Todos os caminhos levam a Cuba

everlane 1Em conversa com a Revista REVER, a cineasta sergipana Everlane Moraes conta sobre a árdua trajetória que é fazer cinema no Brasil e em Sergipe

por Geilson Gomes

“Quando saiu o resultado da seleção no dia 3 de junho, foi toda aquela felicidade, depois disso, entramos no grande lance: como vamos fazer para subsidiar 25% do que falta para poder ingressar na Escola”. Este relato é de Everlane Moraes, cineasta negra e sergipana, selecionada para estudar na Escuela Internacional de Cine y TV, localizada em San Antonio de Los Baños, Cuba.  Mais do que a tarefa de arrecadação de dinheiro para sua viagem, Everlane, em conversa com a Revista REVER, conta como está sendo o percurso, os encontros e a árdua trajetória que é fazer cinema no Brasil e em Sergipe.

Os primeiros passos

A estratégia inicial pensada por Everlane e sua equipe foi procurar coletivos de cinema negro no Brasil e órgãos oficiais. “A gente enviou ofício para a universidade, Secretaria de Cultura e Educação, NPD Orlando Vieira, entre outros. Cheguei a ir pessoalmente para alguns desses órgãos. Só que até agora não recebemos respostas de nenhum deles. Mandamos carta para o MINC, Palmares, SNJ (Secretaria Nacional de Juventude) e SAV (Secretaria do Audiovisual), mas até agora nada. Eu “tô” a um mês de ir embora, e até agora nenhuma resposta efetiva”, diz.

Outra ação que vendo sendo tocada é a Campanha Travessia Cine Cuba, que busca recursos financeiros para efetivação de parte do pagamento da bolsa e estudos. A Campanha está em uma plataforma online de arrecadação colaborativa e vem sendo divulgada pela cineasta em diversos espaços culturais de Sergipe. “Estou contando mesmo é com a ajuda de familiares, amigos, admiradores, coletivos e Saraus. Tem muita gente doando. O dinheiro que não está na plataforma online estou encaminhando para o passaporte, visto, seguro saúde, seguro viagem e os gastos de panfleto e de passagens para ir aos lugares para pedir mais apoios”. O recurso estipulado na plataforma é de R$ 20 mil, corresponde a tudo que a cineasta precisa para se manter por três anos. Confira o site da Campanha: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/campanha-travessia-cine-cuba.

Desempregada e pobre, pedindo dinheiro para a família para rodar pela cidade, Everlane achou que seria mais fácil esse caminho. “Pensei que os coletivos chegariam de forma mais expressiva e o movimento negro também. São pessoas específicas do movimento negro que estão apoiando. Muita gente da velha guarda do movimento, que tem caminhos para me direcionar, está agora nos cargos políticos. Porém, agradeço o apoio do Grupo Abaô, da Auto-organização das Mulheres Negras de Sergipe e a UNEGRO/SE.  A PALMARES (Fundação Cultural Palmares) e o MINC, afirmaram que tem a perspectiva de ajudar, a SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) não me ajudou ainda. Inclusive seria até interessante para eles essa contribuição, já que sou uma cineasta negra. A simples divulgação em seus sites ajudaria inclusive no fortalecimento da Campanha. Sem a mediação desses órgãos, às vezes, é muito difícil. Não precisaria vender meus livros, violino e pedir dinheiro no sinal”.

Para Everlane, os órgãos oficiais ainda não entenderam a importância de uma cineasta negra e nordestina ir estudar cinema em Cuba. “Acho que eles ainda não entenderam o cinema, que linguagem é essa, que plataforma revolucionária é essa, que arma é uma câmera e que importância o audiovisual tem para um estado como Sergipe”, coloca, acrescentando que é uma grande peleja convencer as pessoas nesses órgãos. “Eu tenho que falar com cinco pessoas, explicar para as cincos a minha situação, até chegar na pessoa responsável, até ele entender…é um problema seríssimo. Eu parei de buscar auxilio institucional porque é muito burocrático e eu não tenho tempo para isso!”.

Os encontros

Vários eventos vêm sendo realizados a fim de ajudar a jovem cineasta. De acordo com ela, o Sarau Travessia, que aconteceu no Museu da Gente Sergipana, conseguiu arrecadar cerca de R$ 1.100,00. Foi com esta grana que ela conseguiu pagar a passagem para Cuba, mas ainda falta a grana para ir pro Rio de Janeiro. “Estes encontros estão bacanas nesse sentido, pois mostra a força que os coletivos e pessoas aqui de Sergipe têm. Diferente dos órgãos e alguns movimentos. Tem uma galera que tá chegando junto. Neste momento, várias campanhas de arrecadação online estão acontecendo em Sergipe, revelando a potencialidade dos coletivos, bandas e as pessoas”, afirma.

