Justiça de Sergipe proíbe entrada de torcidas organizadas nos estádios

policia jovem

Proibição já vale para o próximo jogo do Confiança contra o Vila Nova(GO) pela série C

*por Geilson Gomes

No meio da semana, os integrantes de quatro torcidas dos times Confiança e Sergipe receberam uma notícia nada agradável. Segundo informação veiculada no Portal Infonet, no dia 2 de julho, o Tribunal de Justiça de Sergipe (TJ/SE) proibiu a entrada das torcidas organizadas nos estádios. Já no dia 3, o cão de guarda da Justiça e dos que detêm o poder – a Polícia Militar (PM) – informou que já estão estruturando uma força tarefa para barrar o “bonde fardado”.

Quem já foi para um estádio sabe que os torcedores das organizadas fazem questão de mostrar sua bandeira, sua camisa e toda sua participação no ambiente do futebol. Antes mesmo das partidas, já tem bondes, facções e comandos nas ruas. Daqui a dois dias vai rolar o jogo Confiança x Vila Nova (GO), no Batistão, pelo Campeonato Brasileiro da C, e já tem torcedores do Vila na redondeza. Dando um rolê na quebrada. Como dito antes, não é difícil reconhecê-los.

A proibição, conforme a decisão do TJ, vem para punir as torcidas que não realizaram a regularização dos torcedores como determina o tacanho Estatuto do Torcedor. O Estatuto exige que as torcidas cadastrem todos os seus membros, fornecendo RG, CPF, fotografia, endereço, profissão, entre outros. Tal exigência tem o objetivo de prevenir violência em dia de jogo. Como se toda violência entre torcidas acontecesse em dias de jogos ou nos estádios. Como se toda violência fosse praticada por torcedores organizados. E pior, como se torcida organizada fosse sinônimo de cafua, baderna e crime.

Uma situação parecida aconteceu em 2013, quando as torcidas Trovão Azul, Torcida Jovem do Confiança e a Torcida Esquadrão Colorado foram impedidas de entrar nos estádios por 30 dias. Engraçado que a criminalização é sempre a saída, ao invés de se pensar medidas coletivas e socialmente referendadas.

Entendo as organizadas como um movimento social. Elas têm pautas que reivindicam direitos públicos, levantam suas bandeiras e têm membros organizados que fazem trabalho de base, chegando em lugares que o estado está ausente. Sendo elas aparelhos privados de hegemonia, disputam com sua organização uma sociedade que garanta o seu direito de se agrupar e se manifestar livremente.

Em maio deste ano, torcedores (alguns deles nem eram de TO´s) do Vitória, insatisfeitos com a atuação e gestão do clube, realizaram um protesto na Toca do Leão contra os dirigentes e foram agredidos por policiais, que, como vemos em outros atos, possivelmente não se identificaram. E essa violência, é fundamentada? E as agressões que acontecem nos baculejos sofridos pelos torcedores organizados?

Infelizmente, uma grande parte da esquerda não enxerga isso. Caso ocorresse uma determinação semelhante a um movimento social camponês ou urbano, certamente haveria uma grande movimentação para barrar esta medida.

Considerando as TO´s como um movimento social, por que a justiça exige que elas cadastrem e disponibilizem os dados dos associados para o estado/ polícia? Porque o estado burguês, racista e sanguinário escolhe bodes expiatórios para justificar sua incompetência de enxergar os problemas sociais em sua essência. É assim que acontece com os pobres e negros das periferias, para justificar a violência e o tráfico nas favelas e é assim com as organizadas para justificar a violência no futebol.

De acordo com o tenente da PM, Paulo Paiva, a decisão ainda não chegou na corporação, mas logo que isso for definido, a polícia fará uma ação pra barrar qualquer objeto das torcidas, inclusive instrumentos musicais. Aí faço uma pergunta: se um torcedor levar um boné ou uma camisa intocada e lá dentro ele estampar, tal torcedor vai levar pau? Vai ser preso? Pra mim, os dois.

Aí que tá outro grande problema. Um dos papéis das torcidas nos estádios é de mostrar sua força, seus símbolos e seus cantos. Ainda mais quando do outro lado está uma torcida rival. É o que vai acontecer no próximo jogo do Confiança. A torcida do Vila, que não é mole não, vai botar seu bonde e ela não se bate de jeito nenhum com as torcidas do azulino. Provavelmente, ela também não tem essa regularização exigida pelo Estatuto do Torcedor. Será proibida de entrar também? Ou essa medida só vale para as torcidas sergipanas?

Se essa criminalização vem para afastar o torcedor dos estádios e acabar com a violência entre torcidas, digo uma coisa: não surtirá efeito. Time sem torcida é como um paciente com morte cerebral, que vive dependente de aparelhos externos ao seu corpo. Ele pode até existir, mas não terá uma “vida”.

Sem dúvida, na próxima segunda as torcidas do Confiança não irão se esconder. É difícil, digo quase impossível, de mudar a cultura das torcidas de um dia pro outro. E se caso role pau, que seja entre as torcidas juntas contra os inimigos em comum: o estado, a injustiça e a PM. Isso sim não é impossível de acontecer algum dia. Por mais que pareça.

* Geilson Gomes é jornalista e come futebol com farinha

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