O sangue é o tempero

#20_20150721_REDUÇÃOMAIORIDADE

Sarau Debaixo chega à 20ª edição transformando revolta em poesia e fazendo da rua o palco da arte

*por Priscila Viana

São vinte meses ocupando o palco inferior do principal viaduto da cidade de Aracaju. Uma grande encruzilhada onde se convergem histórias de vida anônimas entre si: trabalhadores indo e voltando na sua labuta diária, policiais que dependem da violência pra pagar as contas, mães procurando seus filhos, moradores de rua carregando em seus corpos as marcas da exposição ao espaço urbano, motoristas de ônibus e táxis que levam milhares de vidas aos seus destinos todos os dias, ambulantes seguindo com seus carrinhos na contramão do trânsito economicamente permitido, crianças que desde pequenas já sabem cada tonalidade da cor vermelha.

Nesse mar de gente que se encontra a todo o momento em uma encruzilhada como qualquer outra, há mais em comum do que se pode imaginar: o sangue que se move. Pode ser o motor da vida, o combustível do ódio ou o caminho para a morte: só depende do tempero.

Para os artistas de rua, o sangue derramado se transforma em indignação e dá vida em forma de poesia. O sangue de Amarildo, de Cláudia Ferreira, dos indígenas massacrados em sua própria terra, da juventude negra exterminada pelos “cidadãos-de-bem”, das famílias vitimadas pelo ciclo da violência urbana, das mulheres estupradas e massacradas pelo patriarcado, de todos aqueles que derramam seu sangue lutando por direitos, por terra, por um teto ou simplesmente pra sobreviver.

É embaixo do viaduto do DIA que a indignação banhada de vermelho-sangue se transforma em poesia e estremece o concreto de cima, ecoa pelos lados. É pelos microfones corajosamente improvisados entre os espaços legitimados de moradia, cultura, comércio e transporte público que os artistas e poetas marginais arrombam as portas da cegueira coletiva.

É pelo sangue derramado no asfalto em meio a uma surdez coletiva que grita por prisões, opressões e linchamentos como medida de “proteção” que a indignação se transforma em arte. E é através da arte que os poetas marginais gritam: por trás de cada grade erguida contra um adolescente, em cada marca de violência cravada no corpo de uma criança, a cada litro de sangue que se derrama por “justiça”, toda surdez será castigada – já cantavam os poetas marginais da Nação Zumbi.

O QUÊ? #20 SARAU DEBAIXO

QUANDO? 21 DE JULHO. ÀS 19H.

ONDE? EMBAIXO DO VIADUTO DO DIA.

*Priscila Viana é jornalista e membro da Rever

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