Prostituição: degradação ou corpo livre?

prostituição

O ódio à prostituta é o ódio à mulher e à relativa liberdade que sexo demanda para se estabelecer

*por Isabela Moraes

Michelle Perrot afirmou certa feita que o corpo está no centro de toda relação de poder. A aparência de uma mulher, sua beleza, suas formas etc. são objeto de uma perpétua suspeita. Suspeita que visa o seu sexo. Enclausurá-la seria a melhor solução: em um espaço fechado, controlado, ou no mínimo sob um véu que mascara sua chama incendiária.

O corpo da mulher desde antes representa espaço de dominação. Quando a crença de que a reprodução dependia exclusivamente da mulher desapareceu, a sociedade migrou do matriarcado para o patriarcado, lançando a mulher a um papel secundário na sociedade. Sócrates afirmou certa feita que as mulheres não são inferiores ao homens, tudo do que precisam é um pouco mais de força física e energia mental. Teorizando que o corpo feminino é mais frágil que o masculino, os homens criaram uma narrativa de supremacia sobre as mulheres, não somente inferiorizando-as, mas também impondo-se como seus donos.

A prostituição serve a propósito de satisfazer homens que acreditam terem poderes sobre as mulheres, como as narrativas da História tecida pelos seus pares o fez acreditar.

Às mulheres foi negado quase tudo, desde o direito à voz ao direito ao pensar. A falta de instrução assomada à impossibilidade de trabalhar como faziam os homens legava as mulheres à condição de abandono; jogando o jogo dos opressores contra os oprimidos, ceder à lascívia masculina figurou como solução para fugir à miséria.

A prostituição feminina então historicamente contribuiu para a inferiorização da mulher? Não posso afirmar. Há eras ela sofre com a secundarização na constituição social, independente do espaço que ocupava, mesmo no seio familiar incorporava o silêncio e a sujeição.

Mesmo no século 19, era vitoriana, com espaços galgados e pequenos direitos conquistados dentro lar, seu corpo ainda era controlado por apertados espartilhos e roupas que impediam seu movimento, e até mesmo a autonomia para vestir-se.

Se por um lado recorrer à prostituição endossava o descaso do estado para com a mulher, por outro, em casos restritos ela significou um ato de rebelião. Na Veneza renascentista, por exemplo, as prostitutas galraram os altos escalões da sociedade, podendo dividir a cama com homens instruídos e graças à cultura de conhecimento oral aprender com eles. Ao mesmo tempo, essas mulheres eram as únicas autorizadas a adentrarem em bibliotecas, e se contassem com alguma noção da escrita, poderiam acessar o conhecimento contido nos livros. Esse é o caso, por exemplo, de Veronica Franco, cuja mãe também fora cortesã; ela recebeu uma educação nos limites que lhe eram permitidos, e com o livre acesso pelos espaços sociais, tornou-se poetisa, publicando e até editando livros. Graças à instrução e ao bom relacionamento com os homens que passaram por sua cama, conseguiu defender-se e livrar-se de uma condenação do Tribunal da Santa Inquisição sob a acusação de bruxaria.

Evidentemente, Veronica é um caso em que a prostituição ajudou a erigir uma vida prodigiosa, o que não era (nem é) uma regra no ramo.

A sociedade pós-moderna encara a prostituição feminina como degradante não porque põe o corpo da mulher a favor de uma indústria disposta a coisificá-lo, ou porque o estado negligencia-o, mas porque teme o sexo e a dicotomia que a cultura ocidental criou, forjando paradigmas antagônicos de mulheres.

A base da nossa visão a respeito do sexo está profundamente ligada à visão cristã sobre o prazer da carne. Na Antiguidade Tardia o cristianismo trouxe como principal novidade o link entre a carne e o pecado. O repúdio ao sexo era tamanho que alguns teóricos cristãos especularam que Adão e Eva teriam se reproduzido sem contato e prazer. Justifica-se o repúdio à carne sob o pretexto de que o corpo, do quadril para baixo, era um engenho do demônio. A castidade e a continência sexual eram pré-requisitos para a ascese do espírito. Como reação ao estilo de vida romana que sobrevalorizava o hedonismo, o cristianismo prega a pureza do corpo, conservando uma mistura de vergonha, medo e elevação espiritual.

Com o sexo associado à degradação do corpo, aprendemos desde antes a desprezar esse imperativo tão natural quanto respirar e comer. Quando a Igreja enfim removeu o véu de Eva sobre a mulher, dando-lhe a redenção eclesiástica pelo parto, a mulher do lar torna-se pura e casta. Em contrapartida, ainda que o sexo fosse algo abjeto, ele era considerado inerente à natureza do homem, que, para não macular a esposa virtuosa, direcionava seu desejo aparentemente torpe para uma mulher que não se incomodaria de comportar seus desejos caso fosse paga para isso.

Na Renascença e na Idade das Luzes a vigilância sobre o sexo recebe um relaxamento, e a sociedade volta a celebrar nos limites do casamento, e assim vamos internalizando as incongruências em torno do prazer.

No período vitoriano o véu moralizador volta a se estender sobre o sexo, dessa vez com o aval da medicina, que aponta a mulher como um ser sem apetite sexual, que concentra suas energias e interesses na vida caseira. Essa mesma sociedade forja como oposição à mulher casta e virtuosa, a devassa libidinosa, cuja função é saciar os ímpetos do marido alheio. Nessa mulher concentram-se todas as características negativas que no passado se aplicavam a toda e qualquer mulher, casadas ou livres. Com a sociedade criando e reforçando padrões tão antagônicos de mulheres, coube a prostituta receber o desprezo que não podia ser direcionado à esposa cuja virtude fora promovida à dignidade celestial. Daí a associação da prostituta à degradação física e moral.

Com a marginalização da atividade vem o descaso e a falta de assistência, o que implica em maior preconceito e intolerância desferidos à profissional. No início do século 19, por exemplo, as prostitutas eram consideradas uma ameaça social, uma vez que sobre elas recaía a pecha de disseminadoras de doenças venéreas.

Toda mulher deve ser livre para construir o seu espaço na sociedade, determinando ela mesma quem quer ser. Ser uma profissional do sexo não deve depender dos reveses da vida nem da negligência do estado, mas obedecer ao desejo da própria mulher. Ser prostituta como alternativa à miséria é uma afronta à liberdade feminina, mas ainda que ela seja impelida por contingências ou prostitua-se por um simples ato de vontade, a essa mulher a sociedade deve respeito.

*Isabela Moraes é estudante de jornalismo da UFS

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