender que o combate ao racismo deve estar na agenda do dia?

Em 2014 completou 50 anos do Golpe Militar, ocorrido em 1964, e por todo o país movimentos sociais, partidos e organizações não governamentais organizaram atividades em alusão ao período mais tenebroso pelo qual o país já passou. Um período marcado por um regime ditatorial que gerou graves violações aos direitos humanos. Entre as pautas das atividades que marcaram os 50 anos estava a de conseguir retirar os nomes dos ditadores das escolas públicas e ruas e renomear homenageando lutadores do povo.

Se a nossa luta é também para pôr fim às homenagens aos ditadores, devemos reconhecer e fortalecer quando conseguimos resistir, quando uma rua leva o nome de uma mulher negra e militante, uma rua localizada em um bairro com o nome de um dos maiores ditadores. Diante do silêncio que parte da esquerda e dos movimentos sociais fizeram no Dia Internacional de Combate ao Racismo e a ausência na homenagem a Rejane Maria Pureza, será que esperam que o racismo seja combatido apenas por nós negrxs?

São reflexões que eu faço e que gostaria de estender para o conjunto da militância sergipana, porque se é na rua que a gente constrói os espaços de transformação, precisamos perceber que só vivenciando com quem está diretamente no combate, sentindo literalmente na pele todas as formas de violência é que conseguiremos ecoar nossas vozes.

*Laila Oliveira é jornalista e colaboradora da Rever

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