“Fui em empresas e sai arrasada. Tenho uma lista enorme de matérias que preciso. Tomada, cabo, lanterna, coisas pequenas. Foi um desconforto terrível. Eles não sabe que existe a Lei Rouanet e que tem isenção de impostos. Eles nem sabem que pessoas fazem cinema em Sergipe”, comenta.

travessia

A bagagem

Tendo como referência os cineastas sergipanos: Leonardo Alencar, Ilma Fontes e Marcelo Déda, que trabalharam com o cinema, a fotografia e o documentário, Everlane relata que a história do cinema mundial se confunde com a história de Sergipe. “Um dos primeiros cinemas do mundo foi o Cine Rio Branco. Tem um pessoal antigo que afirma que tinham vários cinemas na cidade e no interior, com muita atividade de cine clubismo”.

“Outra referência minha é o Cândido Aragonez. O primeiro cartaz de cinema do mundo foi feito por ele, sergipano de Laranjeiras. Ele trabalhou diretamente com os irmãos Lumière, utilizando xilogravura, litografia, aquarelas – técnicas que na época eram inovadoras”. Além da velha guarda, Everlane destaca os cineastas contemporâneos. “Na atualidade tem Moema Pascoini, Raphael Borges, Baruch Blumberg, Gabriela Caldas, Carolina Mendonça – do filme belíssimo chamado ‘A mão que borda’. Tem também Marcelo Roque Belarmino, com filmes marginais e de guerrilha. E tem uma grande cineasta negra, Luciana Oliveira”, frisa.

Quem assiste aos dois filmes de Everlane, ‘Caixa D’água: quilombo é esse?’(2013) e “Conflitos e abismos: a expressão da condição humana” (2014), vê a representatividade do negro e seu protagonismo na sociedade. Conforme Everlane, a luta pela representatividade do negro, que aparece em suas películas, decorre do reconhecimento desses povos enquanto cidadãos plenos, ainda que sua história faça menções à violência da diáspora africana. “Foi vendo a comunidade que vivo, (que é um quilombo urbano),  que optei por exaltar a sua relevância histórica e foi enfrentando os novos problemas de ser negro hoje que cresci e formei boa parte de minhas referências estéticas, que pretendo explorar em filmes futuros”, reflete.

Sobre suas produções, a cineasta afirma que elas deveriam ser usadas como material didático nas escolas sergipanas. “Já era pra ter um box com os filmes sergipanos nas escolas. E a partir da lei 10.639 (lei da afroeducação), meus filmes deveriam ser mostrados nas escolas públicas. Um material que é altamente educativo. O dinheiro dos meus filmes veio de editais públicos. Isso demonstra o descaso que o poder público tem com os artistas né?. Quer dizer, o estado só me dar o dinheiro pra fazer o filme. Tem que alimentar toda a cadeia produtiva e criativa do artista. Dá o dinheiro, mas na hora de exibir os filmes e concorrer nos festivais, a gente não consegue apoio”.

Fazendo referência ao filme, ‘A eterna maldição do cacique Serigy’, de Alessandro Santana, Bruno Monteiro e Mauro Luciano, da produtora Faz o que Pode, Everlane denuncia o provincianismo social sergipano. “A lenda que diz que o cacique Serigy, quando os colonizadores dizimaram os indígenas, profetizou que nada aqui ia vingar. Estamos vivendo no cemitério de caranguejo. Terra provinciana e de coronéis. Embora com uma cultura riquíssima. Contudo, essa praga não pegou em todo mundo não. Não pegou em nós dos quilombos: negros e indígenas, e em nossos amigos que resistem fazendo cinema de forma independente em Sergipe”.

O Horizonte

“Eu vou tentar vender artesanato, desenhar, fazer tranças e vender meus filmes nas feiras livres de Cuba. Vou trabalhar nos fins de semana também”, além disso, Everlane projeta os próximos filmes. “Pretendo fazer filmes em Cuba e depois que o curso terminar vou pra França fazer dois filmes, que é um filme sobre a história dos sergipanos Cândido Aragonez e Horácio Hora e outro filme que faz analogia ao filme ‘Eu, um negro’, de Jean Rouch, que retratará a diáspora”, expõe.

É com a cabeça erguida e com a força de nossos ancestrais negros que Everlane vai seguindo em frente. “Sempre lembro da frase de Zumbi que diz: vamos fazer mais o mundo de nosso jeito. Se não está bom, vamos ficar de braços cruzados? Não. Eu vou pra Cuba”.

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Nota da redação

É com grande satisfação que a Revista Rever e a cineasta Everlane Moraes, em parceria com o Grupo Abaô, vem convidar todos os leitores e colaboradores para participar do Cine Clube Musical – Travessia Cuba, que irá acontecer no dia 31 de julho, na sede do Grupo Abaô, às 17h. O evento custa R$ 5,00 e toda grana arrecadada será revertida para a Campanha Travessia Cine Cuba.

O QUE: CINE CLUBE MUSICAL – TRAVESSIA CUBA

QUANDO: 31 DE JULHO

LOCAL: GRUPO ABAÔ (RUA REIS LIMA, EM FRENTE AO CAIC – BAIRRO INDUSTRIAL)

CONTRIBUIÇÃO: R$ 5,00

HORÁRIO : 17H

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