Samba de Aboio: é tradição e o samba continua

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Revista Rever esteve no povoado Aguada, em Carmopólis, e registrou a festa do Grupo Samba de Aboio de Santa Bárbara, na semana santa de 2015

*por Geilson Gomes

Ao som do tambor marcante, do ronco da onça, do pandeiro estridente, da chocalhada dos ganzás e dos cânticos que falam da história do povo negro, todos os anos, no sábado e domingo da semana santa, moradores do povoado Aguada, localizado no município de Carmópolis, agradecem a Santa Bárbara as graças alcançadas com muita dança, comida, bebida e músicas contagiantes do Samba de Aboio – ritmo com largos traços de africanidade.

Conta-se que a história do Samba de Aboio teve início no tempo da escravidão e que a negra nagô Tamashalim Ecuobancker foi a grande idealizadora desta tradição. Foi ela que ao ver uma pedra achada pela sua neta, afirmou ser um raio caído enviado pela Santa, tornando-a em algo místico e adorada por muitas pessoas.

Logo de cara, percebe-se que o povoado é um quilombo. Que o som entoado é de raiz e que os negros que ali residem trazem consigo a marca histórica da cultura e resistência do povo africano, que, aqui no Brasil, foi aviltado de variadas formas. O Samba de Aboio é a prova desta ancestralidade viva e pulsante.

Além de Santa Bárbara os sambadores também homenageiam a princesa Isabel, por ela ter libertado os negros, em 1888.  A primeira roda de samba acontece na noite do sábado de aleluia.  Intitulada de “brincadeira”, essa roda é um preparo ou um ensaio do que vai ser tocado na linda festa do dia seguinte. Ainda no sábado, são servidos carneiro, boi, pirão, cachaça e vinho. Uma celebração essencialmente negra.

No domingo, na parte da manhã, acontece a matança dos galos e o banho de sangue na pedra adorada. Já pela tarde, os sambadores retomam a roda de samba na frente da casa de Santa Bárbara (antigamente a roda acontecia dentro do bananal) e assim toda a esfera vira um imponente terreiro.

O jeito de dançar o Samba de Aboio lembra muito a umbiguada, porém ela tem uma diferença literalmente visceral. Os dançantes realizam o bate-coxa, que é o encontro da coxa de duas pessoas, fazendo com que uma ou até mesmo as duas desabem no chão. Pra não machucar ninguém e a festa não parar, a roda de dança só acontece em um chão de terra fofa.

A negra Tamashalim Ecuobancker era de Angola e de lá veio também o Semba, estilo musical que deu origem a tantos outros ritmos, inclusive o samba.  Além da sonoridade, o Semba, provavelmente, exportou alguns traços da dança para o Samba de Aboio. Inclusive, Semba, na língua angolana, significa umbiguada.

Agora, o que mais cativou este que vos escreve foi a voz do Mestre José Francisco da Mota Assis. Com um vozeirão acentuado e maestral ele conduz a roda de samba com uma propriedade que só ele tem. Ao redor dele, o coro responde ao cheio que é puxado pelo grande comandante. O timbre dele tem tudo a ver com o batuque do tambor e do som que sai da onça. São complementares e insubstituíveis. Não me hesito em afirmar que, no universo do samba, foi a voz que mais me marcou.

Neste pequeno relato não há palavras que fale de fato o que aconteceu em Aguada na última semana santa. No mais, tentamos registrar em fotos e em vídeo aquilo que é difícil explicar – a aura, a essência do som e a singularidade do Samba de Aboio.  É uma singela contribuição para um samba que é grandioso, apenas por resistir.

Ao ver a participação da criançada e dos jovens na roda, tenho certeza de que a trajetória do samba continuará ainda por muitas gerações. Como diz o negro sambista Geraldo Filme, na música Tradição: “é tradição e o samba continua”.

Confira as imagens e o vídeo realizados durante o festejo:

*Geilson Gomes é jornalista e coordenador da Rever

Um comentário sobre “Samba de Aboio: é tradição e o samba continua

  1. Nossa, parabéns pelo artigo, eu, em nome da família Assis, e principalmente do meu avô Jose Francisco Motta de Assis, agradecemos a bela reportagem retratando cuidadosamente os mínimos delalhes dessa festa cultural.É muito bom saber que tem pessoas como vocês interessadas em saber da nossa cultura africana. Obrigada. Luana Assis, neta de José Francisco.

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