A violência das “pessoas de bem”

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Repórter sergipano de programa policial “entrevista” homem morto

Linchamento de adolescente na Guatemala reacende o debate sobre a prática na América Latina

*por Priscila Viana

No último mês de maio, uma adolescente de 16 anos foi espancada e queimada até a morte por populares do município de Río Bravo, departamento de Suchitepéquez, na Guatemala. Cerca de sete dias depois foi divulgado na internet um vídeo com imagens cruas de um roteiro assustador e sem cortes que se inicia com sessões de espancamento e finaliza com um corpo carbonizado sob os olhos e gritos ensandecidos das “pessoas de bem” que se dizem indignadas com a violência.

De acordo com o jornal guatemalense Prensa Libre, a adolescente teria matado a balas um mototaxista de 68 anos porque ele teria se recusado a pagar uma taxa de “extorsão”, prática comumente realizada na Guatemala por grupos criminosos contra taxistas, mototaxistas e comerciantes. Ainda segundo informações da imprensa local, ela seria filha de um gângster que está preso por extorsão e que já ameaça vingar a morte da filha, revelando um ciclo de violência que, ao envolver extorsão, tráfico de drogas, cadeia e “justiça” com as próprias mãos, sinaliza nunca ter fim.

Poucos dias antes, a polícia bolivariana resgatou um professor que estava sendo enterrado vivo pela população de Caranavi, no departamento de La Paz, na Bolívia, que era acusado ter violentado sexualmente estudantes, entre eles uma criança de 10 anos. A constituição boliviana prevê a prática da chamada “justiça comunitária indígena”, preceito através do qual as comunidades têm o direito de decidir por penas alternativas para resolver conflitos de interesses e aliviar a pressão sobre os tribunais comuns, lentos e sobrecarregados.

No entanto, a “justiça comunitária” tem se transformado, na prática, em pena de morte, espancamentos públicos e outras barbáries, revelando um cenário político e jurídico semelhante ao de outros territórios: a recorrência de interpretações deturpadas acerca dos conceitos de “justiça”, “vingança”, “violência” e “punição”.

Entre os anos de 2013 e 2014, a prática do linchamento no Brasil ganhou mais visibilidade na mídia do que o usual, levando a opinião pública a acreditar que se trata de uma prática recente. No entanto, o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) contabiliza 1.179 registros de linchamento público entre os anos de 1980 e 2006, com destaque para a Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro – não por acaso, os Estados que abrigam os maiores centros urbanos do país.

Por outro lado, o noticiário internacional revela que o crescimento da violência e da “justiça com as próprias mãos” não é uma exclusividade do território brasileiro. Ao contrário, o aumento da fúria popular contra pessoas apontadas como criminosas que supostamente merecem ser torturados até a morte tem sido destacado em vários países do mundo, mas principalmente pela América Latina.

“Tribunal de rua” latinoamericano

Com uma taxa de cerca de 49 homicídios a cada 100 mil habitantes, a Guatemala figura como um dos seis países mais violentos do mundo e lidera o topo do ranking quando o assunto é linchamento na América Latina – somente no ano de 2011, foram registrados 234 casos de linchamento pelo Escritório da ONU para os Direitos Humanos no país. Além disso, entre 2011 e 2013, pelo menos 213 pessoas morreram pelas mãos dos chamados “justiceiros” no país.

Após a Guatemala, a Bolívia segue como a segunda nação onde se registra o maior número de linchamentos públicos – foram 190 mortes entre os anos de 2005 e 2013, segundo dados da Defensoria do Povo. Por outro lado, uma série de casos de linchamentos também têm sido registrados na Colômbia, a maior parte contra acusados de roubo – com agravantes similares aos registrados nos outros países: sessões de espancamentos seguidas de tentativas de incendiamento dos acusados pelo “tribunal de rua” instantaneamente improvisado.

No ano passado, os linchamentos tornaram-se uma das grandes preocupações do governo da Argentina, junto com o tráfico de drogas, principalmente após a ocorrência média de um linchamento por dia no mês de abril, segundo o jornal local Clarín, todos relacionados a pequenos crimes, como roubos.

Em meio a uma forte crise política no âmbito da segurança pública, a presidente argentina Cristina Kirchner teria afirmado, em pronunciamento oficial, que a responsabilidade pela proliferação dos linchamentos em várias partes do país seria de “políticos mentirosos e sem escrúpulos”, fazendo uma clara referência aos opositores de seu governo ligados ao partido peronista Frente Renovador, que por sua vez associam o crescimento da “justiça com as próprias mãos” à ausência de uma política séria de segurança pública.

A imprensa e o discurso de “tolerância zero”

 Para além dos discursos políticos de acusação pontual sobre “criminosos”, “culpados” e “justiceiros”, o linchamento enquanto prática popular e disseminada em diversos territórios com diferentes culturas e legislações revela aspectos significativos que envolvem a exposição cotidiana de setores específicos da população a violências de todo tipo e sua consequente naturalização – inclusive o abuso da violência policial – e o descrédito generalizado nas políticas públicas de segurança e no sistema judiciário enquanto mediador de conflitos sociais.

Por trás de todo esse emaranhado, os discursos de “combate à violência”, “falta de impunidade” e “tolerância zero” à criminalidade são impulsionados por veículos de comunicação ávidos por registros audiovisuais de corpos mutilados e depoimentos carregados de ódio.

No Brasil, os programas televisivos de “tolerância zero” têm crescido assustadoramente enquanto formadores de opinião e impulsionadores do ódio coletivo contra “aqueles que merecem morrer”. Em Sergipe, já se anuncia uma nova versão do já fatídico “Cidade Alerta”, que seria apresentado por ninguém menos que Gilmar Carvalho – cuja trajetória de sensacionalismo dispensa grandes apresentações.

Mas, diante da atuação de profissionais que têm como responsabilidade levar informações às residências e formar opinião, um questionamento se faz pertinente: qual o papel da imprensa no crescimento do sentimento de violência que permeia as relações sociais? Em todos os países da América Latina destacados no ranking da violência, as capas de jornais e a programação radiofônica e televisiva revelam a pauta do dia: sangue, morte, ódio, vingança, crime, violência. Um combo “perfeito” para conquistar audiência e vender jornais.

Há quem acredite em coincidências. Mas a ligação entre uma imprensa manchada de ódio, populações enfurecidas que “combatem” violência com violência e discursos oficiais de vingança camuflados de “justiça”, o fosso é apenas uma linha tênue. Se é que ele existe.

*Priscila Viana é jornalista.

Um comentário sobre “A violência das “pessoas de bem”

  1. Oi Priscila. Bacana o texto, esse fenômeno me inquieta e interessa em especial… Acredito que, apesar dos linchamentos serem prática muito antiga, há uma série de fatores novos e explosivos no contexto atual como você abordou… Agora a minha pergunta: por que, no que diz respeito a Guatemala, o diagnostico é de que a justiça comunitária é que se transformou em pena de morte, linchamento…? Abs.

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