“O barraco é uma obra de arte, por que não?”

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Pesquisa etnográfica realizada na Ocupação Nova Liberdade III resulta em instalação sobre vida, moradia e cotidiano 

*Por Priscila Viana

De dentro de um ônibus, entre uma rodoviária e outra da Grande Aracaju, o antropólogo e artista plástico Lorenzo Bordonaro passava pela BR-235 quando avistou a Ocupação Nova Liberdade III, localizada onde antes funcionava o antigo frigorífico de Aracaju. Professor de Antropologia em Lisboa – Portugal –, Lorenzo veio ao Brasil desenvolver seu projeto de Pós-Doutorado e atualmente leciona no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Estudioso das dinâmicas e produções culturais das periferias urbanas em países como Portugal, Guiné-Bissau e Cabo Verde, Lorenzo se interessou inicialmente pela configuração dos barracos ali construídos pelos moradores da ocupação.

“Sem em nada tirar as dificuldades estruturais, como se constrói um barraco? É uma habitação precária, sabemos disso. Mas o barraco é uma obra de arte, por que não? Faz parte de um saber-fazer humano, que é uma questão muito preciosa a ser estudada. Sempre me interessei pelas produções da periferia, das marginalidades e tenho estudado vários contextos. Nessa questão das dinâmicas culturais, é geralmente na periferia que os processos criativos mais interessantes acabam por acontecer em termos de produção cultural, musical, artística”, afirma Lorenzo, que também é diretor-artístico do coletivo Ébano.

O interesse de Lorenzo sobre a vida e o cotidiano dos moradores da ocupação Nova Liberdade III se transformou em uma pesquisa etnográfica exploratória realizada junto com os estudantes da disciplina Antropologia, arte contemporânea e intervenção visual, do mestrado em Antropologia da UFS. Durante cerca de seis meses, o professor Lorenzo e seis estudantes da disciplina do mestrado se aproximaram de algumas das pouco mais de 200 famílias que moram na ocupação Nova Liberdade III e registraram em fotografias a maneira como elas transformam o barraco em um lar, os objetos de uso cotidiano e os significados construídos a partir dessa vivência, promovendo um diálogo entre arte e antropologia que ultrapassa os muros da universidade.

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Estudantes do mestrado em Antropologia preparam exposição

“A gente acha que as pessoas que moram numa ocupação são diferentes, mantêm distância por medo ou por preconceito. Mas no final das contas o que percebemos é que são iguais a nós. São pessoas como nós, vivendo suas vidas como nós, que cozinham da mesma maneira, criam seus filhos, levam suas vidas”, afirma a mestranda Eline Limeira.

Horizontalidade

Antes mesmo de utilizar a máquina fotográfica como ferramenta de registro sobre o cotidiano dos moradores da ocupação, a sensibilidade e delicadeza no processo de aproximação são condições essenciais para que se reflita nas fotografias “o outro”. “Fizemos um exercício de olhá-los com horizontalidade. Muita gente, utilizando um neologismo, “coitadiza” essas pessoas, investem numa maneira socioassistencialista de se aproximar, geralmente buscando levar para elas o que não tem. É importante suprir a necessidade material, mas eu compreendo esses fenômenos como explosões de alguma forma de reivindicação, criatividade, capacidade de lidar com situações de extrema dificuldade, mesmo quebrando algumas limitações que a lei impõe. São pessoas que vivem em situação de extrema pobreza, mas têm capacidade de agência. Eu construo minha moradia, você constrói a sua, de acordo com os recursos que temos, são atos humanos como quaisquer outros”, explica Lorenzo.

Iniciada no final de 2012, a ocupação Nova Liberdade III não é coordenada por lideranças ou movimentos sociais, como costuma ocorrer em processos de ocupação urbana, o que tornou mais complexo o estabelecimento de uma relação de confiança. “O medo é um elemento muito presente entre eles e, junto com isso, o receio, a desconfiança, o que é compreensível levando em consideração que eles vivem em uma situação de ilegalidade e de resistência diante de agentes do poder que a qualquer momento podem expulsá-los dali de alguma forma. Então foi difícil convencê-los de que eu não era uma autoridade, um funcionário público ou representante de movimentos que lutam por moradia que passaram por lá e geraram desentendimentos. Mas agora estamos em um ponto de entendimento recíproco, inclusive algumas pessoas vão participar da inauguração da exposição e as pessoas com quem mais trabalhei ficaram entusiasmados”, complementa.

A instalação da qual resulta o trabalho etnográfico, “Nova Liberdade III – Fragmentos de vida, arte e etnografia”, será aberta nesta sexta, 15, a partir das 19h, no Centro de Cultura e Arte da UFS (Cultart).

cartaz

*Priscila Viana é jornalista.

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