Mestre Bimba: de carvoeiro a educador

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Artigo do professor de filosofia, Cícero Cunha Bezerra, faz uma análise do livro: Virando o Jogo – Mestre Bimba: de carvoeira à educador

*por Cícero Cunha Bezerra

Estamos em plena terra

No chão firme arenoso e fértil

caminham os que do mar vieram

Corpos negros brilhantes como estrelas.

Estamos em plena terra

no céu, deuses dançam inquietos

os astros reúnem-se em forma de espera

tenso encontro de eras.

Estamos em plena terra

sob o sol amarelino

brancos, negros e índios

fazem dos seus corpos pedras

Estamos em plena terra

ferro e fogo forjam as calejadas mãos

que em ritmo maquinal rasgam o ventre do solo

plantam riquezas etéreas.

Longos dias e noites

separam a liberdade isabelina

da escravidão apátrida

de quem sem rumo vaga entre becos e vielas.

Da errancia, a lutada luta a dança

da dança o ritmo

do ritmo capoerança.

Esse bem que poderia ser um poema em forma de descrição de um percurso. Um ponto de partida, mas que também é chegada, é chegança, forma rítmica de embalar as palavras. Falar sobre Mestre Bimba não é tarefa fácil, nem muito menos sobre um trabalho de quatro anos de maturação e cultivo. Mestre Lucas, como bom discípulo da Regional, aprendeu a costurar o universal que deve reger os rumos de um trabalho acadêmico e o específico que são os “saberes” e “sabores” que circulam a paixão.

Felizmente, quem ginga sabe o compasso e Tavares, o pesquisador que tive o prazer de dialogar em alguns momentos sobre a capoeira como algo maior do que uma roda, apresenta-nos, hoje, um trabalho fruto de uma vida. Digo vida, porque esse livro que os leitores terão a oportunidade de ter em mãos, não é fruto de uma tese de doutorado somente. É a defesa de uma história que confunde autor e texto.

Mestre Lucas, herdeiro direto da linhagem de Mestre de Capoeira baianos discípulos de Bimba, como Itapoã, trás para os que se dedicam ao trabalho de preservação da história e para os que fazem do corpo instrumento de corporificação da memória, uma contribuição valiosa e estruturada em um aspecto pouco explorado da personalidade de Mestre Bimba, qual seja, o de educador antenado com as reformas sócio-educacionais que lhes circundavam.

O trabalho de Lucas tem como característica, ao contrário dos muitos já lançados, conciliar uma introdução à vida de Mestre Bimba, com uma panorâmica visão sobre os aspectos sócio-culturais da sua academia. O relato de alunos do quilate de Mestre Itapoã, torna o trabalho um memorial ou, melhor dizendo, um testemunho, por um lado, da personalidade austera e formadora do Mestre e, por outro, do revolucionário método de ensino, comparado por Lucas, ao radical e problematizador pensamento de Paulo Freire. Nesse sentido, ao lermos o trabalho de Lucas, não resta dúvida de que Mestre Bimba não jogava capoeira, ele era a personificação de um modo de vida tipicamente característica dos grandes sábios. A dos que faziam e fazem da sua atividade imagem do seu modus vivendi.

Vale ressaltar, também, o aspecto didático e introdutório à capoeira que o livro apresenta, ou seja, desde a origem do termo, até suas formas e especificidades em Estados como Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Um enfoque especial para o capítulo que trata do método de Bimba. Expressão de uma visão, que hoje chamaríamos de “formação continuada”; Bimba fez do ensino, seguindo, pois, a própria ideia que a palavra “método” possui, um “caminho” no qual a capoeira não é fim, mas o próprio caminhar. Sem perder a ginga, o aluno, graças a um clima de afetividade e acolhimento, dava seus passos rumo a uma vivência da capoeira em que mestre e aluno se fundem em uma “brincadeira” que não tem hora, nem tempo, é entrega e unidade.

Um aspecto importante, e que Luiz Tavares deixa bastante evidente ao longo do seu texto, diz respeito ao papel que o corpo desempenha enquanto veículo e agente que carrega consigo a memória viva dos seus gestos. Os gestos como bem observa Tavares, representam e revivem o passado. Passado que, no caso de Bimba, se funde com a voz da metrópole e reinventa o modo de ensinar e transmitir o conhecimento. A abertura que o Mestre realiza ao “colorir” o espaço da capoeira permitindo o acesso a qualquer indivíduo, independente de raça ou condição social, é, quiçá, o início de um movimento, mediante a capoeira, de desconstrução das diferenças e preconceitos tão almejado nos dias atuais.

Finalmente, ao comentar a estrutura do método criado por Bimba, Tavares nos brinda com uma introdução didática a aspectos poucos conhecidos do Centro de Cultura Física Regional, como o papel do batismo e da formação. Formação como transição em que os alunos, tendo alcançado o nível mais alto, participavam de uma grande festa de confraternização, mas também, de iniciação na qual a aprendizagem, dá lugar para a habilitação, momento impar para os que aí chegavam. A inovação do CCFR se deixa ver, principalmente, pela criação de fases mais avançadas de formação como é o caso do curso de especialização para o qual o Mestre escolhia alguns alunos já formados e mantinha a prática de aprofundamento que ocorria, parte na academia e parte nas matas e ruelas de Salvador.

A última parte do texto, baseada em entrevista a ex-alunos do Mestre, é reveladora no que se refere ao aspecto educacional e ético presente nos ensinamentos de Bimba. Nas falas dos sujeitos entrevistados, sobra elogios e, principalmente, referências ao caráter e firmeza com que o Mestre Bimba transmitia valores como o respeito ao próximo e às tradições e rituais contribuído, assim, não somente para a formação pessoal dos alunos, mas para a harmonia do bairro da amaralina, espaço no qual o CCFR se consolidou.

Finalmente, a linguagem em tons coloquiais, sem perder os limites do diálogo com as fontes bibliográficas, utilizadas por Tavares torna o texto um prazeroso e apaixonado testemunho de que o jogo da capoeira, além de uma atividade física, ou esporte, é compromisso com as raízes de um povo que, acima de tudo, fez do corpo o suporte das dores e das alegrias.

*Cícero Cunha Bezerra é professor do Departamento de Filosofia/UFS

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