Onde vão parar as Arenas?

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“O embate entre o Bahia e a Arena não foi um caso isolado, mas uma regra desde o princípio: muitos conflitos, falta de diálogo, imposição de contratos injustos dos consórcios aos clubes e principalmente prejuízo”

*por Irlan Simões, no A TARDE

As novas arenas multiuso para o futebol brasileiro não deixaram dúvida de que causariam grande impacto. Um novo modelo de consumo esportivo aterrissava com 12 exemplares do tão almejado “padrão Fifa” presente nos principais centros do futebol mundial.

Seus defensores exaltavam o papel que teriam na modernização e profissionalização das estruturas, valorizando o “produto futebol” como um todo e trazendo um novo paradigma de conforto e segurança. Seus críticos, por outro lado, dentre eles muitos grupos de torcedores ligados aos principais clubes brasileiros, apontavam o risco da elitização do público e o consequente esvaziamento das arquibancadas diante do aumento do valor dos ingressos, além do cerceamento das manifestações festivas das torcidas com a obrigação de ficar sentado.

Menos de um ano após a Copa, ficou latente sua incompatibilidade com a realidade socioeconômica do perfil majoritário do torcedor brasileiro. Os estádios estão vazios, os ingressos estão caros, os torcedores estão insatisfeitos e os clubes, finalmente, perceberam que é o momento da tomada de alguma decisão. Marcelo Sant’Ana, Do Bahia, fez uma das primeiras ofensivas aos consórcios gestores das arenas, quando ameaçou mandar jogos em Pituaçu diante da falta de diálogo. Mesmo que o valor mínimo de arrecadação assegurado pelo consórcio tenha caído de R$ 9 milhões para R$ 6 milhões, o clube comemorou novo acordo, o que nos leva a crer que a proposta inicial foi ainda pior.

A arrecadação total do Bahia no Brasileiro-2014 foi por volta de R$ 5,7 milhões. Algo como R$ 1,9 milhão foi entregue ao consórcio. Aos cofres dos clubes seguiu menos de R$ 1 milhão de toda essa cifra. Há de se considerar na responsabilização do poder público em cobrir metade do prejuízo do empreendimento, numa meta de lucro que estipulou que os jogos, tanto do Bahia, quanto do Vitória (que não joga na Arena), tivessem uma média de público de 27 mil pagantes. Algo irreal até para os maiores clubes brasileiros.

O embate entre o Bahia e a Arena não foi um caso isolado, mas uma regra desde o princípio: muitos conflitos, falta de diálogo, imposição de contratos injustos dos consórcios aos clubes e principalmente prejuízo. Esses novos atores econômicos e políticos chegaram metendo o pé na porta, urinando nas plantas, chutando o cachorro e abrindo a geladeira do futebol brasileiro. Basta consultar todos os outros 11 casos, além do particular caso do Grêmio.

Os “especialistas”

Amanhã, acontecerá em São Paulo o 4º Business FC – encontro dos promotores do futebol-negócio no Brasil. Uma mesa retomará o tema das novas arenas para se perguntar o que haveria acontecido de errado para as arquibancadas e os bolsos dos clubes estarem tão vazios. Serão os mesmos “especialistas em gestão e marketing esportivo”, executivos de futebol, diretores e presidentes de clubes, dirigentes de federações, jornalistas, comentaristas e diretores de redes de TV que, antes da Copa, exaltavam de forma tão excitada as novas arenas.

O balanço desses “especialistas” provavelmente apontará diversos culpados, menos a responsabilização deles mesmos enquanto grandes promotores de uma ideologia autoritária e fracassada de transformação do futebol em puro negócio, acima de suas representações sociais, seu peso cultural e sua importância na vida dos brasileiros. Nada se falará da revogação de concessões.

A lição que fica é que a diretoria do Vitória, apesar dos diversos problemas de acesso a seu próprio estádio, acertou ao ceder aos apelos da torcida para desistir da ideia de abandonar o Barradão. O Bahia, por sua vez, pecou em aceitar uma fórmula mágica que vinha embutida nesse novo modelo, esquecendo que futebol tem muito mais segredos que as ciências dos negócios julgam entender. Talvez esteja faltando um pouquinho de sociologia, antropologia, história e outras ciências humanas para pensar o futebol brasileiro.

*Irlan Simões  |  jornalista e pesquisador de futebol

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