Um abismo transponível

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Um abismo separa a vala comum da política

*por André de Souza

Um abismo separa a vala comum daquilo a que chamamos política. Esse parece ser um simples e reconhecível fato. Ele é assumido implicitamente quando pensamos em política como representação, quando legitimamos que alguns tenham a tarefa de representar outros. Bem dizendo, esse deveria ser um axioma para os teóricos/professores/estudantes/curiosos… Quer dizer, pensando bem, essa deveria ser uma sentença compartilhada por todos, quando falamos de política. Devemos partir do princípio de que a política é um jogo para poucos, que a maioria da população é alheia ao que de fato acontece nas casas (Congresso, Planalto, ministérios, tribunais… A comparação com casas não é desatenta: mais parecem famílias a decidir o que fazer com suas propriedades, membros, posições).

Um abismo separa a vala comum da política.

Olhemos para o abismo. E, se a olhadela for boa, acontecerá o que o filósofo diz acontecer: o abismo nos olhará de volta.

Pensemos, em política, nos códigos, em espaços ou coisas codificadas, cuja maioria não detém as cifras: código-lei, código-burocracia, código-licitação, código-contabilidade, código-partido, entre outros. Um artigo mais complicado, de uma lei específica, já é o suficiente para desarranjar a mente de um desavisado. A burocracia: abrir uma empresa, por exemplo, já é o suficiente para estressar um outro. O processo licitatório de um município pequeno: uma licitação para a construção de uma estrada: “cadê o dinheiro que estava ali?”. Uma lei orçamentária: “ai meu Deus! Que é que vão fazer com tanta grana?”. São espaços e coisas blindadas, codificadas por agentes codificadores. Nada é simples quando abrimos a Constituição. Decifrar esses códigos: tarefa pesada para quem tem mais o que fazer. Cabe à alguns privilegiados decifrá-los sem tê-los nas mãos, e esses acabam por cair em um mundo onírico, onde muito se diz e pouco se vê. Os que os tem nas mãos estão rindo à toa (é só dar uma olhada em um dia de uma votação do Congresso, na TV Câmara).

O que quero dizer, na verdade, é que o capitalismo, que surgiu e cresceu com a chegada da modernidade, está no pano de fundo das gerações de organismos-máquina complexos em cada país, organismo que comumente chamamos de política, que é quase completamente dissociado da vida daquelas pessoas comuns, inacessível porque composto de códigos. Esse organismo é composto por várias máquinas mais ou menos autônomas, que guerreiam e se aliam entre si. Em nível nacional: empresas de mídia, os três poderes, sindicatos, Exército, grupos de industriais, etc., que existem e se desenvolvem em consonância com os interesses dos seus membros.

Vamos à mídia, essa fábrica de esquecimento, como nos lembra Godard. Há uma diferença que eu considero gritante entre a mídia televisiva e a mídia de rede, na internet. Quando vemos televisão, a única ação que empreendemos é a troca de canais, de resto somos passivos. Toda informação que chega, chega por uma via só, de escoamento, que deságua no espectador. O espectador pode se afastar da TV e compartilhar o que viu, mas a narrativa segue tendo sido estruturada e expressa por uma empresa televisiva. Na internet acontece diferente, além de podermos procurar a informação que desejamos nas mais variadas fontes, de esquerda, de centro, de direita, ou em fontes que simplesmente não se encaixam nessa divisão, e além de podermos compartilhar essas informações (mesmo que não tão livremente como gostaríamos, como é o caso do Facebook), podemos, a partir dos nossos sentidos e com a capacidade de exprimi-los, adicionar novas informações à rede, bem como criar nossa própria narrativa a partir delas.

O que vejo, com o surgimento da internet, é o início da criação de narrativas-alternativas àquela da grande mídia, interessada em uma única coisa: lucrar e vencer – é o caso onde o fim determina os meios, e os meios de comunicação tradicionais não são somente “meios de comunicação”, mas também meios de aquisição. Com a internet, a finalidade-lucro deixa de ser a mais absolutamente importante, pois a competição não está circunscrita primordialmente nos limites da economia, e assim a qualidade e a multiplicidade das informações podem aumentar, o que já acontece. Esse texto que escrevo no meu momento e que você lê no seu momento é uma prova disso: quando veríamos um canal de TV falar em monopólio de informação? Em que canal ouviríamos a expressão “blindagem política” ou similar?

Código-narrativa que é máquina de produzir códigos, portanto. Parede de abismo. Através da criação de narrativas esdrúxulas e desconectadas com a realidade, a grande mídia segue separando, blindando a política da vala comum. Esse é fato hoje trivial para muitos, mas não custa nada atualiza-lo quando possível. Com a internet, a decodificação. E mais, a possibilidade de codificar: poder, portanto. Não é simples manter uma narrativa-alternativa, não é isso que afirmo, estou bem ciente das dificuldades em manter a subversão na internet, ou mesmo de presenciar o seu constante nascimento, ou ainda a falibilidade da relação internet-política. A internet também sofre os ditames de quem tem mais dinheiro, mas já é alguma (muita) coisa: blogs, sites institucionais, sites de compartilhamento das mais variadas coisas, de fotos à projetos 3-d, sites de notícia financiados unicamente por leitores ou fundações, programas de código-aberto (Linux e outros), rádios on-line, P2P, Popcorn Time, aplicativos revolucionários (o 99 Táxis é impressionante!).

Alguns nos ensinam que o poder-controle é algo muito mais difuso e disseminado do que costumamos pensar. Ele se desdobra em instâncias, obedece a hierarquias, exige a participação de muitos. E parece ser isso mesmo. Pois o poder-controle se dissemina nas palavras e nos espaços, tanto quanto nas ações. E, justamente por isso, não olhamos para um abismo intransponível. A internet é um exemplo de instrumento de um contra-poder, de um poder destituinte, decodificador dos códigos da grande mídia, capaz de começar a quebrar as categorias-códigos que regem esses espaços blindados, personagens do nosso abismo. A internet é empoderamento, mas, claro, não existe para todos. E ainda é mal utilizada. Cabe a todos naturalizar o seu uso político, e quem sabe assim se diluirá com água o gesso institucional. Ponte por cima do abismo: revelação de segredos, surgimento de discussões, enfrentamento, geração de novos códigos e decodificação de outros. Nem seria preciso dizer “se sintam à vontade! Apontem! Criem! Destruam! Exijam!”, pois já o fazemos, ou ao menos começamos.

Porém, quando pensamos no Estado, só o fazemos de fora, pois não há representação na política de uma, por assim dizer, não-política, e ela segue blindada, abismal. Ainda não há meios diretos de colocar as mãos no núcleo do organismo-máquina político. A imaginação desses meios ainda são delírios, mas muitos são daquele grupo dos que podem se manifestar no real. Só começamos a fazer cócegas na grande narrativa, isso aqui fora, quem dirá lá dentro. Para fazer doer vai demorar um pouco, se conseguirmos, e mais, se realmente quisermos. Enquanto isso, o foco comum se organiza em torno de códigos-partido, onde dualidades se concretizam nos discursos superficiais e desinformados, e o que é mais fundamental, a blindagem da política, segue sendo ignorada.

*André de Souza, direto da vala comum

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