Caminhando com Galeano – por Carlos Pronzato

galeano

*Carlos Pronzato

Dizem que Galeano morreu ontem. Se isto é verdade, um imenso pedaço das nossas vidas, das nossas polvorosas estradas, das nossas veias latino americanas se foram com ele. Para quem percorreu este continente – principalmente por terra, tocando sua pele mestiça – nos anos 70 e 80 o clássico livro de Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América latina (1971), foi o companheiro inseparável, imprescindível e muitas vezes clandestino nas mochilas dos nossos diários de motocicleta.

Um guia da exploração econômica e exclusão social a que foi submetido o continente ao sul do rio Bravo durante mais de 500 anos e que ainda hoje exibe suas seqüelas. Galeano, desde o jornalismo desta obra monumental, galgou imediatamente à literatura com a trilogia Memórias do Fogo (1982 a 1986), duas tentativas bem sucedidas de narrar a Historia da América latina na visão dos oprimidos. Alguma vez ele lamentou “que estes livros não tenham perdido atualidade”.

Outra vez ele contou sobre uma menina que vinda do interior do Uruguai chegou pela primeira vez ao mar e emudeceu. Então lhe disse ao pai: “Pai, me ajude a olhar”. Galeano, durante décadas nos ajudou a olhar, a interpretar, a sentir as dores atávicas da nossa América saqueada com as suas armas de escritor comprometido com seu tempo. Identificado com o socialismo sem pertencer a nenhum Partido e traduzido a mais de vinte idiomas influenciou como poucos o pensamento político de líderes e movimentos sociais latino americanos.

Também apaixonado por futebol, soltou uma frase lapidar sobre este esporte apaixonante: “Na vida, um homem pode cambiar de mulher, de Partido político ou de religião, mas jamais seu time do coração”.

Outra das suas famosas frases é sobre a utopia: “Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Por mais que caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar” Dizem que Galeano morreu ontem. Para mim, ele continua caminhando e a sua obra continuará nos ajudando a caminhar.


*Carlos Pronzato é cineasta, documentarista e escritor

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